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Pesquisas e novas informações sobre o zika vírus, suas formas de transmissão e prevenção têm inundado todos os dias o noticiário desde as primeiras desconfianças de que a epidemia, do até então inocente vírus, que mal causava sintomas, estaria ligada ao aumento de casos de microcefalia no país. Do Brasil, ganhou o mundo. Estampa páginas de jornais dos nossos vizinhos, como Colômbia e Equador, e até cientistas norte-americanos andam às tampas com novas e urgentes pesquisas.

Em um dia, autoridades mandam as mulheres fecharem as fábricas: a ordem é não engravidar. No outro, órgãos internacionais dizem que não é bem assim, especialmente em países em que métodos contraceptivos não alcançam toda a população. De repente, não se sabe se de fato a microcefalia está ligada ao zika ou não. E quando você se dá conta, cuidar da água parada dentro de casa não é o bastante porque cientistas estão dizendo por aí que o zika é transmitido pela saliva e pelo sexo.

Embora tenha sido identificado nos anos 1940, a ciência nunca deu muita bola para o zika, porque os focos de transmissão eram isolados e os casos, simples. Só agora, com a microcefalia, a ciência acordou para o perigo. Por isso, a enxurrada de novidades, dia após dia. O mundo inteiro comprou a briga, sob o risco de que uma geração inteira esteja comprometida pela malformação.

Para facilitar, Metrópoles fez uma lista com tudo o que você precisa saber sobre o vírus e o que os cientistas andam descobrindo (ou tentando) sobre ele. Muitos países estão envolvidos em estudos e no desenvolvimento de vacinas. Mas, como o surto ainda é mais importante aqui – cerca de 1,5 milhão de pessoas infectadas, quase 5 mil casos suspeitos de microcefalia – a maioria ainda se concentra nos laboratórios brasileiros. Aqui vai tudo o que você precisa saber sobre o assunto:

Divulgação

1. A Fiocruz desenvolveu um kit para diagnóstico simultâneo de dengue, zika e chikungunya:
A tecnologia foi anunciada em janeiro passado e é importante no combate do Aedes por vários motivos. Primeiro, porque é mais barato. Hoje, o diagnóstico do vírus é feito com material importado, custoso para os cofres públicos e, para se descartar a presença dos vírus da dengue e chikungunya na amostra, é necessário realizar os testes separadamente. O kit brasileiro identifica os três de uma vez e acelera o resultado. Até o fim do ano, o Ministério da Saúde deve encomendar 500 mil kits.

2. Proteínas virais foram encontradas nas células placentárias (mãe e feto):
O achado, que também é da Fiocruz, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Paraná, foi anunciado no fim do mês passado e confirma a transmissão intra-uterina do zika ao bebê, um passo importante na confirmação da relação zika-microcefalia. Os pesquisadores analisaram amostras da placenta de uma gestante que apresentou sintomas de infecção por zika e que sofreu um aborto retido — quando o feto deixa de se desenvolver dentro do útero — no primeiro trimestre da gestação.

Guga Matos/Estadão Conteúdo


3. Existem duas vacinas em estudo, mas elas podem demorar anos para chegar à população:
A Sanofi Pasteur, responsável pela vacina contra dengue aprovada no Brasil em dezembro, anunciou recentemente estudos para uma possível imunização contra o zika. A ideia é usar o conhecimento adquirido durante a elaboração da Dengvaxia (contra dengue), que levou 20 anos para ficar pronta. Na quinta-feira (11/2), o Ministério da Saúde anunciou uma parceria com o Instituto Evandro Chagas e a Universidade do Texas, nos EUA, para desenvolvimento de uma vacina. Ela deve começar a ser testada em um ano em animais e mais dois em humanos, para só depois ser distribuída à população.

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4. Vírus na forma ativa foi encontrado na saliva e na urina, mas transmissão não foi confirmada:
Era sexta-feira véspera de carnaval quando a Fiocruz fez um anúncio bombástico: o vírus na sua forma ativa foi encontrado na saliva e na urina, o que abriu a possibilidade de que o zika pode também ser transmitido de pessoa a pessoa, e não apenas pelo mosquito. A hipótese ainda não foi confirmada, por isso ainda precisa de mais testes. “Alguns vírus são encontrados em fluidos corporais, mas não têm capacidade de transmissão. Não há recomendação ainda para se criar alguma precaução ou alarde”, diz o infectologista Alberto Chebabo, do laboratório Exame.

