Pai de motorista assassinado contesta tese de réu sobre legítima defesa
Lucas Henrique do Prado Ribeiro, 35 anos, foi baleado por mecânico dentro de oficina no Guará II. Réu disse que atirou “para se defender”
atualizado
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O dia 21 de março de 2025 parecia ser apenas mais uma sexta-feira comum para Jorge Luiz do Prado Ribeiro, 66 anos. Antes de sair para o trabalho, o cabeleireiro e maquiador se despediu do filho, Lucas Henrique do Prado Ribeiro, 35, sem imaginar que aquela seria a última vez que o veria com vida. Horas depois, Lucas seria baleado dentro de uma oficina mecânica na QE 40 do Guará II.
“Eu não sabia que ia ser a última vez que eu estava vendo meu filho”, relembra Jorge Luiz.
Lucas trabalhava como motorista de aplicativo e entregador. Naquele dia, contou ao pai que passaria em uma oficina mecânica para verificar um problema no motor do carro antes de buscar o filho, então com 7 anos, na escola.
O combinado, porém, nunca se concretizou. Antes mesmo de chegar à escola do filho, o motorista de aplicativo acabou baleado pelo mecânico André Luiz Rodrigues de Magalhães, após uma discussão dentro da oficina. O autor efetuou disparo de arma no queixo da vítima, que atravessou o pescoço.
André Luiz teria dito à polícia que Lucas anunciou um assalto à loja e que agiu “para se defender”. A versão é contestada pela família da vítima.
Agora, o Tribunal do Júri do Guará decidirá se André agiu ou não em legítima defesa no dia do crime. Enquanto isso, a família de Lucas tenta provar que ele foi morto injustamente e que não cometeu tentativa de assalto dentro da oficina.
“Meu filho foi honesto por 35 anos, ele não era bandido. Trabalhava com Uber, entregas, emprestava dinheiro, ganhava bem. E, de repente, querem dizer que ele decidiu virar assaltante às cinco horas da tarde, sem necessidade nenhuma?”, questiona.
Mesmo após mais de um ano do crime, o quarto de Lucas permanece praticamente intacto na casa da família. Jorge conta que o filho anotava todas as entregas e ganhos em cadernos e afirma que os registros demonstram que ele tinha renda estável e rotina de trabalho intensa.
“A gente sabe quem criou. O mais doloroso é ter que provar que o nosso filho era honesto a vida inteira”, desabafa o cabeleireiro.
“Perdemos nosso filho”
No dia do crime, a família só tomou conhecimento de que Lucas foi baleado após procurar por informações na 4ª Delegacia de Polícia (Guará).
A primeira suspeita surgiu quando a escola do neto de Jorge Luiz entrou em contato informando que ninguém havia ido buscar a criança. Pouco depois, policiais militares apareceram na residência da família perguntando se Lucas morava no local e pediram autorização para entrar no quarto dele.
O filho mais velho de Jorge, que estava em casa naquele momento, permitiu a entrada dos agentes, que fizeram buscas no cômodo e deixaram o imóvel sem dar explicações sobre o motivo da visita.
“Na delegacia, nos informaram que ele tentou fazer um assalto em uma oficina e tomou um tiro. Aí eu já abracei a minha mulher e falei: ‘Perdemos o nosso filho’. Falaram que tinha sido um disparo na cabeça, mas ninguém toma um tiro desses e fica vivo”, conta Jorge Luiz.
Lucas foi socorrido pelos bombeiros e encaminhado ao Hospital Regional do Guará. Posteriormente, ele foi transferido para o Hospital de Base, onde permaneceu 14 dias internado em estado grave, mas não resistiu. A família decidiu doar os órgãos dele.
O autor dos disparos é filho do dono da oficina. Ele foi levado para a delegacia após o crime, mas acabou solto na audiência de custódia. O homem possuía registro de Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CAC). Desde então, ele responde pelo crime em liberdade.
De acordo com os pais do motorista de aplicativo, a família de André Luiz é conhecida da família. Lucas, inclusive, era amigo do irmão mais velho do acusado.
