"Gisele e Tina": Festa da Lili tem feira da droga com Pix no banheiro
Enquanto o show rolava no gramado, banheiros masculinos viravam ponto de venda e consumo livre de GHB, metanfetamina, cocaína e ecstasy

Com uma estrutura faraônica e números dignos dos maiores festivais internacionais de música eletrônica, a Festa da Lili lotou o gramado do Estádio Nacional Mané Garrincha no último sábado (15/8) e impressionou o público pelo impacto visual. O conceito da “Cidade Esmeralda” transformou o espaço em um espetáculo de luzes e som. Porém, por trás da suntuosidade e da animação estampada na frente do palco principal, existia uma “festa velada”, discreta, onde não se viam leques batendo nem roupas brilhantes.
A verdadeira festa underground ocorria nos banheiros do estádio, mantidos em lotação máxima durante toda a noite. O fluxo incessante de frequentadores, no entanto, nada tinha a ver com a necessidades fisiológicas. A reportagem da coluna Na Mira passou a noite inteira monitorando a movimentação e o tráfico de drogas que corria solto no local.
Com os mictórios surpreendentemente vazios, uma multidão de homens se acotovelava em filas desordenadas na frente das cabines reservadas. Dentro de cada pequeno espaço, três a quatro pessoas se espremiam simultaneamente. O papo era reto e direto: só entrava quem estava ávido para consumir substâncias ilícitas de alto risco. Escondido pela porta dos reservados, o grupo se drogava e logo dava espaço para outros quatro ocuparem a cabine.
Banheirão do pó
Com o passar das horas, a preocupação escorria junto com o suor. Convidados abandonavam a discrição e pingavam “Gisele” nos olhos como colírio em plena pista de dança.” Gisele é o apelido popular dado ao GHB (ácido gama-hidroxibutírico), uma substância sintética depressora do sistema nervoso central. O termo é uma gíria de internet ou de pista para se referir à letra “G” de GHB.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesOs banheiros masculinos viraram o epicentro do comércio ilegal, sendo frequentados também por diversas mulheres sem qualquer tipo de constrangimento ou barreira. A facilidade para a entrada dos entorpecentes na festa foi gritante, facilitada por uma revista de segurança considerada extremamente superficial nos portões de acesso.
Os traficantes atuavam com impressionante desenvoltura. Tranquilamente encostados nas pilastras ao lado das cabines, eles alimentavam o vício da multidão e despejavam porções de drogas para quem estivesse disposto a pagar e aspirar carreiras sobre a tampa dos vasos sanitários.
Veja imagens do tráfico e uso de drogas na festa:
Droga no Pix
A tecnologia era aliada do crime: de celular em riste, grupos de traficantes recebiam pagamentos via Pix em tempo real, consultavam a confirmação do saldo na tela e logo repassavam os envelopes e frascos aos compradores.
À medida que a madrugada avançava, o efeito e o desespero se sobressaíam. Muitos frequentadores abdicaram de vez da discrição do banheiro e passaram a misturar drogas em garrafas de bebida isotônica ou até a pingar substâncias líquidas diretamente nos olhos, como se fossem colírios, enquanto “fritavam” embalados pelo som grave dos DJs.
O excesso, contudo, cobrou seu preço rapidamente. Diversos jovens não aguentaram o “baque” da viagem química e desabaram no chão de concreto do estádio. Pelo menos quatro pessoas precisaram ser socorridas às pressas e levadas em estado crítico para a enfermaria do evento até às 3h da manhã, contorcendo-se em convulsões e colapsos físicos.
Mapeamento dos entorpecentes comercializados livremente na pista e nos banheiros durante o evento:
- A “Gisele” (GHB), cujo nome químico é ácido gama-hidroxibutírico, é uma substância sintética depressora do sistema nervoso central de altíssimo risco. O apelido “Gisele” é uma brincadeira de pista e internet para se referir à letra “G” de GHB. O produto, historicamente associado ao uso industrial para limpar motores de avião, era dosado em tampinhas de remédio (como Neosoro) e vendido por R$ 60 a tampinha; o exagero na dosagem levou diversos frequentadores à enfermaria com convulsões e colapsos físicos;
- A “Tina” nada mais é do que metanfetamina cristalina pura, um potente e devastador estimulante sintético comercializado por valores elevados sob consulta. Os preços variavam de acordo com a quantidade mas uma pequena porção poderia passar de R$ 100;
- O MD (MDMA), vendido em forma de pó ou cristal de alta pureza, despontou como o entorpecente mais caro da pista, custando R$ 100.
