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Na Mira

PCDF desmantela pirâmide milionária caribenha que arruinou empresários

Operação revelou bando que usava empresas em São Vicente e Granadinas para atrair investidores; empresários do DF perderam milhares de reais

09/07/2026 07:23, atualizado 09/07/2026 07:56
Reprodução
ilha caribenha

Uma sofisticada operação da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) desmantelou, nesta quinta-feira (9/7), um esquema milionário de pirâmide financeira que fez vítimas em Brasília e em diversos estados brasileiros, deixando empresários e investidores amargando prejuízos de centenas de milhares de reais. Dois dos investigados apontados como líderes do esquema foram alvos de busca em Santa Maria (RS). Uma outra prisão foi realizada em área do Comando Vermelho, em Manaus.

 

Batizada de Operação Quéops, a ofensiva revelou uma organização criminosa que utilizava falsas plataformas internacionais de investimentos, consultores fictícios, programas de acesso remoto e empresas registradas em paraísos fiscais para convencer as vítimas a transferirem grandes quantias de dinheiro sob a promessa de lucros elevados.

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Um dos principais atrativos utilizados pelo grupo era a suposta sede da empresa nas ilhas caribenhas de São Vicente e Granadinas, endereço apresentado como símbolo de credibilidade internacional, embora a companhia não possuísse CNPJ nem autorização para operar no Brasil.

Líderes presos

A operação foi deflagrada pela Divisão de Análise de Crimes Virtuais (DCV), da Coordenação de Repressão às Fraudes (CORF), que cumpriu seis ordens judiciais, sendo três mandados de prisão temporária e três de busca e apreensão.

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Segundo a investigação, o grupo é suspeito da prática dos crimes de estelionato eletrônico, associação criminosa, lavagem de dinheiro e manutenção de um esquema de pirâmide financeira que movimentou milhões de reais.

Vítimas no DF

As apurações começaram após uma vítima do Distrito Federal procurar a Polícia Civil para denunciar o desaparecimento de uma quantia expressiva aplicada em uma plataforma apresentada como empresa internacional especializada em investimentos de alta rentabilidade.

O caso revelou um roteiro cuidadosamente planejado pelos criminosos. Tudo começava com anúncios patrocinados nas redes sociais, que utilizavam imagens de pessoas conhecidas para transmitir credibilidade e atrair investidores. Em um dos episódios investigados, uma empresária brasiliense relatou que visualizou uma propaganda na internet que apresentava a plataforma como uma oportunidade imperdível para multiplicar patrimônio.

Após realizar um simples cadastro, ela recebeu, poucas horas depois, uma ligação telefônica de um número internacional. Do outro lado da linha estava um suposto consultor financeiro. Ele informou que a empresa possuía sede em São Vicente e Granadinas, no Caribe, e atuava em diversos países por meio de investimentos em criptomoedas e ativos financeiros.

O golpe

Como primeiro passo, a vítima foi orientada a realizar um depósito de 250 dólares — aproximadamente R$ 1,2 mil na época. Em seguida, recebeu a orientação de abandonar aplicativos populares de mensagens e migrar toda a comunicação para o aplicativo Wire, sob a justificativa de que a empresa não utilizava WhatsApp por questões de segurança.

Seguindo as instruções do suposto consultor, a empresária instalou em seu computador o programa AnyDesk, ferramenta de acesso remoto que permitia aos criminosos controlar o equipamento à distância. Durante cerca de quatro meses, ela manteve contato praticamente diário com os falsos especialistas, que realizavam operações aparentemente lucrativas utilizando a plataforma MetaTrader 5.

Na tela do computador, os gráficos exibiam crescimento constante do patrimônio investido. O saldo aumentava diariamente, reforçando a falsa impressão de que o dinheiro realmente estava sendo aplicado no mercado financeiro internacional. Convencida de que estava obtendo excelentes resultados, a vítima passou a realizar novos aportes.

Mais transferências

Em poucos meses foram efetuadas transferências sucessivas de R$ 18,6 mil, R$ 62,7 mil, R$ 63,6 mil, além de diversos outros depósitos. Quando decidiu sacar parte do lucro, porém, descobriu que o dinheiro jamais existiu.

Nesse momento entrou em cena outro suposto consultor. Ele informou que seria necessário pagar novas taxas para desbloquear a carteira de investimentos e liberar os recursos supostamente retidos pela plataforma.

Acreditando que o problema fazia parte dos procedimentos financeiros internacionais, a empresária realizou novas transferências de R$ 4,8 mil, R$ 42,4 mil, R$ 50 mil e outros depósitos menores. Somente depois de investir aproximadamente R$ 245 mil percebeu que havia sido enganada.

Sua senha de acesso foi alterada sem autorização, a plataforma ficou inacessível e todos os contatos desapareceram. Nenhum dos operadores voltaram a responder às mensagens.

Método fraudulento

Os investigadores identificaram que esse era exatamente o método utilizado pela organização criminosa para manter as vítimas realizando novos aportes financeiros. Sempre que algum investidor solicitava o resgate dos valores, surgiam novas exigências de depósitos, taxas, impostos ou custos administrativos que jamais resultavam na liberação do dinheiro.

Enquanto isso, os recursos eram rapidamente distribuídos entre diversas contas bancárias, empresas de fachada e operações envolvendo criptoativos, dificultando o rastreamento dos valores.

As investigações revelaram ainda que a empresa apresentada aos investidores possuía endereço registrado em São Vicente e Granadinas, tradicional jurisdição conhecida pela constituição de empresas offshore. Apesar da aparência internacional, a plataforma não possuía autorização para prestar serviços financeiros no Brasil nem registro nos órgãos reguladores nacionais.

Empresa estrangeira

Outro detalhe chamou a atenção dos investigadores: embora toda a publicidade apontasse a empresa estrangeira como destinatária dos investimentos, ela praticamente não aparecia nas movimentações financeiras analisadas.

Na prática, os depósitos acabavam sendo direcionados para contas controladas pelos próprios investigados ou por pessoas ligadas ao grupo criminoso. O dinheiro circulava rapidamente entre contas de passagem e empresas utilizadas para dar aparência de legalidade às operações, característica típica dos mecanismos de lavagem de dinheiro.

A quebra do sigilo financeiro também revelou movimentações incompatíveis com a realidade econômica dos investigados. Um dos principais alvos da operação movimentou milhões de reais antes mesmo de completar 23 anos de idade, apesar de declarar renda modesta e, durante a pandemia, ter recebido Auxílio Emergencial do governo federal.

Empresa de R$ 1 mil

Outro elemento considerado extremamente suspeito foi a existência de uma empresa registrada com capital social de apenas R$ 1 mil, mas responsável por movimentar milhões de reais em instituições financeiras.

Para os investigadores, esses elementos reforçam os indícios de utilização de empresas de fachada para ocultar recursos provenientes das fraudes. Segundo a Polícia Civil, a organização apresentava estrutura empresarial bem definida, com divisão de tarefas entre seus integrantes.

Havia pessoas responsáveis pela captação das vítimas por meio das redes sociais, outras encarregadas do atendimento personalizado dos investidores, operadores das plataformas fraudulentas, responsáveis pela movimentação financeira e integrantes especializados na ocultação dos recursos por meio de empresas e operações com criptomoedas.

As investigações prosseguem para identificar outros integrantes da organização, novas vítimas e o destino final dos recursos desviados.