Postos do DF vendem gasolina mais cara para clientes distraídos

Em uma ronda pelos estabelecimentos, o Metrópoles colheu diversos relatos de consumidores que alegam ter sido enganados nas bombas

Myke Sena/Especial para o MetrópolesMyke Sena/Especial para o Metrópoles

atualizado 13/11/2019 9:12

A falta de atenção dos motoristas na hora de abastecer os veículos tem dado brechas para um possível novo golpe aplicado em postos do Distrito Federal. Denúncias apuradas pelo Metrópoles indicam que frentistas cobram o valor da gasolina aditivada quando, na verdade, o cliente solicita o uso da comum. Foram levantados mais de 20 casos ocorridos em seis postos da capital do país.

A suspeita de que havia pagado um valor alto pelo total de litros abastecidos levou Daniel Pereira a verificar se os números da bomba batiam com o preço anunciado da gasolina comum. A checagem mostrou que o empresário, 37 anos, pagou R$ 4,779 por litro, 50 centavos a mais do que o combustível solicitado. “Esse era exatamente o valor da aditivada, que eu não pedi. O frentista disse que era porque passou o valor no crédito, que também não bate. Ele foi pego na mentira e agiu de má-fé”, esbravejou.

Arquivo Pessoal
O consumidor alega que, no lugar da nota fiscal, foi entregue apenas um comprovante de pagamento

Como percebeu que estava sendo lesado, o empresário reclamou e acabou pagando o valor referente ao produto comum, cerca de R$ 10 mais barato. A nota fiscal solicitada não foi entregue. No lugar, deram um comprovante de pagamento contendo apenas o montante pago: R$ 89,54. Não satisfeito, Daniel gravou um vídeo mostrando a situação e o compartilhou em grupos de amigos, como um sinal de alerta. O caso ocorreu no Posto Via Estrutural, no SIA Trecho 1.

A arquiteta Fabíola Lopes, 39, relata uma situação semelhante no mesmo estabelecimento. Ela saía do escritório e estava com uma cliente no carro, quando parou para abastecer. “Ela me contou que não ia mais naquele posto porque haviam colocado gasolina aditivada quando ela pediu comum. Então, fiquei ligada, e não deu outra.”

Quando desceu para reclamar, o frentista a levou até um computador, dizendo que o valor estava certo, e mostrando uma litragem diferente. “Nesse meio-tempo, outro funcionário passou o cartão e apagou o registro da bomba, assim me deixando sem provas. Deu para perceber que era um esquema”, contou.

A reportagem esteve no local e fez um flagrante. Um homem foi abordado pela equipe, que perguntou se ele havia solicitado a gasolina aditivada. Com a negativa, foi informado do equívoco. Questionado, o funcionário do estabelecimento afirmou que, no convênio, a gasolina fornecida era a aditivada. O cliente contestou que sempre colocou a comum, e o funcionário fez uma tréplica: “Nessa bomba aqui, não. Toda a vida foi desse jeito”.

A nota fiscal também não foi emitida, e apenas o comprovante de venda a prazo foi dado ao cliente. “No final das contas, aqui vocês têm é desconto. Pode ficar tranquilo”, disse o atendente. A conversa foi gravada em áudio, e uma foto comprova a marcação da bomba.

“Quando a gente pede a nota fiscal, eles dizem que só pode ser entregue à empresa. Já me desentendi por conta disso uma vez e, como a gente precisa abastecer aqui, não questiono mais, para evitar problema”, contou o cliente, que não quis se identificar. Por telefone, responsáveis da empresa conveniada com o posto afirmaram que não existe impedimento para que os funcionários solicitem as notas fiscais.

Mais casos

Investigações de órgãos que atuam no combate a crimes contra consumidores apontam que recomendações para priorizar a venda de gasolina aditivada e eventuais bonificações aos vendedores e frentistas são fatores que estimulam indiretamente a prática.

Em outros cinco estabelecimentos, há reclamações semelhantes. No Posto Almenara, no Núcleo Bandeirante, o cientista de dados Gabriel Gomes, 21, contou que, após perceber a inconsistência, questionou se o combustível colocado era de fato o correto. “O frentista disse que ‘sim’ e só ficou desconcertado quando viu que eu havia checado. A situação se repetiu em outra ocasião, quando estava de carona com um amigo. Não volto mais lá”, garantiu.

No Auto Posto Ribeiro, no Pistão Sul, em Taguatinga, uma consumidora que pediu para não ser identificada disse ter sido vítima do golpe duas vezes. Na segunda, questionou. “A frentista disse que era porque não tinha sido dado meu desconto. Na nota fiscal está especificado o abastecimento com aditivada, e a diferença – que eu não paguei – ficou como se eu tivesse dado no dinheiro, para não dar divergência.”

