No DF, 78% dos estudantes pretos estão em escolas públicas

Dados do Censo Escolar mostram a desigualdade racial entre crianças, adolescentes e adultos nos centros de ensino do Distrito Federal

Myke Sena/Especial para o MetrópolesMyke Sena/Especial para o Metrópoles

atualizado 20/11/2019 11:34

O sapateiro José Maria Ferreira, 62 anos, concluiu recentemente o ensino médio no Centro Educacional Gisno (Asa Norte). Criado apenas pela mãe, nasceu em Floriano, interior do Piauí, e desde os 13 anos precisou trabalhar para ajudar em casa. Pagar para estudar nunca foi uma possibilidade para ele e, dessa forma, as aulas acabaram ficando de lado. Preto, compõe os 78,47% de estudantes autodeclarados dessa forma no Distrito Federal que estudam em escola pública.

Levantamento feito pelo (M)Dados, do Metrópoles, usou como base o Censo Escolar de 2018, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Ao separar as informações relacionadas aos ensinos médio e fundamental do DF, verifica-se que apenas 14% dos alunos pretos estão na rede privada de ensino.

Para especialistas, esse é apenas um dos vários reflexos do racismo institucionalizado no Brasil. Por esse motivo, pontuam, esta quarta-feira (20/11/2019), Dia da Consciência Negra, não deve ser comemorada, mas marcada por luta.

“Minha vida foi trabalhar. Desde criança até hoje, eu acordo às 4 horas da manhã e vou batalhar. Minha mãe sempre falava para ir ao colégio, mas eu aprendi a cortar e modelar calçado e acabei pegando o gosto”, diz José Maria, que durante décadas foi dono de uma sapataria na Asa Norte.

 

O diretor da escola onde Ferreira se formou também é negro. O único do Plano Piloto, revela. Diante dessa realidade, Isley Marth faz questão de reforçar a discussão sobre o tema na unidade de ensino pública. “Em todas as atividades culturais, estou sempre olhando por esse lado”, conta o diretor do Gisno.

De acordo com o Censo Escolar, no ano passado, 729.108 alunos estavam matriculados em 1.242 escolas da capital da República. Em 126, mais da metade dos alunos são brancos. Das instituições, 123 unidades são particulares e três, públicas. O inverso acontece em 325 colégios, onde mais da metade dos estudantes são pardos e pretos. As categorizações das cores ou raças são estabelecidas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Conscientização

Apesar de dirigir o Gisno desde 2012, Isley relata ainda sofrer com o preconceito. “Tem gente que chega aqui e me confunde com o porteiro”, comenta. Por esse motivo, tenta passar aos alunos, a maioria negro, ser necessário viver com a cor que se tem. “Recebo alunos de todas as cidades do DF e Entorno. Lido com todas as classes sociais”, afirma o educador.

Para o diretor, apesar das conquistas recentes, não é possível comemorar a data: “A raça negra brasileira ainda precisa ocupar seu espaço. Temos que nos unir”. “A nossa meta é humanização. Trabalhamos 365 dias com a conscientização humana”, completa.

 

De acordo com Hector Vieira, professor de direito constitucional e sociologia do UniCeuB, a falta de acesso dos negros a uma educação de qualidade faz parte de uma cadeia lógica. “A exclusão acontece por causa da cor. Isso faz com que sobrem apenas os empregos mal-remunerados às famílias e, assim, o acesso a escolas de melhor qualidade às crianças também não acontece”, avalia.

Quando tenta levar este debate aos alunos, o especialista diz que não sente receptividade. “É comum eu entrar em sala de aula e ver um, dois ou três negros. Já passei por várias instituições particulares e nunca vi, por exemplo, 20% da sala negra”, relata.  “A vivência de brancos é rasa e o poder de reflexão é baixo. É preciso falar da discriminação mais vezes e durante o ano todo”, afirma.

De acordo com o Censo Escolar, 37,1% dos estudantes brasilienses declararam ser pardos; 25,43%, brancos; 2,93%, pretos; e 34% não mencionaram cor ou raça. Entre os 481.147 estudantes que fizeram a declaração: 56,23% disseram ser pardos; 4,44%, pretos; e 38,54%, brancos.

Invisibilidade

O também professor Robson da Silva, do Gisno, vai além. Segundo ele, a política de cotas deveria ser expandida da educação para outros campos da sociedade. “Deveria haver em concursos públicos e até em publicidade. O negro carece de representatividade em todos os lugares de destaque”, opina.

A mudança, no entanto, é complicada. Docente de história, ele conta que os próprios alunos negros se sentem inferiorizados. “Eles associam escravidão ao negro. Quando falo de outros povos há mil anos atrás, eles não conseguem pensar no negro”, lamenta.

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