PCDF: morte de padre Casemiro foi filmada em celular por criminosos

Fotos e vídeos estavam no aparelho de um dos suspeitos e impressionou agentes da Polícia Civil. Religioso foi assassinado em paróquia

atualizado 26/09/2019 21:23

Igo Estrela/Metrópoles

O Instituto de Criminalística da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) finalizou o laudo preliminar do celular de Alessandro de Anchieta Silva, 19 anos, um dos criminosos que confessou envolvimento no roubo da Paróquia Nossa Senhora da Saúde, na 702 Norte. A ação resultou na morte de Kazimerz Wojno, 71 anos, o padre Casemiro, na noite de sábado (21/09/2019). O conteúdo do aparelho estarreceu os investigadores.

Todo o assalto na casa do padre foi filmado, inclusive o estrangulamento e a morte do líder religioso. Vídeos e fotos extraídas do aparelho mostram os integrantes do bando comemorando o assalto e usando crucifixos de ouro que pertenciam ao pároco.

Outras imagens registradas com o celular revelam que os criminosos organizaram festas regadas a bebidas alcoólicas, nas quais ostentam objetos roubados da casa do padre. As imagens integram o inquérito, conduzido pela 2ª DP (Asa Norte), e serão mantidas em sigilo pela polícia.

Alessandro pretendia fugir para a Bahia. Ele já tinha até comprado passagem. Outro comparsa, Antônio Willian Almeida Santos, 32, iria para Januária, em Minas Gerais, sua cidade natal. Ambos foram presos na terça-feira (24/09/2019), em Valparaíso (GO), Entorno do DF.

No dia seguinte, foi detido um terceiro integrante do bando: Daniel Souza da Cruz, 29, no Novo Gama (GO). O quarto suspeito, um adolescente, permanecia foragido até a última atualização desta reportagem. A polícia trabalha ainda com a hipótese de uma quinta pessoa ter sido a responsável por passar informações sobre a rotina da igreja.

Os investigadores PCDF estão usando tecnologia de ponta para encontrar o último suspeito de envolvimento no assassinato do padre. A fim de descobrir a identidade do acusado, policiais da 2ª DP vão submeter o Chevrolet Opala, apreendido com dos dois suspeitos já presos, a um moderno equipamento papiloscópico de propriedade da perícia da corporação: a câmara de fumigação de cianoacrilato.

O equipamento, idealizado e projetado pelos profissionais do Laboratório de Exames Papiloscópicos e usado desde o ano passado, consiste em uma câmara na qual o carro é colocado e que tem o poder de revelar até quatro vezes o número de impressões digitais.

Confira foto da máquina usada pela polícia:
PCDF/Divulgação
Câmara de fumigação de cianoacrilato da Polícia Civil do DF

 

Na prática, a câmara possibilita o controle da umidade, temperatura e tempo de exposição, fatores determinantes para o sucesso na revelação de impressões. E por ser de grande dimensão, permite a perícia em carros, motos e lonas, por exemplo.

O veículo apreendido não será o único objeto periciado pelos investigadores, que também procurarão material genético nos itens roubados e recuperados e no HD abandonado pelos suspeitos durante a fuga. O circuito interno do prédio próximo à igreja registrou os acusados caminhando nos arredores do local.

Veja:

Caminho dos assassinos

De acordo com investigações da 2ª Delegacia de Polícia, na ida para o assalto, os bandidos usaram o carro de Valparaíso até Santa Maria, onde pegaram um ônibus para a Asa Norte. Depois de matarem o religioso, fugiram a pé e entraram em outro coletivo direto para Valparaíso.

A polícia quer saber quem dirigiu o Opala, que ficou estacionado em Santa Maria e foi apreendido em Valparaíso, na terça-feira. O carro é um modelo Diplomata, fabricado em 1985/86.