Arquivo Pessoal
A diferença entre a gasolina aditivada e a comum foi abatida em caixa. Na nota, o valor descontado aparece como pago em dinheiro

Em posse de outra denúncia formalizada no Instituto de Defesa do Consumidor (Procon) de que a mesma situação estaria acontecendo no posto da 109 Norte, a reportagem abasteceu no local e gravou o atendimento. O golpe foi aplicado e o frentista argumentou que a gasolina comum havia acabado e que ele se esqueceu de avisar. No entanto, mais uma cliente chegou ao local, e a ela foi anunciado o preço do combustível – que, segundo o atendente, estaria em falta.

A outra consumidora foi abordada e contribuiu para confirmar que, de fato, houve suposta má-fé. Isso porque o carro da segunda cliente foi abastecido com a gasolina comum, e o valor da bomba batia com o preço anunciado, ficando provado que a informação da falta do combustível era falsa. Além disso, o valor especificado em nota fiscal não confere com o preço que estava na bomba.

Dois postos no Plano Piloto também têm relatos da prática. Um fica na 307 Norte e o outro na 314 Sul. “Um amigo me contou que havia levado um golpe na 314 Sul, e isso me chamou atenção. Fui lá e tentaram me enganar. Quando questionei, o funcionário pegou a calculadora e me cobrou o valor correto. A primeira situação de que eu ouvi relatos já tem mais de ano”, disse a servidora pública Flávia Diniz, 39.

Em uma pesquisa rápida nos comentários sobre os postos na internet, o Metrópoles contabilizou 24 reclamações do tipo: nove direcionadas ao da Via Estrutural; cinco ao da 109 Norte; quatro referentes ao Auto Posto Ribeiro; dois ao Almenara; dois ao da 307 Norte; e dois ao da 314 Sul. Os seis postos pertencem aos mesmos sócios, que são donos da Rede Z+Z. Além das unidades no DF, a rede tem outros 20 postos no país, todos com acordo junto à empresa petrolífera Shell.

Outro lado

Representante da categoria de frentistas no Distrito Federal, o Sindicato dos Trabalhadores em Postos de Serviços de Combustíveis e Lubrificantes Derivados de Petróleo (Sinpospetro-DF) informou não ter conhecimento sobre a modalidade de golpe. “Caso isso esteja acontecendo, pode ser uma minoria de maus empresários que acaba coagindo os empregados a fazerem esse tipo de venda. O frentista, sem nenhuma motivação, não tem porque cometer irregularidades assim”, opinou o presidente do sindicato, Carlos Alves. “Somos uma categoria forte, com mais de 7,8 mil membros, e a maioria quase absoluta defendendo o pão de cada dia com trabalho transparente e honesto.”

Procurada pela reportagem, a Rede Z+Z afirmou, em nota oficial, que “eventual ocorrência deste fato é um caso isolado” e que significa falha grave do funcionário, segundo normas internas da empresa. Quanto à falta de emissão de notas fiscais, a rede nega a informação: “Todos os clientes recebem cupom e nota fiscal, nos termos da legislação vigente”. No caso das conveniadas, a justificativa é de que a venda de combustível é feita a prazo conforme requisição, e o “cliente é a empresa” contratante.

“A Rede Z+Z é uma empresa idônea, cumpridora das normas legais, tendo recebido da Shell vários prêmios de excelência em gestão e sendo uma referência na operação de postos de combustíveis”, completou.

A Raízen, licenciada da marca Shell no Brasil, negou existir uma orientação da companhia para induzir a venda de qualquer produto que não seja o de interesse do cliente. “Prezamos pela ética em todas as suas relações e consideramos inaceitáveis quaisquer práticas que visem a lesar o consumidor.”

Fiscalização

Investigações de órgãos que atuam no combate a crimes contra consumidores apontam que recomendações para priorizar a venda de gasolina aditivada e eventuais bonificações aos vendedores e frentistas são fatores que acabam estimulando indiretamente a prática.

A falta de formalização das denúncias, no entanto, tem dificultado a atuação punitiva dos possíveis golpes. No Procon, por exemplo, há apenas um relato oficial de abastecimento equivocado com gasolina aditivada no último ano. O instituto alerta que a medida é necessária “para que sejam tomadas as providências legais e cabíveis conforme a competência estabelecida”, disse, por meio de nota oficial.

A reclamação pode ser registrada presencialmente ou pelo e-mail 151@procon.df.gov.br e deve conter informações como documentos pessoais, nota fiscal e outros elementos que possam contribuir para as apurações.

O Departamento de Proteção ao Consumidor (DPCon) da Polícia Civil do Distrito Federal também tem papel investigativo nesses casos. “As vítimas que procuram a delegacia oferecem subsídio para apuração e responsabilização dos eventuais infratores. Elementos como registro da situação em vídeo ou fotos, nota fiscal e nome dos envolvidos são elementos importantes o consumidor pode incluir na ocorrência”, recomendou o delegado responsável pela divisão, Marcelo Portela.

O consumidor pode procurar, ainda, a Delegacia de Ordem Tributária e Secretária de Fazenda, caso suspeite de fraudes como sonegação fiscal, e a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP), responsável por garantir o abastecimento e a qualidade dos combustíveis em todo o país.

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