5. Barack Obama pediu US$ 1,8 bilhão em verba emergencial ao congresso americano:
O pedido foi feito na última segunda-feira (8/2) para barrar qualquer possibilidade de que a epidemia chegue aos Estados Unidos. O dinheiro deve ser direcionado a expandir programas de controle de mosquitos, desenvolvimento de vacinas e programas educacionais, principalmente direcionados às gestantes. Até agora não há registro de casos de zika transmitido por mosquitos dentro do país. Mas foram confirmados 50 casos da doença em pessoas que viajaram para áreas infectadas.

6. Além de microcefalia, zika pode causar lesões oculares graves nos bebês:
A pesquisa é uma parceria entre médicos da Fundação Altino Ventura, de Pernambuco, e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Eles analisaram 55 crianças com suspeita de microcefalia. Destas, 40 confirmaram a condição e entre 30% e 40% delas apresentaram lesões na mácula, coroide (responsável pela nutrição do olho), retina ou nervo óptico. São lesões similares às causadas pela sífilis, rubéola e citomegalovírus, mas mais agressivas e possivelmente irreversíveis.

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7. Uma bactéria pode ajudar a reduzir a transmissão de dengue, febre amarela, malária e zika:
O nome dela é Wolbachia e ela é uma das estrelas de um estudo do projeto internacional “Eliminar a Dengue: Nosso Desafio”, trazido pela Fiocruz ao Brasil em 2012. Segundo os cientistas, a Wolbachia já está naturalmente presente em mais da metade dos insetos – pernilongos inclusive – e por, algum motivo, inibe a transmissão dos vírus da dengue e da febre amarela. Como eles são da mesma família do zika, agora cientistas correm para investigar se ela pode ajudar a frear e epidemia.

“Depois de milhares de tentativas ao longo de quatro anos, foi conseguido com êxito introduzir a Wolbachia dentro do ovo do Aedes com uma agulha extremamente fina, Ela é passada naturalmente da fêmea aos filhotes. Este é um diferencial do projeto, pois garante sua autossustentabilidade”, explicou ao Metrópoles o pesquisador da Fiocruz Luciano Moreira, coordenador do projeto no Brasil.

8. Mais de 3 mil grávidas têm zika na Colômbia, mas não há nenhum caso de microcefalia:
A notícia coloca um grande ponto de interrogação em tudo o que se sabe sobre microcefalia e infecção por zika vírus até agora. Não há nenhum registro de microcefalia ligada ao vírus no país, apesar das quase 26 mil pessoas infectadas, sendo 3,1 mil gestantes. No ano passado, o Ministério da Saúde confirmou a relação entre a malformação e o vírus na região Nordeste do país.

9. Tem gente pedindo o cancelamento das Olimpíadas do Rio de Janeiro:
No início do mês, cientistas norte-americanos publicaram na revista Forbes uma coluna para lá de alarmista dizendo que seria uma “irresponsabilidade” manter os Jogos Olímpicos do Rio diante da epidemia de zika. No texto, intitulado “Epidemia de zika significa que agora é hora de cancelar as Olimpíadas do Rio”, os cientistas dizem que o motivo é simples: “Mulheres jovens não podem viajar para lá com segurança”. O comitê olímpico americano já alertou que atletas e membros da delegação que se sentirem ameaçados pela epidemia, devem reconsiderar sua participação nos jogos.

J.P. Engelbrecht/Fotos Públicas


10. Alerta para que mulheres não engravidem tem gerado polêmica entre autoridades:
Corre solta pelos países, com surto de zika, a recomendação para que as mulheres adiem planos de uma gravidez. O alerta tem sido recebido com choque tanto pela população quanto por médicos. Na América Latina, pelo menos cinco países fizeram o apelo. Brasil e Equador por tempo indeterminado, Colômbia por seis meses, Jamaica por um ano e El Salvador até 2018. No entanto, algumas entidades e organizações pró-aborto têm argumentado que isso é irreal em lugares onde métodos anticoncepcionais não chegam a todas as mulheres e os índices de estupro são altos. No último dia 5/2, a ONU pediu que países que passam por epidemia do vírus revejam suas leis antiaborto.

11. Teste para diagnóstico hoje está disponível nas redes pública e privada, mas…
Se você procurar um médico com sintomas de zika, em qualquer hospital, provavelmente ele vai te pedir um exame para confirmar o diagnóstico. No entanto, a infecção por zika é assintomática em quatro de cada cinco casos, o que significa que dificilmente você vai procurar um médico. E sem sintoma fica difícil diagnosticar: o teste só é eficiente até o quinto dia do aparecimento dos sintomas.