Cirurgias estéticas malfeitas fazem vítimas no DF e país afora

Grande oferta de operações plásticas e procedimentos estéticos invasivos traz riscos a quem procura melhorar a aparência

Rafaela Felicciano / MetrópolesRafaela Felicciano / Metrópoles

atualizado 31/07/2018 15:31

A escolha de corrigir imperfeições do corpo com cortes e agulhadas pode custar mais caro do que o previsto. São procedimentos invasivos que, se feitos de maneira inadequada ou por profissionais despreparados, podem representar alto risco à vida. As recentes prisões do médico Denis Cesar Barros Furtado, o “Dr. Bumbum” e de Patricia Silva dos Santos, que se identificava como “Paty Bumbum”, reacenderam o debate sobre os limites da busca pelo corpo perfeito. A vaidade pode matar.

O “Dr. Bumbum” foi indiciado por homicídio doloso qualificado pela morte da bancária Lilian Calixto, 46 anos. Já “Paty Bumbum” acabou detida por exercício ilegal de medicina. Mesmo sem formação profissional, ela fazia aplicações de silicone industrial nas nádegas de pacientes com seringas de uso veterinário. As prisões ocorreram no Rio de Janeiro, mas não faltam casos semelhantes país afora. Muitos deles, fatais.

A beleza de Lanusse Martins Barbosa ficou conservada nas muitas fotografias guardadas pela mãe, Graça, na casa onde mora, no Lago Norte. Aos 27 anos, a jovem escolheu passar por sua segunda cirurgia plástica, uma lipoaspiração.

A operação chegou a ser marcada com o profissional que havia colocado suas próteses de silicone nos seios. Por indicação de uma amiga, contudo, a cirurgia foi agendada com outro médico, Haeckel Cabral Moraes.

Graça levou a filha para o hospital e aguardou por mais de duas horas até receber notícias. Durante o procedimento, Lanusse precisou ser reanimada. Depois de várias tentativas, a moça se foi. Deixou um filho, na época com 7 anos. A morte da filha, ocorrida em 21 de janeiro de 2010, está presente todos os dias na vida da mãe.

 

Os artigos religiosos expostos na sala de casa mostram que Graça é uma mulher de fé. Mas, para ela, o falecimento de Lanusse não estava nos planos de Deus.

Perdi minha filha por um descuido médico. Sou católica, penso que há o dia de partir, mas hoje vejo que houve negligência da parte dele. Os médicos precisam ter mais consciência, e a gente precisa buscar mais informações sobre os profissionais, não ir pela vaidade. É um risco grande. Hoje, sou contra cirurgias plásticas

Graça, mãe de Lanusse

Também foi essa a conclusão da 4ª Vara Cível de Brasília. Apesar da condenação em primeira instância, oito anos depois, a família ainda não recebeu nenhum tipo de indenização. Haeckel Cabral Moraes continua atuando, com registro no Distrito Federal e em Minas Gerais.

Em sua defesa, o médico alegou que a morte foi uma fatalidade causada, segundo ele, possivelmente por embolia gordurosa ou problemas cardíacos da paciente. Haeckel também ressaltou que agiu em conformidade com as recomendações preconizadas pela ciência médica.

 

Processo se arrasta há quatro anos
A família de Railma Rodrigues Soares de Siqueira enfrenta situação semelhante. Dias após uma plástica feita numa clínica em Taguatinga, a mulher de 32 anos passou mal, entrou em coma e teve falência dos órgãos.

A morte cerebral foi confirmada em maio de 2014. A irmã, Rosimeire Rodrigues Soares, afirma que houve negligência. Quatro anos depois, o processo, que corre em segredo de Justiça, segue em tramitação.

Rosimeire lamenta a perda e a demora em ver um desfecho. “Fomos enganados. Nós tínhamos condições de transferi-la para o melhor hospital de Brasília a qualquer momento se tivessem falado para a gente que ela não estava bem. Este é o alerta maior: se existe um sintoma, se achar que deve recorrer ao hospital, vá”, orienta a irmã.

A vida da minha irmã acabou, e a de quem fez a cirurgia continua igual. A gente fica revoltado em ver a morosidade da nossa Justiça. Quantas outras Railmas precisam morrer?