Acusado vai a júri popular
Uma decisão da Vara do Tribunal do Júri do Guará, proferida em março deste ano, também trouxe novos detalhes sobre o caso e os depoimentos colhidos ao longo da investigação.
O juiz Marcos Francisco Batista decidiu pronunciar André Luiz Rodrigues de Magalhães por homicídio simples, entendimento que leva o caso a julgamento pelo Tribunal do Júri.
Na sentença, o magistrado destacou que tanto o Ministério Público (MPDFT) quanto a defesa pediram a absolvição sumária do acusado sob a alegação de legítima defesa.
O MPDFT sustentou que André teria reagido a uma suposta agressão e afirmou que testemunhas relataram discussão e gritos de “passa a chave” antes do disparo. No entanto, os policiais militares que atenderam a ocorrência disseram que nenhuma arma ou faca foi encontrada com Lucas dentro da oficina.
Também foram citados o comportamento alterado da vítima e o fato de o acusado ter permanecido no local dos fatos.
Apesar disso, o juiz entendeu que a tese de legítima defesa “não foi cabalmente demonstrada” nesta fase do processo e afirmou que caberá aos jurados decidir se o acusado agiu ou não para se defender.
Briga na oficina
Antes de chegar à oficina onde acabou sendo baleado, Lucas procurou outro mecânico da região, mas não conseguiu atendimento e decidiu buscar ajuda em um segundo estabelecimento.
Segundo Jorge Luiz, o acusado apresentou diferentes versões sobre o caso desde o dia do crime. “Ele [André] falou que perdeu a cabeça, que eles discutiram e que pegou a arma. Mas deu tantas versões que fica difícil acreditar”, afirma.
De acordo com o relato, Lucas reclamava de uma falha no carro e chegou a sair com André Luiz para testar o veículo pelas ruas do Guará. Na volta, teria batido o automóvel em um elevador automotivo e atingido o retrovisor de outro carro estacionado.
Para Jorge, a confusão começou após o acidente. “Eu acredito que ele tirou a chave do carro e correu para dentro da oficina. O Lucas foi atrás pedindo a chave. Aí começaram a discutir e trocar empurrões”, diz.
O pai da vítima também afirma que André teve tempo de evitar o disparo. Segundo ele, o mecânico foi até uma sala nos fundos da oficina, pegou a pistola, carregou a arma e depois atirou em Lucas.
“Ele teve várias opções. Podia sair da oficina, chamar a polícia, imobilizar o Lucas. Mas escolheu pegar a arma e atirar”, afirma.
Jorge ainda rebate a versão de que o filho tentaria roubar uma motocicleta do local. “Ele [André] disse que meu filho levou a mão por trás da cintura e ele imaginou que fosse tirar uma arma, mas meu filho estava com celular na mão”, alega.
O que diz o MPDFT
Ao Metrópoles, o MPDFT disse que a análise de todas as provas produzidas na primeira fase do rito processual do júri, sejam periciais ou orais, “confirmaram que o disparo único de arma de fogo efetuado pelo réu ocorreu no momento em que a vítima iniciou uma agressão física ao acusado, o que configuraria, no entendimento do Ministério Público, a excludente de ilicitude da legitima defesa”.
O Ministério Público acatou a decisão de pronúncia e decidiu não recorrer dela por entender razoável o entendimento do Juízo de que eventual dúvida sobre a legítima defesa reconhecida pelo Ministério Público deve ser decidida pelo júri popular.
O órgão também entende que ainda existem dúvidas importantes sobre o que aconteceu dentro da oficina, “especialmente pelas circunstâncias peculiares que envolvem a morte da vítima e a inexistência de relacionamento pretérito entre ela e o acusado, que pudesse explicar a ação violenta do réu que resultou na morte do ofendido”.
O que diz a defesa do réu
Procurada pela reportagem, a advogada do réu não se manifestou até o fechamento desta matéria. O espaço segue aberto para futuras manifestações.











