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Na Mira

Após um ano, morte de preso na Papuda segue sem explicação: "Revolta"

Cleiciano das Neves Dantas, 22 anos, foi encontrado morto em uma cela, em 30 de junho de 2025. Corpo dele tinha diversos sinais de agressão

, 15/06/2026 04:39, atualizado 12/06/2026 21:47
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Imagem cedida ao Metrópoles
Foto de Cleiciano

Quase um ano após a morte de Cleiciano das Neves Dantas (foto em destaque), de 22 anos, dentro de uma cela do Complexo Penitenciário da Papuda, as circunstâncias do óbito continuam sem esclarecimento. O jovem morreu em 30 de junho de 2025, mas o laudo de exame de corpo de delito não conseguiu determinar se a causa foi natural ou decorrente de trauma contundente, apesar de o corpo dele apresentar diversos sinais de agressão.

O detento estava no sistema penitenciário desde 30 de abril daquele ano, no Centro de Detenção Provisória (CDP), após um surto que foi denunciado por vizinhos. Com a chegada da polícia, ele teria atirado uma pedra contra a viatura e fugido, mas logo foi capturado pelos militares.

Nos primeiros dias após a morte, a versão apresentada pelos policiais penais era de que Cleiciano não apresentava sinais de agressão e que o óbito teria ocorrido por causas naturais, após ele supostamente passar mal dentro da unidade prisional.

No entanto, a narrativa passou a ser questionada depois que foram identificados sinais de agressão pelo tronco, rosto e pernas do homem. Quatro dias após a morte, os policiais penais foram afastados de suas funções enquanto as circunstâncias do caso passaram a ser investigadas.

O laudo do Instituto Médico Legal (IML) concluiu que Cleiciano morreu em razão de uma hemorragia interna provocada pela ruptura do baço. O documento também descreveu múltiplas lesões espalhadas pelo corpo do detento, registradas durante o exame necroscópico.

Apesar disso, os peritos não conseguiram determinar se a ruptura do órgão foi consequência das agressões observadas ou de outra causa, o que motivou a produção de um aditamento para esclarecer se a morte teve origem natural ou traumática. O novo parecer, contudo, também não chegou a uma conclusão definitiva.

Um novo aditamento pericial, elaborado em maio deste ano, reconheceu que a ruptura do baço é mais frequentemente associada a traumas, mas afirma “não ser possível concluir de forma inequívoca se o óbito ocorreu por causa natural ou de trauma contundente”. O texto também destaca que não foram identificadas doenças ou alterações capazes de explicar uma ruptura espontânea do órgão.

Para a família e a defesa de Cleiciano, a conclusão é insuficiente e deixa em aberto uma série de questionamentos. O advogado Paulo Martins dos Santos afirma que existem atualmente duas ações em andamento: uma investigação criminal para apurar as circunstâncias da morte e um processo de indenização movido contra o Distrito Federal.

“Os próprios peritos confirmam que ele morreu por uma hemorragia interna causada pela ruptura do baço. Eles também reconhecem que esse tipo de lesão acontece, na maioria das vezes, em decorrência de trauma. O problema é que o novo laudo deixa uma brecha para que o Estado não seja responsabilizado”, afirma Paulo.

Segundo o advogado, Cleiciano apresentava transtornos mentais e estava sem receber a medicação adequada durante o período em que permaneceu custodiado. “Ele entrou no presídio andando e saiu em um caixão. Quando retornou para a unidade prisional após a prisão, não estava sendo medicado. No dia em que morreu, foi devolvido para a cela já desacordado”, relata.

A defesa também questiona a ausência de imagens de câmeras de segurança e o silêncio de possíveis testemunhas. “As imagens do presídio nunca apareceram. Alguns presos ficaram com medo de falar e sofrer represálias. A família ficou totalmente desamparada. Só depois que apareceram as lesões é que procuramos os órgãos de direitos humanos e a investigação passou a tratar o caso como homicídio”, diz Paulo.

O advogado afirma que pretende solicitar à Justiça uma nova análise pericial. “Estou peticionando para que outro perito esclareça o laudo. Para mim, as lesões descritas no próprio documento apontam para uma morte causada por objeto contundente”, afirma.

Dor e revolta

A viúva de Cleiciano, Débora Balbino Soares, 29 anos, afirma que a família vive a expectativa de que o caso avance na Justiça. Segundo ela, a mãe do jovem ainda sofre diariamente com a perda do filho.

A mulher defende que o companheiro devia ter recebido tratamento de acordo com o seu quadro, em uma clínica. Ela afirma que o marido estava constantemente no Pavilhão Disciplinar (PD) desde que chegou à Papuda e que o período que saiu durou apenas 2 dias. Por conta disso, os parentes não conseguiram visitá-lo no presídio.

Débora lembra que a família foi informada apenas de que Cleiciano havia passado mal e não resistido. Ao chegar para o reconhecimento do corpo, porém, encontrou uma cena que a marcou para sempre.

“Ligaram para a mãe dele e falaram que ele tinha passado mal. Quando fomos reconhecer o corpo, vimos ele com o rosto machucado, com o corpo muito machucado. Não tem como ter sido uma morte natural. Isso é o que nos causa mais revolta”, diz.

Segundo ela, relatos de outros detentos indicam que Cleiciano teria pedido ajuda antes de morrer.

“O que mais fica na minha cabeça é imaginar ele sentindo dor, pedindo socorro, e ninguém ajudando. Presos relataram que ouviram os gritos dele”, afirma.

A morte também trouxe dificuldades financeiras para a família. Mãe de dois filhos do casal, hoje com 3 anos e 1 ano de idade, Débora afirma que dependia da renda do companheiro.

“Ele era quem mantinha a casa. Agora estou me virando sozinha com os dois meninos. Recebemos auxílio do governo, mas é muito difícil. Entrei em depressão, perdi muito peso. Meu filho mais velho pergunta do pai e até passa mal”, lamenta.

O casal ficou junto por seis anos. “Ele era pai de família, tinha nossos filhos para cuidar. A forma como ele morreu foi muito cruel”, desabafa.

Em busca de respostas, familiares e amigos chegaram a realizar uma manifestação em frente à sede do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT). O principal pedido é que as investigações avancem e esclareçam definitivamente o que ocorreu dentro da unidade prisional.

“O laudo não confirmou a real circunstância da morte. Estão tentando dizer que foi uma morte natural, mas isso me revolta porque, para nós, está óbvio que não foi. Tudo o que a família quer é justiça”, conclui Débora.

O que diz a Seape

Por meio de nota, a Secretaria de Administração Penitenciária do Distrito Federal (Seape-DF) informou que não comenta casos que estejam sob apuração.

“As apurações pertinentes ao caso mencionado foram instauradas e seguem em andamento. Em razão do caráter sigiloso dos procedimentos e com o objetivo de preservar a regularidade das investigações, a Seape-DF não divulga informações, documentos ou conclusões parciais relacionadas ao caso”, declarou.