No DF, prédios abandonados servem de abrigo e ponto de drogas

Esqueletos no Plano Piloto e em Águas Claras preocupam vizinhança e seguem sem solução

atualizado 03/05/2018 7:51

Rafaela Felicciano/Metrópoles

O país assistiu atônito a uma grande tragédia em São Paulo durante o feriado do Dia do Trabalho. Um prédio no centro da capital, ocupado irregularmente por movimentos sociais, pegou fogo e desabou em poucos minutos. A situação serve de alerta para a condição dos edifícios abandonados. No DF, assim como em outras partes do país, as construções atraem moradores de rua e usuários de drogas.

O caso mais emblemático é o do Hotel Torre Palace, inaugurado em 1973 pelo libanês Jibran El-Hadj, localizado no Setor Hoteleiro Norte. Em 2000, o proprietário faleceu e a gestão do espaço ficou sob a responsabilidade dos herdeiros. Em maio de 2013, o Palace fechou as portas e passou a servir como abrigo para moradores em situação de rua, além de ponto de tráfico de drogas. Ele foi desocupado e lacrado em junho de 2016.

Em janeiro de 2018, o Metrópoles mostrou outro problema acerca do Palace Hotel. Dez funcionários do Nobile Suítes Monumental, vizinho à construção, contraíram dengue. A suspeita é de que o mosquito Aedes Aegypti tenha vindo da carcaça do edifício abandonado.

Em fevereiro, inspeção com a utilização inédita de um drone encontrou focos de dengue no terraço do prédio. O equipamento flagrou acúmulo de água em pneus e em parte da laje. Não foram identificados sinais de que a construção voltou a ser invadida.

 

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O antigo Hospital São Braz, na 713 Sul, é outro espaço abandonado há muito tempo. Ele foi fechado por determinação judicial em 2011. Quem mora ou passa pela área se assusta com a imagem do edifício. Janelas quebradas, muros pichados. Próximo, funcionam escolas e também uma faculdade particular. A presença de moradores em situação de rua e usuários de drogas é constante no espaço.

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A cidade mais verticalizada do DF também enfrenta problemas semelhantes. Atualmente, pelo menos oito prédios estão abandonados em Águas Claras. Os moradores dos edifícios vizinhos denunciam a situação e dizem que, além de servirem de abrigo para pessoas em situação de rua, as carcaças atraem usuários de drogas.

O diretor de comunicação da Associação dos Moradores e Amigos de Águas Claras (AMAAC), Marcelo Marques, diz ter notificado a administração local diversas vezes para informar sobre o problema. “Estamos batendo nessa tecla há pelo menos quatro anos. Até agora, não tivemos resposta ou expectativa sobre a resolução da questão”.

Em nota, a administração de Águas Claras informou que “quando se trata de propriedade particular, a atuação do poder público esbarra nos impedimentos legais”. A pasta garantiu fazer monitoramento constante das construções abandonadas e pediu a colaboração da população para evitar o descarte de lixo nos terrenos.

Negligência, desespero e risco
Maria José Almeida, 37 anos, é coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) em Brasília e diz que as ocupações são fruto de negligência por parte do governo. “O direito à moradia é garantido pela Constituição Federal. No entanto, os governantes não fornecem isso ao cidadão. As ocupações são fruto do desespero das pessoas, que sem ter um lugar para viver, acabam ocupando esses espaços abandonados e muitas vezes se sujeitando aos riscos”, afirma.

O subsecretário de Defesa Civil, coronel Sérgio Bezerra, informou que a maior parte dos prédios abandonados no DF é de particular. “Sempre pedimos o cercamento com alvenarias ou concreto, para impedir a entrada das pessoas. O maior problema em Brasília é a ocupação desordenada”, destaca.

Além do risco de desabamento, ele cita a falta de equipamentos de combate a incêndio. “No caso do Torre Palace, por exemplo, existia muito acúmulo de material combustível. Como não havia extintores ou mangueiras, poderia ocorrer uma tragédia”, relata.

“Nós seguimos o princípio da manutenção da vida. As pessoas têm direito à residência e nós entendemos isso, mas, a partir do momento em que colocam em risco a própria vida e a dos outros, temos de interferir”, defende Bezerra.

Ele também destaca que, quando a estrutura é robusta, na maioria das situações, pode ser recuperada. Porém, no caso de problemas estruturais graves, é recomendada a demolição.

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