Acumuladores preocupam o DF em meio à emergência contra a dengue

Grande quantidade de materiais amontoados pode favorecer a reprodução do mosquito transmissor da doença

Michael Melo/Metrópoles

atualizado 16/02/2020 17:04

Em meio à situação de emergência na saúde pública pelo risco de epidemia de dengue no Distrito Federal, uma prática que contribui para gerar focos do mosquito Aedes aegypti tem preocupado brasilienses e o governo local: acumular.

Ao guardarem grande quantidade de materiais pela dificuldade de se desfazer deles, os acumuladores podem favorecer a reprodução do mosquito transmissor da dengue, doença que apresenta números alarmantes na capital (veja gráficos abaixo).

Segundo mostra o último Boletim Epidemiológico divulgado pela Subsecretaria de Vigilância à Saúde, em 31 de janeiro, o problema é crítico no DF. A quantidade de casos subiu de 704 para 1.296 na comparação entre o primeiro mês de 2019 e o mesmo período de 2020.

Para enfrentar o risco de epidemia da doença, a Secretaria de Saúde (SES-DF) realiza ações de combate em cada uma das 33 regiões administrativas do DF. Uma das atividades do governo é o acompanhamento desses acumuladores de lixo.

De acordo com um levantamento feito pela subsecretaria, existe uma média de 15 a 40 acumuladores por RA no Distrito Federal. Por unirem muitos materiais de forma desorganizada, essas pessoas podem contribuir para o armazenamento de água parada nas residências.

Quem vive próximo a um acumulador reclama do perigo que mora ao lado. O mau cheiro e os insetos são alguns dos problemas que vizinhos têm que lidar.

“O acumulador tem uma atividade muito complexa. Ser um acumulador, desde 2013, é tido como um transtorno. Porque essa pessoa acha que aqueles materiais ainda serão utilizados em algum momento. Ela pega ‘aproximação’ por esses objetos e não consegue se desfazer”, explica o diretor de Vigilância Ambiental em Saúde, Edgar Rodrigues.

Na tentativa de que acumuladores interrompam essas práticas, a SES-DF adota procedimentos para auxiliá-los. Conforme o diretor, a subsecretaria possui 15 chefes em núcleos das regiões administrativas do DF que mapeiam pontos em que há acumuladores de lixo.

“Eles vão a essas residências e tentam convencer as pessoas a retirar os materiais dos imóveis. Muitas vezes, nós temos sucesso, mas quando não temos, entramos com assistência social, psicólogos da região, Defesa Civil, Vigilância Sanitária. Montamos um grupo com outros órgãos para tentar sanar essa situação”, salienta Edgar.

Produtos empilhados

Nesta semana, a Secretaria de Saúde encontrou, durante as ações de prevenção à dengue, a primeira casa de um acumulador em 2020. Na residência, em Ceilândia Norte, peças de automóveis, móveis velhos, garrafas e roupas empilhadas ocupavam as áreas interna e externa da casa.

O Metrópoles esteve no endereço na QNN 20 nessa sexta-feira (14/02/2020) e notou que, após a visita de agentes da SES-DF, os materiais que estavam na calçada foram retirados. Contudo, o imóvel permanecia repleto de objetos.

De acordo com a chefe do núcleo de Vigilância Ambiental de Ceilândia, Nilde Pereira, depois da inspeção na casa, verificou-se que o morador tem as características de um acumulador.

“A gente sabia do problema, mas como se ele trabalhasse com reciclagem. Só que a pessoa que trabalha com material reciclável consegue organizar tudo direitinho e tem o dia certo para recolher. O morador não tem esse aspecto”, pontua.

Conforme Nilde, no local, há vestígios de roedores e escorpiões. “Encontramos água parada onde estava descoberto por conta da chuva. Não havia foco do mosquito, mas, ainda assim, todos estão correndo risco de pegar dengue, porque estamos em período de muitos casos”, comenta ela.

Ratos e baratas

Moradora da rua, uma mulher de 43 anos que pediu para não ser identificada relatou à reportagem que o acumulador é agressivo e ameaça os vizinhos com frequência. “Ele recebe materiais e revende. Se ele só mantivesse o ganha-pão dele, tudo bem. Mas ele nos xinga, ofende a minha mãe, que é idosa”, narra.

Devido ao acúmulo de objetos de forma desordenada na casa do vizinho, a mulher contou que é comum encontrar ratos e baratas pela rua e em sua casa. “Ele sempre foi assim. Está aí há anos. Essa rua chegou a ficar intransitável de tanta coisa que ele deixava. Acaba que a gente sempre encontra muita barata e ratazana em casa por conta disso”, diz.

A aposentada Maria Antônia Sousa, 67, mora há 40 anos na casa ao lado da residência em que se acumulam os objetos. Atualmente, a mulher tenta vender o imóvel devido às dificuldades que ela, o marido e o filho têm de continuar vivendo no local.

“Eu não quero inimizade com ninguém, nunca tive problema, mas ele fica acusando a gente de denunciá-lo. Eu saio na calçada e ouço um monte de palavrão, de coisa ruim. Não sou obrigada a aguentar essas coisas”, reclama.