Rosimeire, irmã de Railma
Arquivo pessoal
Railma Rodrigues Soares de Siqueira teve morte cerebral aos 32 anos em decorrência de uma lipoaspiração

 

“Dr. Bumbum” também fez vítimas em Brasília
O desejo de ficar mais bonita pelas mãos do médico Denis Furtado, o qual colecionava seguidores em redes sociais, fez com que a bancária Lilian Calixto se deslocasse de Cuiabá ao Rio de Janeiro.

O “Dr. Bumbum” já tinha o registro profissional cassado no Distrito Federal, não possuía especialização reconhecida pelo Conselho Regional de Medicina da capital (CRM-DF) e fazia fazia bioplastias de forma clandestina. Horas após o procedimento em Lilian, realizado numa cobertura na Barra da Tijuca, ela morreu.

Facebook/Reprodução
Lilian morreu após se submeter a cirurgia com o “Dr. Bumbum”

 

Após a fatalidade, outras pacientes do “Dr. Bumbum” contaram suas histórias. Uma moradora de Brasília que pediu para não ser identificada foi orientada a fazer, com uma tesoura quente, a cauterização de uma ferida aberta durante o procedimento.

A recomendação médica foi passada por áudio do WhatsApp. O conteúdo foi revelado pelo Metrópoles.

Confira:

 

A mulher conta que procurou o procedimento depois de ver o resultado de uma colega de trabalho. Pagou R$ 12 mil para melhorar a aparência dos glúteos sem que a família soubesse.

“Parece uma lavagem cerebral. Pessoas que fizeram a cirurgia também influenciaram. Agora, eu me arrependi. No começo, fiquei muito feliz. Na verdade, estou satisfeita com o resultado, mas não sei se futuramente vai me causar algum dano. Estou fazendo exames para checar”, conta.

A banalização das plásticas
A psicóloga Joana Neves, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), explica: mesmo sabendo dos riscos, as pessoas acham que vale a pena buscar plásticas e outros tratamentos invasivos para melhorar a aparência.

Não é só banalização e contar com a sorte. Isso nos dá a dimensão do valor da aparência. O corpo representa o maior capital na cultura contemporânea e é uma moeda de troca valiosa. Existe um imaginário de que você não precisa conviver com o defeito, que se pode eliminá-lo, e em várias prestações

Joana Neves, coordenadora do Núcleo de Doenças da Beleza da PUC-RJ

Para a especialista, tolerar as imperfeições estéticas é fundamental para se evitar riscos. A orientação dela a quem pretende fazer algum procedimento cirúrgico é passar por uma avaliação psicológica. “A escolha precisa ser lúcida. As pessoas fazem como uma estratégia de inclusão social, é criada uma coisa normativa. ‘Porque todo mundo faz, eu também tenho que fazer.’ Será?”, questiona.

Invasão da área médica
O Brasil é o segundo país onde mais se realizam cirurgias plásticas, perdendo apenas para os Estados Unidos. Mas outros profissionais da área de saúde também são responsáveis por tornar acessíveis à população muitos outros procedimentos usados para fins estéticos.

A carboxiterapia, por exemplo, feita com a inserção de gás carbônico sob a pele com uma agulha fina, é vendida em clínicas de Brasília em um grupo de compras coletivas. A promessa é diminuir as gorduras localizadas, celulites e flacidez.

Uma das ofertas, em Águas Claras, é de quatro sessões por R$ 39,90. A profissional responsável pelo procedimento é uma biomédica. Em outra clínica, na Asa Sul, uma fisioterapeuta anuncia a prática.

Também buscam espaço no mercado da beleza farmacêuticos, enfermeiros e até dentistas. Na área de odontologia, o procedimento de bichectomia, para reduzir as bochechas dos pacientes, também é oferecido na capital.

Vidas em risco
Há regulamentações que permitem aos citados atuarem na área de estética, se tiverem feito um curso de especialização para tanto. Mas o CRM-DF e a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) são enfáticos em dizer que profissionais não médicos colocam a vida das pessoas em risco. Diversas especializações em estética não são reconhecidas. Para as entidades, o cenário é de invasão da medicina.