- A bala (Ecstasy) consistia em comprimidos sintéticos que começavam custando R$ 50 no início do evento, mas tinham seu preço inflacionado para R$ 100 conforme a madrugada avançava;
- A Ketamina (Key), um potente anestésico veterinário, era comercializada por R$ 50 em sacos plásticos minúsculos;
- A cocaína era vendida a partir de R$ 50, variando de acordo com os gramas, para ser consumida e fracionada diretamente sobre a tampa dos vasos sanitários;
- Por fim, o “Loló” (Inalante) tinha seu valor definido livremente pelo comprador, que recebia o líquido dosado diretamente em sua garrafa de água, já que a organização da festa não fornecia bebidas em lata para o público geral, restringindo o uso de latas apenas aos compradores de combos.
Procurada pela reportagem, a organização da Festa da Lilia se pronunciou, dizendo que colabora com as autoridades nas investigações.
Leia a nota na íntegra:
A Festa da Lili investe de forma permanente em medidas rigorosas de segurança para preservar a integridade do público e o bom funcionamento dos eventos. Todos os participantes estão sujeitos a procedimentos de revista realizados pela equipe de segurança, além de haver monitoramento interno das diferentes áreas e ambientes das festas.
Esses protocolos também resultam em intervenções imediatas sempre que são identificadas condutas incompatíveis com as regras do evento. Somente na noite do último sábado, 17 pagantes foram retirados da festa pela equipe de segurança após ocorrências identificadas durante o monitoramento interno.
A organização também atua em cooperação com as forças de segurança pública, inclusive auxiliando na identificação de movimentações consideradas suspeitas e colaborando com operações realizadas durante os eventos, inclusive com a presença de policiais à paisana.
Em relação às investigações mencionadas, não temos acesso aos seus detalhes e, por isso, não seria responsável antecipar conclusões sobre fatos que não nos foram formalmente apresentados. Reforçamos, porém, que qualquer irregularidade identificada dentro do evento é tratada com rigor e, quando necessário, comunicada e encaminhada às autoridades competentes e até o banimento do CPF de pagantes em eventos futuros.
A Festa da Lili permanece à disposição para prestar os esclarecimentos necessários e continuará colaborando integralmente com as autoridades.
Apreensões antes da festa
Em uma das maiores apreensões de drogas sintéticas do ano no DF, a Receita Federal informou que apreendeu 24,5 kg de metanfetamina cristal no Aeroporto Internacional de Brasília, no domingo anterior à festa (9/8).
A droga de altíssima pureza foi encontrada em uma mala de mão e em uma mochila transportadas por um brasileiro de 26 anos, passageiro de um voo vindo de Cancún, no México, com destino final em Brasília.
“Após a apreensão, o passageiro e a substância foram encaminhados à Polícia Federal para os procedimentos legais cabíveis”, informou o órgão. A identificação ocorreu durante os procedimentos de fiscalização e análise de risco no terminal.
Operação da 5ª DP
Já a madrugada do último sábado (15/8) foi marcada por uma operação de combate ao tráfico de entorpecentes no próprio interior do Estádio Mané Garrincha. Quatro homens — de 20, 31, 34 e 38 anos — foram presos em flagrante comercializando drogas no evento.
A ação foi conduzida pela Seção de Repressão às Drogas (SRD) da 5ª Delegacia de Polícia (Área Central), após denúncias anônimas. Para interceptar os suspeitos sem alarmar o público, policiais civis atuaram disfarçados e infiltrados entre os frequentadores, com o apoio da organização.
Durante a abordagem realizada no momento da venda, os agentes apreenderam com o grupo:
- Comprimidos de ecstasy (balas);
- Envelopes e porções de pó branco (cocaína e MD);
- Frascos e tubos com substâncias líquidas (GHB/Loló);
- Pinos de droga, celulares, uma bolsa e R$ 153 em espécie.
Todo o material recolhido foi encaminhado ao Instituto de Criminalística (IC) da PCDF para perícia. Análises das drogas deram negativo para cocaína, mas os exames, que ficarão prontos no próximos dias, poderão apontar para Ketamina desidratada. A PCDF prossegue com as investigações para identificar fornecedores da rede.



















