*
 

Na mesa de jantar da casa de Daniele Bezerra, 32 anos, uma das cadeiras fica desocupada desde que o filho Gabryel Bezerra Pereira, 14 anos, foi apedrejado até a morte, em Santa Maria. O vazio no momento em que a mulher, o marido e a filha caçula se reúnem para a refeição vai acompanhá-la eternamente, segundo ela.

“Ninguém vai devolver meu bebê. O jantar é um dos momentos nos quais mais sinto falta dele. Depois de comer, escovava os dentes, me dava um beijo e ia dormir”, relembra Daniele, com voz embargada pela dor da saudade.

Gabryel foi morto a pedradas em uma rua da QR 116 de Santa Maria, na madrugada do dia 5 de julho, como o Metrópoles mostrou em primeira mão. Nesta quarta (11), a reportagem também divulgou vídeo, captado por câmeras de segurança, que mostra o instante da tragédia.

Nas imagens, dois suspeitos, que, segundo a Polícia Civil, são menores de idade, apedrejam a vítima. Na sequência, roubam sua jaqueta. “É de uma frieza sem tamanho. Viram ele [Gabryel] agonizando e o atacaram de novo”, criticou.

Daniele descreveu o filho como carinhoso e brincalhão. Contou que ele cursava supletivo para iniciar os estudos no oitavo ano do ensino fundamental e amava música: tocava zabumba, pandeiro, violão e teclado. Além disso, o adolescente jamais se envolveu em atos violentos, segundo ela. A Polícia Civil confirmou que Gabryel não tinha passagem.

A mãe se recorda que, no dia do crime, o aconselhou a não ir à festa. “Eu disse: ‘Não saia, filho’. Ele respondeu que iria assim mesmo. Eu insisti e ele falou: ‘Mãe, está desacreditando da minha palavra? Eu vou voltar cedo'”, recordou.

A mulher também demonstrou medo. Isso porque um dos suspeitos pelo assassinato está solto. O outro foi apreendido no mesmo dia da tragédia. Todos os envolvidos são menores.

“Eu me sinto ameaçada. Na vizinhança, dizem que ele está andando por aqui, por onde eu moro. A gente se sente sem segurança, fica com medo. Espero que a Justiça não esqueça o caso do meu filho como muitos outros. Esses meninos devem pagar, pois podem fazer o mesmo com outras mães e deixá-las sem filhos"
Daniele Bezerra, mãe de Gabryel

O crime
Gabyel saiu de casa na noite de 4 de julho e seguiu até uma distribuidora de bebidas. No local, foi convidado por duas amigas para ir à festa numa residência próxima. Na casa, o adolescente teria dançado com uma mulher, supostamente namorada de um homem preso na Papuda. Isso teria motivado a covardia.

Uma familiar de Gabryel contou, sob condição de anonimato, que ele foi jogado no chão e ameaçado por um rapaz. “Esse cara disse que o namorado da mulher estava preso, mas ele estava lá para afastar outros homens que se aproximassem dela”, contou. Após a confusão, a vítima deixou o local, mas foi cercada do lado de fora do evento.

Gabryel correu, mas acabou escorregando. No chão, ele recebeu três golpes fortes na cabeça e morreu na rua. A Polícia Civil também apura se houve participação de outras quatro pessoas que estavam na festa.

Linchamento no Parque
O caso é semelhante ao ocorrido no Parque da Cidade no último dia 26. Victor Melo, de 16 anos, apanhou até a morte após sair de uma festa de música eletrônica e ser confundido com um ladrão de celular. Mais de 20 pessoas lincharam o adolescente.

Nessa terça, a Polícia Civil prendeu temporariamente, por determinação da Justiça, quatro acusados pela barbárie. São eles: Wesley Vinícius Moreira de Melo, 20 anos; Marcela Sabrina da Silva, 24; Wellington Silva Alves, 23; e Alan Luiz da Silva Júnior, 23.

Outros nove menores foram alvo de busca e apreensão da operação deflagrada pelos policiais da 1ª DP (Asa Sul). Os agentes recolheram diversos objetos nas casas desses jovens, que estudavam na mesma escola da vítima. Como ainda não foram ouvidos, não se sabe se conheciam Victor.

Segundo laudo do Instituto Médico Legal (IML), o garoto espancando brutalmente morreu após levar uma facada no coração. A perfuração tinha 4,5cm de profundidade. O pai de Victor, o comerciante Íris de Melo, 47, não se conforma com a brutalidade que fizeram com seu filho. “Monstros”, disparou.