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Há dois anos, o GDF iniciou um projeto de remodelação no sistema de atendimento na saúde pública local. O objetivo, segundo o governo, era desafogar a demanda nos hospitais regionais. Para isso, foi determinado que a atenção primária seria feita nas Unidades Básicas de Saúde (UBSs). Entretanto, na avaliação de pacientes e servidores, a estratégia agravou os problemas existentes e criou outros.

Por falhas na orientação, doentes padecem todos os dias nas diferentes regiões administrativas, sem saber a qual instituição recorrer em cada situação. Devido a esse impasse, a população se vê em um jogo de empurra entre os hospitais regionais e as UBSs.

O Metrópoles percorreu quatro desses locais – antes denominados centros de saúde – em Taguatinga, Ceilândia, Gama e Sobradinho. Neles, encontrou pacientes confusos sobre as mudanças no atendimento. Houve quem tivesse peregrinado por quatro hospitais regionais para conseguir atendimento e quem chegasse ao nono mês de gestação sem acompanhamento pré-natal adequado.

E, neste domingo (5/8), inaugura uma série de reportagens nais quais abordará problemas de diversos setores, como saúde, educação, mobilidade e segurança pública. A cada editorial, todos os candidatos ao GDF serão questionados sobre o que eles fariam, caso eleitos, para solucionar as questões. Confira, ao final da matéria, o que os políticos têm a dizer.

“Fui a Taguatinga, Ceilândia, ao Guará e Gama até que meu filho fosse atendido, no Hospital da Criança de Brasília. Só consegui porque ele estava com 40 graus de febre”, conta a manicure Raquel Pereira de Oliveira, 30 anos, moradora de Ceilândia.

No mês passado, o filho caçula de Raquel, 3, teve uma das recorrentes crises de bronquiolite (doença respiratória causada por infecção viral). Como reação imediata, a mulher o levou a um hospital regional. Mas, segundo contou, recebeu a informação de que não havia vaga nas emergências desse tipo de unidade.

Também em julho, o menino contraiu sarampo. Ele está curado e, agora, recebe acompanhamento na UBS 10 de Ceilândia. Apesar disso, Raquel ainda demonstra confusão sobre o atendimento. “Ficamos num ‘vai e volta’. É complicado, porque não tenho condições de pegar ônibus com meu filho mal”, reclama. A mãe da criança se queixa ainda de mau-trato dos profissionais, o que, conforme ela, culmina na falta de orientação adequada dos pacientes.

Sem acompanhamento na reta final
Grávida de nove meses, a pedagoga Poliana Araújo, 25, relatou dificuldade em continuar o acompanhamento pré-natal na rede pública. A penúria dura um mês. Antes disso, de acordo com a gestante, o atendimento transcorria normalmente. “No quinto mês de gravidez, descobri diabetes. Fui à UBS 7 de Taguatinga, onde o médico fez encaminhamento para eu ir à emergência do hospital regional da cidade [HRT]”, conta.

Poliana, então, recorreu ao HRT. Mas, conforme afirma, não tem recebido atendimento nem na unidade nem na UBS. Retornou ao centro de saúde, localizado a três quadras de onde mora, na última quinta-feira (2), em situação de desespero, pois o parto está próximo: a previsão para ela dar à luz é 20 de agosto. A mulher se queixou de dores no corpo, principalmente nas costas, e edema nos pés causados pela diabetes gestacional.

“Vim pela última vez em 23 de julho, remarcaram a consulta para hoje [quinta]. Falaram que não tinha médico na equipe. Isso me atrapalha no meu serviço e no do meu marido também. É ele quem me traz”, lamenta. “Dependo de posições dos médicos. Tanto do HRT quanto da UBS”, afirma Poliana.

Adequação
A proposta do modelo executado pela Secretaria de Saúde do DF (SES-DF) poderia alavancar a área, mas vários entraves retardam o processo. A afirmação é da professora de saúde coletiva da Universidade de Brasília (UnB) Carla Pintas Marques.

