Preso pela PF e FBI, israelense morava em casa que foi de José Dirceu

Diretamente do imóvel, Tal Prihar coordenou mais de 40 mil transações ilegais na dark web e fez fortuna com o crime cibernético

JP Rodrigues/MetrópolesJP Rodrigues/Metrópoles

atualizado 09/05/2019 12:48

A casa onde o israelense Tal Prihar, 37 anos, morava com a mulher e os quatro filhos, na QL 22 do Lago Sul, foi cenário de um episódio marcante na política brasileira. Em agosto de 2015, policiais foram ao mesmo local deter o antigo morador: o ex- ministro José Dirceu.

Na época, o político cumpria prisão em regime aberto após ter sido condenado no Mensalão. Ele deixou o imóvel vestindo camisa azul, calça social e terno, mas não chegou a ser algemado. Dois carros caracterizados da Polícia Federal entraram na garagem da residência para levá-lo.

Há cerca de um ano, o mesmo imóvel transformou-se em base de um criminoso procurado por investigadores dos Estados Unidos, da Alemanha e de Israel. Da mansão, Tal Prihar coordenou cerca de 40 mil transações ilegais realizadas por meio de seu site na dark web – camada da internet que não pode ser acessada por meio de mecanismos de busca comuns, como o Google. A atividade clandestina permitiu que ele acumulasse 15 milhões de dólares em bitcoins.

Enquanto o estrangeiro era preso no aeroporto de Paris, na França, por agentes da Polícia Federal e do FBI (o Departamento Federal de Investigação dos Estados Unidos), na última segunda-feira (06/05/2019), policiais faziam uma busca simultânea na casa do Lago Sul. No local, localizaram R$ 1 milhão em espécie, notebooks, smartphones e dispositivos utilizados para a guarda de criptomoedas. Havia dinheiro escondido até mesmo dentro de uma impressora.

Os Estados Unidos irão confiscar quatro carteiras virtuais e três contas bancárias que estavam em nome de Prihar e de seu sócio, Michael Phan, também detido na ação policial. A Procuradoria-Geral do estado da Pensilvânia explicou, nessa quarta-feira (08/05/2019), como funcionava o esquema de crimes praticados pela dupla. O endereço que eles comandavam era a porta de entrada para sites de venda de drogas, entre outros negócios ilegais ao redor do mundo.

Essa é a ação mais significativa da história contra a dark web. A Procuradoria-Geral dos EUA usou todo o seu conhecimento cibernético para atacar a venda de opioides. Esse caso significa o primeiro ataque à grande estrutura que apoia e promove a venda de drogas

procurador-geral do estado americano, Scott W. Brady

Entenda
Segundo as investigações, os israelenses Tal Prihar e Michael Phan controlavam o site DeepDotWeb, responsável não apenas por indicar sites nos quais é possível comprar drogas, como heroína, cocaína, MDMA e LSD, mas também por ensinar novos usuários a adquirir entorpecentes e outros produtos contrabandeados ou relacionados a fraudes.

O domínio foi criado em novembro de 2014 e eles ganhavam uma porcentagem em cima de todas as compras mediadas. Os pagamentos eram feitos via bitcoin. Tudo era guardado numa carteira virtual e, posteriormente, transferido para a conta de empresas de fachada controladas pelos dois, onde o dinheiro era lavado. O lucro era divido igualmente entre os compatriotas.

“Sites como DeepDotWeb são ameaças globais que necessitam de parcerias internacionais para serem parados”, disse Robert Jones, agente especial do FBI. “Os esforços feitos por todas as agências investigadoras do mundo mandam a mensagem de que nós estamos indo atrás dos operadores dessas páginas”, complementou.

Prihar também é suspeito de crime de pornografia infantil. Phan foi encontrado e preso em Israel. Scott Brady preferiu não dar detalhes de como será feita a extradição ou quantos anos os dois podem ficar na cadeia.

A vida de Prihar em Brasília
Tal Prihar mantinha uma rotina discreta. Ele residia com a mulher, também israelense, e quatro filhos pequenos na casa alugada. O valor médio do aluguel no mesmo conjunto é R$ 10 mil. A residência tem área de lazer luxuosa com piscina, churrasqueira e sauna.

Apesar do conforto, o casal não costumava comprar móveis ou objetos caros. A família tinha um carro modelo SUV e contava com empregada e funcionários para cuidar da piscina e do jardim. As crianças chegaram a estudar em uma escola particular na região, mas desde o início deste ano passaram a ter aulas particulares em casa, que conta com sistema de segurança, como alarme e câmeras.

Segundo uma funcionária, que pediu para não ser identificada, eles eram “pessoas muito simples”. “Tinham aparência humilde. O casal era muito cuidadoso com os filhos. Uma vez nos contaram que o sustento deles vinha de um site. Eu jamais poderia imaginar que ele era envolvido com qualquer tipo de crime”, contou. Ela também disse que a mulher era muito religiosa e seguia os costumes e tradições de Israel. “Fazia muitas orações e respeitava os feriados.”

Discreta, a família evitava promover festas ou eventos no local. O pouco domínio do português também dificultava a comunicação com os vizinhos. “Ele costumava tomar uma cerveja ou vinho no quintal mesmo. Estavam sempre na residência. Quando viajavam, era para Israel ou Europa. Diziam que gostavam de morar no Brasil porque o custo de vida é menor por aqui”, acrescentou outro funcionário.

Nas redes sociais, o suspeito se apresentava como sócio-administrador de uma empresa de marketing. O endereço da firma é o mesmo da residência. Ele também participa de fóruns on-line sobre segurança cibernética.

Deep web e dark web
Professor do Departamento de Informática da Universidade de Brasília (UnB), Jorge Fernandes diz que a dificuldade de rastreamento por parte das autoridades torna as redes obscuras da internet um terreno fértil para criminosos. Segundo o especialista, sem fiscalização, o espaço acaba sendo ocupado por bandidos, pedófilos e traficantes de drogas, armas e até órgãos.

Segundo o docente, a deep web é composta por um conjunto de servidores que não são indexados por mecanismos de buscas, como o Google. Por sua vez, a dark web é uma camada ainda mais profunda da rede utilizada por criminosos. “Você tem um submundo de informações e não possui mapeamento completo dele. Eles fazem assim porque gostam de se esconder.”

Jorge Fernandes explica que endereços na zona mais profunda da rede só podem ser acessados por quem conhece o caminho. “Assim como existe em qualquer grupo social, na internet também acabam criando uma estrutura de submundo.”

De acordo com o especialista, o conjunto de protocolos de acesso que os frequentadores da deep web usam dificulta o trabalho da polícia. “Até porque tem uma dificuldade de jurisdição no mundo. Por exemplo, se um computador que tem um monte de coisas ligadas ao crime está hospedado em outro país, a polícia daqui não tem como forçá-lo a sair do ar.”

 

 

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