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Conheça a história de Paula Lima, primeira bombeira trans do Brasil
A cabo Paula Fernanda Corrêa Lima está há 15 anos no Corpo de Bombeiros Militar do Pará e tornou-se a primeira mulher trans na corporação
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Há dois anos e meio a vida de Paula Fernanda Corrêa Lima (foto em destaque), 36 anos, mudou radicalmente. Bombeira há 15 anos da corporação militar do Pará (CBMPA), a cabo deu início à transição de gênero em 2019 e, após o processo de retificação de seus dados nos documentos e no quadro do CBMPA, tornou-se a primeira mulher trans bombeira militar do Brasil.
Moradora de Belém (PA), a militar era casada quando contou para a então esposa e para as duas filhas — que hoje têm cinco e 11 anos — sua decisão de assumir-se mulher. À época, falar sobre o assunto com a família não foi fácil.
“Passei anos e anos me escondendo, em situações familiares, no trabalho, e isso pesou bastante na hora de tomar uma decisão. Eu me via, mas não via uma possibilidade de ser eu mesma. Só que chega um tempo que você tem que decidir”, diz.
“Houve uma rejeição e exclusão familiar. Ainda hoje, alguns não falam muito, mas outros já aceitam e entendem. Atualmente, por exemplo, eu tenho um bom relacionamento com a minha ex-mulher e com as minhas filhas. E a convivência com elas ajuda a mostrar que não é aquilo que a sociedade machista e transfóbica ensina. O meu amor e carinho não muda em nada com as minhas filhas”, completa Paula Fernanda.
Mudanças no Corpo de Bombeiros
Segundo Paula, o processo para mudar seu nome nos documentos e ser reconhecida como uma mulher trans na corporação levou cerca de seis meses. Em 26 de dezembro de 2019, ela enfim conquistou o nome social nos quadros do CBMPA.
“Foi bastante chocante no Corpo de Bombeiros, pois muitos nem sabiam o que é identidade de gênero, outros pensavam coisas ruins. Houve uma certa barreira no início com alguns, mas hoje boa parte dessa barreira já foi quebrada”, conta.
“O processo rolou por uns seis meses. Fui no jurídico dos bombeiros e eles deram a aprovação, mas ainda enviaram para a Procuradoria-Geral do estado, e a procuradora deu parecer favorável. Enquanto isso, fui mudando devagar os documentos, minha certidão de nascimento, de casamento. O último documento que eu mudei foi meu diploma de ensino superior, que sou formada em educação física”, narra.
Encorajar outras pessoas
Atualmente, Paula Fernanda está na Coordenadoria Estadual de Defesa Civil, uma área da corporação. A militar espera ser promovida a sargento no segundo semestre deste ano.
Para ela, ser a primeira mulher trans nos bombeiros “é uma grande responsabilidade”. “Quando eu comecei a transição, pensei: ‘Como vai ser a questão jurídica? Preciso entrar na Justiça? Então, fui atrás de precedentes e tentei descobrir se tinha algum caso de pessoa trans no Corpo de Bombeiros e não achei nenhum no Brasil”, comenta.
“Eu encontrei dois homens trans na PM de São Paulo e uma mulher trans no Exército, mas nos Bombeiros nós não achamos ninguém. Mas, um ano depois de mim, já teve uma mulher, cabo dos Bombeiros do Pará também que se assumiu trans. Eu a ajudei na transição, pois ela queria há muito tempo e não via essa possibilidade por conta da situação familiar e por conta do trabalho. Quando soube da minha história e viu que deu tudo certo, ela tomou a decisão. Então, eu fui um pontapé para ela”.
Para Paula, falar sobre sua trajetória é importante para encorajar outras pessoas trans a passarem pelo processo, que muitas vezes pode ser difícil. “É uma responsabilidade que carrego. Quando ingressei com a petição de reconhecimento, senti medo de me expulsarem da corporação, já estava até vendo outras possibilidades de trabalho, porque eu não queria desistir da minha transição. Hoje, vejo como é importante eu ter tido essa coragem para também encorajar outras pessoas trans que querem tomar essa decisão”, finaliza Paula Fernanda.














