Brasilienses que moram no exterior contam como têm enfrentado a pandemia
Hoje morando nos Estados Unidos, Portugal, Canadá e Inglaterra, nascidos no DF temem que parentes no Brasil contraiam a Covid-19
atualizado
Compartilhar notícia

Imagine estar longe do seu país de origem e ainda ser surpreendido com uma epidemia global. Essa foi a realidade que brasilienses espalhados pelo mundo tiveram que enfrentar desde que os primeiros casos de Covid-19 começaram a surgir ao redor do globo.
A já difícil adaptação dos brasileiros a costumes, idiomas e culturas diferentes ganhou um novo obstáculo: se adequar às medidas de controle ao novo coronavírus impostas pelas autoridades sanitárias internacionais. Tudo isso sem despregar os olhos das notícias do Brasil sobre o enfrentamento nacional à pandemia, que já havia matado 92.475 brasileiros e infectado 2,6 milhões de pessoas até essa sexta-feira (31/7).
Com familiares no Distrito Federal, brasilienses ouvidos pela reportagem foram unânimes ao dizer que estão preocupados com o crescimento vertiginoso dos casos na capital do país e nas demais unidades da Federação. No quadrilátero, também até essa sexta, o total de óbitos pela doença chegou a 1.469, com 106.292 diagnósticos positivos.
Licenciado da Secretaria de Educação do DF desde 2016 para fazer doutorado em Austin, no Texas (EUA), o historiador Marcelo Domingos reitera o temor constante pela saúde do pai, morador de Brasília que, aos 92 anos, integra o grupo de risco do novo coronavírus.
“Essa pandemia tem uma característica muito comum, de que um pequeno problema, algo simples, pode se transformar em uma coisa muito mais séria. Esses dias meu irmão se desesperou quando meu pai apresentou princípio de bronquite. Pensou que ele tivesse sido infectado [pela Covid-19]”, lembra Marcelo, mais conhecido na capital como Zeca.
Impedido de deixar o país por correr risco de perder o visto – específico para o período de estudos no Texas –, Zeca relembra do susto que a família levou após parentes serem diagnosticados com o coronavírus. “Se tiver uma emergência, eu não posso ir ao Brasil; meu visto não me permite. Alguns [familiares] já tiveram contato com a doença, não chegaram a óbito, graças a Deus. Foi um susto, a gente nunca acha que as pessoas possam pegar”, resume.
Distante dos amigos e da família, o servidor público diz que as redes sociais se tornaram importantes aliadas na reaproximação com os conhecidos. “Com as tais lives, principalmente nas noites de sexta e sábado, eu voltei a sair com todo mundo de Brasília. Tenho tomado mais cerveja com meus amigos em Brasília do que antes”, brinca.
No Texas, a família Domingos vem seguindo as restrições impostas pelo governo norte-americano, que incluem isolamento social, teletrabalho, aulas remotas e uso de máscaras fora de casa (fotos acima). Os Estados Unidos é o país com mais casos de Covid-19 em todo o mundo. No último dia de julho, o pais contabilizava 4.556.232 infectados e 153.268 mortes decorrentes da Covid-19.
Veja a entrevista concedida pelo historiador ao Metrópoles:
Canadá
No país vizinho à nova casa de Marcelo Domingos, a brasiliense Karina Menezes conta ao Metrópoles como o Canadá está lidando com a epidemia. Ela mora com o marido na província de Quebec há 8 anos.
“Estou em casa desde março, quando o governo decretou o confinamento total por causa da pandemia. Podíamos sair apenas para fazer as atividades essenciais: ir ao supermercado, farmácia e lojas de bebidas. Acredito que o governo canadense agiu no momento certo, tomando as medidas necessárias para evitar o caos que aconteceu em outros países, como a Itália”, conta a chefe de cozinha.
Segundo Karina, canadenses e imigrantes que perderam os empregos em função da crise econômica provocada pelo vírus estão sendo assistidos pelo governo local. A brasiliense relata que não vê com bons olhos o enfrentamento brasileiro ao avanço da Covid-19.