Francisco de Assis, 70, marido de Maria Antônia, chegou a colocar um muro na calçada para separar os dois imóveis por conta dos problemas provocados pelo acúmulo de lixo do vizinho. “Entrava piolho de cobra aqui. O cheiro ruim, as baratas… Não tem quem aguente isso aqui, não”, afirma.

O Metrópoles tentou conversar com o casal de moradores, mas ambos não quiseram dar entrevista. De acordo com a chefe do Núcleo de Vigilância, agentes têm uma reunião agendada com a família dos dois para que seja solicitado um apoio com assistentes sociais e psicólogos aos residentes.

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Mau cheiro e mosquitos

Na QS 11 do Areal, a reportagem localizou outro acumulador de lixo. Reginaldo Pereira do Nascimento, 59 anos, é acompanhado por equipes após a subsecretaria fazer uma inspeção em sua residência e classificá-lo como acumulador.

De acordo com Herica Cristina Marques Pereira, chefe do Núcleo de Vigilância Ambiental do Guará, responsável pela região, na casa do homem não foi encontrado foco do mosquito transmissor da dengue. No entanto, é necessário que o morador elimine a prática para evitar a criação de ambientes propícios para a reprodução do Aedes aegypti.

À reportagem, Reginaldo afirmou que trabalha vendendo materiais recicláveis e negou deixar lixo acumulado em sua casa. “Eu cato o que me interessa e deixo o lixo por lá. De 15 em 15 dias, um comprador vem buscar. Então, não acumula nada”, diz.

Entretanto, vizinhos reclamam do mau cheiro e da quantidade de mosquitos que as pilhas de objetos velhos atraem. No quintal do imóvel, a equipe da reportagem flagrou, em dois dias diferentes, sacos de lixo, roupas, peças de carro, caixas, telhas e pedaços de ferro amontoados.

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Vizinho do acumulador de lixo, um homem que pediu para não ser identificado relatou à reportagem que Reginaldo geralmente sai de casa e volta com sacolas repletas de materiais recicláveis, que ficam guardados em sua casa. “Antes, ele trabalhava vendendo esses produtos, mas agora não vende mais como antes. Só fica juntando”, comenta.

“O problema é que pode aparecer mosquito da dengue por lá. Tem três creches aqui na rua, muitas crianças. Dengue é algo perigoso para todos.”

De acordo com ele, pelo menos dois moradores do conjunto foram diagnosticados com a doença. Outra moradora da rua disse ao Metrópoles que chegou a sentir dores no corpo no início deste mês e pensou que tivesse sido infectada, devido à quantidade de mosquitos que vê na casa vizinha.

“Fui ao hospital, mas descartaram a dengue. Na hora, eu já pensei que fosse, porque é muita água acumulada, muito mosquito. Eu vivo colocando inseticida na residência”, enfatiza Ana Lúcia Nobre, 39 anos.

“Quando a gente veio morar aqui e viu a quantidade de lixo, teve medo, porque não é normal. Eu tinha até uma piscina de plástico, mas quando a vigilância veio, eu tirei para evitar. Não é só a gente que tem que cuidar, é para ser um trabalho de todos.”

Ana Karolline Rodrigues/Metrópoles
Ana Lúcia diz espalhar inseticida pela casa por conta da grande quantidade de mosquitos
Situação de emergência

Em 2020, foram 27 sinais de alarme, três casos graves e uma morte, na região Centro-Sul do DF, mais exatamente no Guará. A vítima tinha 60 anos. Já em janeiro de 2019, houve 18 casos com sinais de alarme, um grave e nenhum óbito.

A região considerada mais crítica é a Norte, com 338 casos prováveis. A cidade mais vulnerável é Sobradinho II, com 113 casos, seguida de Sobradinho I, com 109.

Editoria de Arte/Metrópoles

Em 2019, a dengue matou 62 pessoas. Em 2018, foram apenas dois óbitos, o que significa um aumento percentual de 3.000%. Trata-se do maior número de mortes na história do DF, batendo o recorde de 2015, quando 38 brasilienses perderam a vida por causa da doença.

As notificações aumentaram em número alarmante em 2019 em relação a 2018: subiram de 4.075, em 2018, para 50.449 no ano passado: uma variação de 1.138%. Desse total, 898 casos da doença foram confirmados.

No dia 24 de janeiro deste ano, o governador Ibaneis Rocha (MDB) assinou um decreto que declara situação de emergência na Saúde por 180 dias. O motivo é o risco de epidemia de dengue, potencial epidemia de febre amarela e da possível introdução dos vírus zika e chikungunya no DF.

Outra justificativa para a medida é a alteração do padrão de ocorrência de microcefalias — malformação congênita que pode ser associada à zika — no Brasil.

A partir dessa decisão, o Executivo local pode adotar medidas administrativas necessárias a fim de conter o avanço das doenças, incluindo compra de insumos e materiais e a contratação de serviços estritamente necessários ao atendimento da situação emergencial. Também é possível contratar pessoal por tempo indeterminado para combater a epidemia.

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