Neto é preso após desviar cerca de R$ 200 mil da avó de 87 anos no DF
Suspeito é investigado por se apropriar da renda da idosa de 87 anos, ameaçá-la e submetê-la a constantes episódios de violência psicológica
atualizado
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A Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou por Orientação Sexual, ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência (Decrin) prendeu preventivamente um homem de 37 anos que se apropriou indevidamente da renda da própria avó. O suspeito foi preso nesta terça-feira (9/6), em um canteiro de obras, em Ceilândia (DF).
De acordo com as investigações, o homem instalou em seu aparelho celular um aplicativo do banco em que a avó, de 87 anos, é correntista para desviar o dinheiro.
Utilizando-se da senha da idosa, obtida por meio de relação de confiança, ele passou a gerir integralmente a renda mensal da vítima, apropriando-se indevidamente da aposentadoria dela e de reservas financeiras, sem autorização. Além disso, o suspeito teria privado a avó de alimentos e cuidados essenciais.
Segundo a delegada-chefe adjunta da Decrin, Cyntia Carvalho e Silva, responsável pelas investigações, o prejuízo financeiro causado à vítima foi de aproximadamente R$ 200 mil. A aposentada recebia cerca de R$ 8 mil por mês, valor que, de acordo com a polícia, vinha sendo apropriado pelo suspeito desde pelo menos dezembro de 2025.
“Ela recebe uma renda mensal de R$ 8 mil. Considerando o período investigado, já são aproximadamente R$ 48 mil apenas da renda mensal. Além disso, ele retirou cerca de R$ 160 mil que estavam guardados na poupança dela”, explicou a delegada.
Além das perdas financeiras, a idosa enfrentava uma rotina de humilhações dentro da própria casa. Conforme a investigação, o neto a chamava de “demônio”, dizia que ela não precisava procurar atendimento médico e afirmava que o único exame de que necessitava era um “exame de corpo de delito final”, em referência à morte da vítima.
A Decrin também apurou que o investigado ameaçava matar os cachorros da avó, o que foi considerado pela Justiça como mais uma forma de violência psicológica. A juíza responsável pelo caso reconheceu indícios de maus-tratos contra os animais.
Durante as investigações, os policiais também descobriram que o suspeito utilizava o dinheiro da idosa para custear despesas pessoais.
Segundo a delegada, ele não trabalhava regularmente e alegava ser músico. Ainda assim, pagava sessões de terapia e até a pensão alimentícia do próprio filho com recursos da avó.
Resistência à denúncia
A vítima criou o neto desde a infância e relutou por meses em denunciar o agressor. De acordo com a delegada, o vínculo afetivo dificultou a tomada de providências.
“Ela é uma senhora extremamente educada, foi professora no primário. Criou os dois netos com muito carinho e sempre tentava defendê-lo, mesmo diante de tudo o que estava acontecendo”, relatou.
A denúncia chegou à Decrin em dezembro de 2025. Inicialmente, um pedido de medida protetiva foi negado pela Justiça. No entanto, o aprofundamento das investigações revelou movimentações financeiras suspeitas e agravamento das agressões.
Em determinado momento, a vítima foi orientada a solicitar extratos bancários para verificar a situação de suas contas. Ao descobrir a iniciativa da avó, o investigado teria perdido o controle, intensificando as ameaças e os insultos.
A situação culminou em uma ocorrência atendida pela Polícia Militar em Samambaia. O homem foi preso em flagrante por violência doméstica contra a avó, mas acabou liberado durante audiência de custódia.
Posteriormente, a Justiça concedeu medidas protetivas à vítima e, diante dos elementos reunidos pela investigação, expediu um mandado de prisão contra o suspeito.
Ameaças contra a mãe
Durante a apuração do caso, o denunciado também passou a ameaçar a mãe, de 55 anos, que havia confirmado as denúncias relacionadas à avó em depoimento na delegacia especializada.
As ameaças resultaram em uma nova ocorrência por violência doméstica, registrada na 16ª Delegacia de Polícia. A denúncia feita pela mãe do suspeito resultou na imposição de outra medida protetiva contra ele.
O acusado responde a oito imputações penais relacionadas a crimes praticados contra a própria avó e a mãe. Em relação à idosa, ele foi denunciado por cinco infrações previstas no Estatuto da Pessoa Idosa e no Código Penal, incluindo exposição da vítima a condições degradantes, apropriação de bens ou rendimentos, injúria qualificada e ameaças.
Já contra a mãe, o réu responde por três crimes enquadrados no Código Penal e na Lei Maria da Penha, entre eles violência psicológica, ameaça e coação no curso do processo.
Somadas, as penas previstas para os delitos podem chegar a 24 anos de reclusão, em caso de condenação.
Junho Violeta
O caso ocorre durante o Junho Violeta, campanha nacional de conscientização e combate à violência contra a pessoa idosa. Para a delegada, a situação ilustra uma realidade recorrente e muitas vezes invisível dentro das famílias brasileiras.
“A pior coisa para uma pessoa idosa é denunciar quem ela mais ama. Na maioria das vezes, os agressores são filhos e netos. Diferentemente da violência doméstica contra a mulher, em que existe o ex-marido ou o ex-companheiro, a pessoa idosa não tem ex-filho nem ex-neto”, destacou.
Segundo a policial, apesar da dureza dos casos enfrentados diariamente, a responsabilização dos agressores traz um sentimento de justiça para as vítimas e para os profissionais envolvidos nas investigações.