“Ao mesmo tempo em que as coisas por aqui [no Canadá] estão caminhando bem dentro do possível, a situação no Brasil foi só piorando. É super difícil você ficar tranquila vendo o noticiário brasileiro divulgar que os números de casos só aumentam diariamente”, diz.
Para Karina, o sentimento frente à pandemia e distância de amigos e familiares é de impotência. “‘Uma hora alguém que eu conheço vai ficar doente’, eu pensava. E assim foi: infelizmente, perdi uma tia querida para o Covid-19. E a cada dia aparecem mais e mais amigos perdendo seus entes queridos”, lamenta.
O Canadá está em processo de desconfinamento gradual dos cidadãos.”A vida está voltando aos poucos. Espero que tudo passe, que uma vacina apareça logo para que todo mundo possa se reencontrar”, finaliza.
Desde que a pandemia se instalou, o Canadá registrou 117.677 casos confirmados e 8.974 mortes pela Covid-19 (dados de 31/7).
Portugal
Karina tem uma irmã brasiliense que também não mora mais no Brasil. A atriz Ale Jório reside em Portugal há mais de dois anos: agora, vive na cidade das ondas gigantes, Nazaré.
Ela compara a diferença do tratamento à crise sanitária no Brasil e em terras portuguesas. O país tinha 50.868 casos de infecção pelo coronavírus e 1.727 mortes decorrentes da doença até o último dia de julho.
“Temos observado muito a diferença entre a forma como o governo nos tratou aqui. Teve muita responsabilidade na pandemia, sempre fomos muito bem orientados. Acho que o governo passou muita segurança desde sempre, portugueses e estrangeiros aderiram ao confinamento por livre e espontânea vontade” explica. Nem mesmo o desemprego a deixou preocupada. “Não voltei a trabalhar ainda, vivo do seguro-desemprego. Não voltei por escolha. Aqui em Nazaré, temos pouquíssimos casos”, tranquiliza.
Praias (foto abaixo), calçadões e parques da cidade, por exemplo, já foram reabertos, embora com rígido controle de público.

Mas a tranquilidade de Ale dá lugar à apreensão, porém, quando a atriz fala do Brasil. Ela relembra o dia em que recebeu a notícia da morte da tia, moradora do Maranhão, após ter sido diagnosticada com coronavírus. “Sensação angustiante, porque você não vê muito um rumo das coisas, não vê um direcionamento, uma orientação de governo sobre como lidar com isso. Cada instância de Poder Público lida de um jeito com a situação, e os casos só aumentam”, observa.
“Hoje minha preocupação em relação ao Brasil é muito grande. Tenho meu pai em Brasília, minha mãe em São Luís (MA) e meu filho em São Paulo. Ele viria me visitar neste segundo semestre. Foi uma das coisas que tivemos que adiar”, acrescenta Ale, que também deixará para outro momento o reencontro da família em Portugal para o seu aniversário, celebrado dentro de poucos dias.
Inglaterra
Em Londres (Inglaterra), a brasiliense Lisa Mendes afirma que o governo demorou para reagir ao crescimento de casos de Covid-19. “Responderam bem, porém mais tarde do que o ideal. No começou foi mais complicado, não tinha papel higiênico, não tinha comida”, recorda. “Apesar de tudo, funcionou”, completa.
Ao contrário de outros países, os dados da Inglaterra não tem sido divulgados de forma consolidada. Em 17 de julho, quando notícias internacionais davam conta de 45 mil mortos pela Covid-19 em todo o Reino Unido, o governo britânico decidiu revisar a metodologia de consolidação das informações, por considerar que havia registros de toda a Europa incluídos nos números oficiais.
Morando no país há 14 anos, a brasiliense se mostra tranquila. Afirma que a capital inglesa já está adotando a retomada gradual das atividades – Lisa permanece em teletrabalho e a filha única, com aulas remotas. “Ainda não há teatros, eventos culturais, mas agora já estão abrindo pubs, restaurantes… Estão obrigando o uso de máscaras em transporte público e, já nesta semana, em lojas”, detalha.
Lisa relata contato constante com os parentes que ficaram no Brasil. “Uma preocupação horrível, as decisões dão medo. Graças a Deus, tenho uma família sensata, que está seguindo as recomendações [das autoridades sanitárias], mas o coração aperta”, encerra.
Colaborou Caio Barbieri