Nós vemos essa atuação com muita preocupação, porque alguns dos procedimentos só podem ser praticados por médicos. Há uma invasão e, muitas vezes, não temos como chegar lá e agir. Os casos se proliferam, e os danos à população às vezes são irreparáveis

Jairo Martinez Zapata, presidente do CRM-DF

Segundo a secretária adjunta da SBCP, Marcela Cammarota, uma briga judicial foi iniciada há cerca de três anos para que profissionais não médicos sejam proibidos de realizar procedimentos invasivos.

“A nossa Justiça é morosa, e o problema é grave. A SBCP recomenda que qualquer tipo de procedimento deve ser feito por dermatologistas ou cirurgiões plásticos. São profissionais com mais de uma década de estudo. Até mesmo as cirurgias mais simples têm risco de complicação. Enquanto dá certo, tudo bem. O problema é quando ocorre algum problema”, afirma Marcela.

O CRM-DF explica que, quando a atuação irregular de um médico ou não médico é informada à entidade, o Departamento de Fiscalização vai ao local e emite um relatório. Se houver suspeita, é aberta uma sindicância. Caso o profissional não seja médico, o respectivo conselho profissional é procurado.

Nos últimos oito anos, apenas cinco médicos foram punidos com a sanção máxima pelo CRM-DF: a cassação do registro profissional. O número de sindicâncias abertas não foi informado.

O perigoso uso estético do silicone industrial
Pessoas que não têm nenhum tipo de ligação com a área de saúde também arriscam aplicar conhecimentos caseiros em quem é vencido pela vaidade. Com 19 anos, Jarbas Marques, hoje com 50, decidiu injetar silicone industrial no peitoral para parecer mais musculoso.

O valor pago foi equivalente a três salários mínimos da época. Aos 38 anos, o silicone começou a descer pelo corpo. Como resultado, mais de 10 internações ao longo de três anos e cinco cirurgias para a retirada do material.

“Coloquei para ficar mais forte, como se tivesse bomba. Quando a gente vê uns fazendo, acha interessante. A gente vai por influência. Naquela minha época, não tinha recurso e havia muita gente que aplicava o produto clandestinamente”, lembra o autônomo, que pediu para não mostrar o rosto.

 

A aplicação do produto no corpo é proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e pode causar danos à saúde, desde alergias a graves infecções que podem levar à morte. Segundo Jarbas, alguns amigos perderam a vida porque tiveram infecção generalizada em decorrência do procedimento clandestino.

“Você nem imagina o sofrimento que eu tive nesses anos. Deus é bom e me deu essa oportunidade de vida. É uma nova cabeça. A gente, quando é novo, não tem muita noção do perigo. E não havia muita instrução. Hoje tem mais informação, mas, ainda assim, as pessoas se esquecem do perigo e querem apenas beleza”, afirma.

Prática disseminada entre travestis
O uso de silicone industrial, apesar de proibido, é comum entre a população de transexuais e travestis, conta Melissa Assunção, 28 anos. A estudante de direito aplicou, em 2014, dois litros do produto nos glúteos. O procedimento foi feito em São Paulo, na casa onde ela morava, e custou R$ 600.

Rafaela Felicciano / Metrópoles
Melissa Assunção colocou dois litros de silicone industrial no bumbum

 

“A prótese de bumbum não chega a fazer o efeito que o silicone industrial [obtém], porque este último pode ser moldado. Não foi por questão de estética, foi uma questão de padrões. Todas as travestis tinham. Até o momento, eu não me arrependo. Mas tenho medo de, em alguma época da minha vida, sofrer complicações”, afirma.

 

Quadrilha presa
A aplicação clandestina de silicone industrial em transexuais era uma das frentes de atuação de um grupo criminoso desarticulado pela Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes por Orientação Sexual (Decrin) em 26 de setembro de 2017. Os detidos eram acusados, entre outros delitos, de traficar mulheres e travestis.

Entre os presos na Operação Império, estava uma mulher que atuava como “bombadeira” – assim são conhecidas as pessoas que aplicam o silicone industrial. A suspeita fazia os procedimentos em uma casa localizada em Taguatinga.

“A falta de dinheiro e a busca por um resultado rápido são motivos para que elas procurem o silicone industrial. São muito vaidosas, fazem tudo pela beleza. E muitas não têm condições de procurar médicos”, conta a titular da Decrin, delegada Glaucia Cristina da Silva.

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