Empresas do DF que vendiam cobre furtado movimentaram R$ 45 milhões. Veja vídeo
PCDF cumpre 26 mandados no DF e em três estados contra organizações suspeitas de atuar no mercado ilegal de cobre furtado

A investigação da Delegacia de Repressão aos Crimes contra a Ordem Tributária (Decor), que apura um esquema de receptação, comercialização e regularização fraudulenta de fios de cobre furtados, identificou que o grupo utilizava 21 empresas de fachada sediadas no Distrito Federal exclusivamente para emitir documentos fiscais falsos e gerar créditos tributários indevidos. Dessas, nove já foram autuadas pela Receita Federal no DF. Em um ano, o grupo movimentou cerca de R$ 45,5 milhões no esquema fraudulento.
Vídeo da delegada:
A operação batizada de Ecossistemas do Cobre foi deflagrada nesta quinta-feira (25/6). De acordo com a delegada-adjunta da Delegacia de Repressão aos Crimes contra Ordem Tributária (DOT), Marcela Lopes a ação investiga dois grupos criminosos que atuavam em núcleos distintos, mas integravam a mesma cadeia econômica do cobre, beneficiando-se mutuamente.
- Primeiro núcleo
O primeiro núcleo é suspeito de receptar e comercializar cobre proveniente de furtos de cabos no Distrito Federal. Pessoas físicas e jurídicas ligadas ao comércio de sucatas e à reciclagem de metais teriam recebido mais de R$ 45,5 milhões, em menos de um ano, de uma empresa de fachada sediada no Tocantins, sem emissão de notas fiscais que justificassem os pagamentos.
- Segundo núcleo
Já o segundo núcleo utilizava 21 empresas de fachada no Distrito Federal para emitir notas fiscais sem lastro comercial. Registradas em nome de “laranjas” e sem estrutura física, funcionários ou movimentação bancária compatível, essas empresas emitiram mais de R$ 1,4 bilhão em notas fiscais destinadas à mesma empresa tocantinense.
Ao todo, estão sendo cumpridos 26 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal, Minas Gerais, Tocantins e Paraná. A operação conta com a participação de 45 policiais civis do DF, com apoio das Polícias Civis de Minas Gerais e Tocantins.
A Justiça também autorizou o sequestro de bens, direitos e valores que somam R$ 239,2 milhões, diante de indícios de crimes tributários e lavagem de dinheiro.
Esquema de fraude
De acordo com a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), os documentos fiscais eram utilizados para dar aparência de legalidade ao cobre comercializado e, ao mesmo tempo, gerar créditos tributários fraudulentos por meio da circulação sucessiva de notas entre empresas da cadeia.
Na etapa seguinte, a empresa de fachada emitia novos documentos fiscais para uma grande companhia do setor metalúrgico e de condutores elétricos localizada em Minas Gerais.
Mais de 73% das notas fiscais emitidas pela empresa do Tocantins tiveram como destino essa companhia mineira. Somente em 2021, foram identificadas 212 notas fiscais, que somam cerca de R$ 97,1 milhões.
Mais detalhes:
- As investigações abrangem toda a cadeia do esquema – furto, comercialização, movimentação financeira e até o uso de documentos fiscais para regularizar mercadorias.
- Após as mercadorias serem “regularizadas”, o outro passo era gerar créditos tributários sem respaldo em operações reais.
- A empresa de fachada sediada no Tocantins funcionava como elo entre os dois núcleos.
- Ela recebia notas fiscais de empresas fictícias, repassando recursos aos receptadores e emitindo novos documentos para empresas compradoras.
Mercado do cobre furtado
A investigação revelou a existência de um mercado estruturado para a comercialização de cobre furtado. Entre os beneficiários identificados estão dois receptadores presos anteriormente durante a Operação Power Cut, da PCDF.
Um dos métodos utilizados para aumentar o valor do produto era a chamada “limpeza do cobre”, que consiste na retirada da cobertura plástica dos cabos, muitas vezes por meio da queima do material. O procedimento elimina marcas e identificações que poderiam indicar a origem dos fios, além de elevar o valor de revenda.
Em agosto de 2024, o chamado “cobre mel”, considerado mais puro, era negociado por cerca de R$ 43 o quilo. Já o cobre queimado ou misto era vendido por aproximadamente R$ 41 o quilo. O material reconhecidamente furtado era adquirido por valores entre R$ 28 e R$ 30 o quilo.
As conversas interceptadas indicam que os receptadores disputavam fornecedores, ajustavam preços conforme a qualidade do material e mantinham relações comerciais recorrentes. Em um dos casos, um comprador chegou a pagar R$ 42,50 por quilo para garantir exclusividade na aquisição do cobre.
Valores movimentados:
- A empresa de fachada localizada no Tocantins teria movimentado mais de R$ 1,8 bilhão em apenas 11 meses, entre 2023 e 2024.
- Desse total, recebeu mais de R$ 1,4 bilhão em notas fiscais de empresas fictícias e transferiu R$ 45,5 milhões a pessoas e empresas ligadas à receptação de cobre.
- Dezenas de milhões de reais também teriam sido transferidos para pessoas físicas sem capacidade financeira compatível com os valores recebidos.
- Também foram apurados que os saques em espécie superaram R$ 25,5 milhões e foram realizados pelo operador da empresa.
- Segundo a PCDF, o faturamento presumido da empresa saltou de cerca de R$ 185 mil, em janeiro de 2021, para R$ 430,4 milhões, em maio de 2022.
- O destinatário das notas fiscais pela empresa tocantinense era uma grande metalúrgica de Minas Gerais, responsável por receber mais de 73% dos documentos.
Empresas fictícias e lavagem de dinheiro
Os investigadores também identificaram situações em que a própria empresa figurava como compradora das mercadorias em notas fiscais que, formalmente, deveriam ter sido emitidas pela suposta vendedora.
Para a polícia, a cadeia documental foi essencial para conferir aparência de legalidade à origem e à circulação do cobre, além de viabilizar a utilização de créditos tributários gerados por operações inexistentes.
Os investigados poderão responder por organização criminosa, crimes tributários, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, conforme o grau de participação de cada um.