Segundo o delegado-chefe da 2ª DP, Laércio Rossetto, o carro foi usado parcialmente para o transporte dos criminosos. “Ainda vamos fazer perícia para tentar identificar indícios de participação de outros comparsas nessa empreitada criminosa”, explicou. O diretor-geral da Polícia Civil, delegado Robson Cândido, esteve na delegacia e falou sobre o desfecho das investigações.

“Temos uma polícia judiciária extremamente bem preparada e equipada. Toda a corporação ficou acordada 72 horas para trabalhar na elucidação desse crime e prender parte dos autores o mais rápido possível. O trabalho dos investigadores em parceria com os peritos foi fundamental para o apontamento das autorias”, afirmou.

Premeditado

De acordo com Laércio Rosseto, Alessandro admitiu a participação no caso, porém alegou que não queria a morte do padre. “No entanto ele estava na cena do crime, com uma arma de fogo. Estava disposto [a matar]”, pontuou o delegado, acrescentando que o artefato ainda não foi apreendido.

Rosseto ressaltou que tudo indica que os criminosos sabiam da rotina da casa, já que se dividiram nos dois andares e arrombaram um cofre de 1,5 metro de altura, de concreto. Para isso, usaram ferramentas que estavam no imóvel.

Para o delegado, que acompanhou o trabalho de investigação sobre os vestígios encontrados no local do crime, o latrocínio foi premeditado. “O que entendemos é que eles estavam indo especialmente atrás desse cofre. Eles sabiam que havia o cofre lá, usaram equipamentos que existem na própria residência, de maneira que não precisaram levar nada. É um cofre de um metro e meio, de concreto e aço, com duas portas, isso indica que foi estudado. Eles sabiam o que iriam encontrar lá”, analisou.

A detenção foi feita por investigadores da 2ª DP, com apoio da Divisão de Operações Especiais (DOE) e da Divisão de Operações Aéreas (DOA). Até um helicóptero da corporação foi utilizado para o trabalho de localização dos suspeitos. Com os detidos, a polícia apreendeu dois notebooks, três garrafas de uísque Red Label, um celular, um moletom, um relógio, uma corrente de ouro e chaves de carros. Parte dos itens estava na paróquia.

Além de matarem o padre, os criminosos agrediram o caseiro José Gonzaga da Costa, 39, que ainda tenta se recuperar após o terror vivido na mira de criminosos. Assim como o líder religioso, José foi amarrado com arames durante a ação. No entanto teve a vida poupada. Em conversa com o Metrópoles, na quarta-feira (25/09/2019), ele falou pela primeira vez sobre o caso. E se mostrou aliviado com a prisão dos suspeitos. “Graças a Deus. Deus é bom”, disse, olhando para o céu.

Questionado sobre seu estado de saúde, o caseiro, que chegou a ser internado no Hospital Regional da Asa Norte (Hran) com escoriações, disse “Estou melhor, graças a Deus, mas bem eu nunca vou ficar”. Cinco dias após o ocorrido, ele ainda carrega as marcas da noite do crime, como as cicatrizes nas mãos e pernas provocadas pela força com que foi amarrado pelos algozes.

Desde o episódio, José está recluso e evita ao máximo falar sobre a noite do crime. Continua morando no terreno da Paróquia Nossa Senhora da Saúde, na 702 Norte, onde ocorreu o latrocínio (roubo seguido de morte). O caseiro tem passado o dia nas dependências da igreja e só sai para ir a missas, acompanhado do irmão, Célio Gonzaga da Costa.

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À reportagem, o irmão disse que também mora no terreno da paróquia, mas dormia no momento em que os bandidos chegaram. Segundo ele, o caso aconteceu logo após o religioso celebrar a missa das 18h30. Padre Casemiro tinha ido fiscalizar uma obra executada no lote.

“Meu irmão contou que eram quatro criminosos. Eles pularam a grade, mas eu não ouvi porque estava dormindo. Acordei quando meu telefone vibrou, por volta das 21h30. Foi quando ouvi meu irmão gritando socorro e fui acudir. Nesse momento, eles fugiram”, revelou Célio.

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