A docente acredita que a transferência, às UBSs, de parte da demanda atribuída durante décadas aos hospitais regionais tem potencial para desafogar o sistema. O problema, diz, se dá a um conjunto de fatores, entre eles, a falta de recursos financeiros, insumos e profissionais.

E mais: falhas na orientação também têm confundido os pacientes. “Com a mudança, houve desconforto grande dos profissionais. Às vezes, má vontade deles, não entendem, são contrários”, pontua.

“Às vezes, a gente culpabiliza o gestor máximo do setor, mas não é ele quem vai resolver. É um conjunto. Prova disso é que há lugar onde se atende bem e outros em que se atende mal”, ressalta. Por fim, Carla salienta a necessidade de a população se acostumar a esse novo processo, de diferenciar as situações nas quais deve recorrer a hospitais ou UBSs.

Outra questão, diz a especialista, refere-se à descontinuidade de políticas públicas de saúde. De acordo com a docente, nos últimos 20 anos, todos os governadores do DF modificaram bastante as diretrizes da saúde local. Dessa forma, a cada gestão, muda-se toda uma estrutura, sem conseguir implementar soluções definitivas.

Desinformação
Enquanto isso, a população fica refém da falta de orientação adequada. A situação da dona de casa Fabiana Plasto, 37, ilustra o vaivém dos pacientes. Há três semanas, ela começou a sentir mal-estar, fraqueza e dor no corpo.

Moradora do Gama, foi ao hospital regional da cidade (HRG). Porém, não recebeu atendimento. Na quinta (2), deslocou-se até a UBS 5, onde pegou pedidos de exames, duas semanas após o início dos sintomas, que, segundo a dona de casa, não passaram desde então.

Fabiana passará por parte dos procedimentos na próxima segunda (6), no HRG. Os resultados devem ficar prontos depois de 15 dias. Enquanto isso, a mulher teme pelo agravamento do quadro de saúde. “Não sei o que tenho, nem o médico. Estou preocupada”, lamenta.

Hugo Barreto/Metrópoles

Fabiana Plasto sente mal-estar há três semanas e busca atendimento em UBS do Gama

O que dizem os buritizáveis
O Metrópoles questionou os candidatos a governador do DF sobre o que podem fazer para resolver esses impasses na saúde pública. Confira:

Até a publicação desta reportagem, os buritizáveis Alberto Fraga (DEM), Júlio Miragaya (PT) e Ibaneis Rocha (MDB) não haviam respondido o contato da reportagem.

O que diz a SES-DF
Diretor da Estratégia Saúde da Família (ESF) da Secretaria de Saúde do DF, Wallace Santos recomenda a ida às UBSs em casos considerados mais leves. “Inclusive, nos agudos, como dor de cabeça forte e infecção intestinal. Deve-se procurar emergências de hospitais em situações mais graves”, exemplifica.

Apesar disso, o diretor diz que pacientes não terão atendimento recusado se chegarem às UBSs com quadros delicados e urgentes.

Santos destaca também que essas unidades não dispõem mais de médicos especialistas focais, como ginecologistas, pediatras e infectologistas, por exemplo. “Esses profissionais estão em atenção secundária, em ambulatórios”, explica.

Hoje, o DF conta com 171 UBSs, incluindo as prisionais, segundo o diretor. Wallace Santos afirma que em todas elas há atenção primária. Cada equipe das UBSs é composta por um médico de família e comunidade, um enfermeiro, um ou dois técnicos de enfermagem e até seis agentes comunitários.

O diretor reforça que “toda mudança requer tempo e é algo paulatino”, pois, de acordo com Santos, os usuários precisam se acostumar ao novo modelo. Por fim, o integrante da secretaria ressalta que os pacientes devem procurar as UBSs não somente quando estiverem doentes, mas para fazerem a prevenção.