Lago Sul: com muros altos e cercas de metal, mansões infringem normas
Na região, os muros e cercas não podem ter mais de 2,7 metros e 30% de área transparente. Alguns imóveis, porém, têm descumprido a norma

A população do Lago Sul tem notado, nas últimas semanas, alguns imóveis fora dos padrões que sempre nortearam as ruas e imóveis da região. Responsáveis por diversas residências têm construído e/ou instalado muros e cercas altas e completamente fechadas, o que não é permitido pela Lei de Uso e Ocupação do Solo (Luos), que define usos e índices a que estão sujeitas as edificações do Distrito Federal para o controle urbanístico da capital.
O Metrópoles circulou pelas QIs 13, 15 e 17 nesta semana e viu dezenas de casas em flagrante irregularidade. Algumas, com muros de concreto maiores do que 2,7 metros; outras, com cercas de alumínio e materiais similares que não permitem que os pedestres enxerguem o que há do outro lado da rua.
Veja as imagens:
O que diz a lei?
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DF- A Luos aponta que o proprietário do lote pode cercá-lo, desde que, nas divisas voltadas para as ruas públicas, seja obedecida altura máxima de 2,70 metros e 70% de transparência visual.
- Os imóveis destinados ao uso institucional (sedes de órgãos governamentais, por exemplo) não precisam atender a regra, desde que a característica da atividade ali realizada justifique o não cumprimento. Caso o Executivo intervenha no sentido de abrir uma exceção, a Luos permite a brecha.
- Os locais voltados para uso residencial exclusivo e/ou obrigatório, bem como as casas situadas ao longo de vias de conexão entre conjuntos e quadra, podem ter cercas e muros sem 70% de transparência visual, desde que o cercamento seja com elemento vegetal (cerca com folhas, por exemplo).
- É proibido cercar a projeção do lote, bem como a galeria obrigatória e a fachada ativa.

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Ver todas“Grande canteiro de obras”
Moradores temem que as construções e instalações irregulares, hoje ainda exceções, venham a se tornar padrão no Lago Sul. Eles têm se reunido em grupos e discutido, com curiosidade e incerteza, sobre as obras que aumentam a cada dia na região.
Líder comunitária e cidadã honorária de Brasília, a professora Natanry Osorio, presidente do Conselho Comunitário do Lago Sul, acredita que a população esteja desinformada quanto ao que pode ou não. “A falta de orientação está sendo enorme, muitas vezes, por omissão de a quem cabe manter a fiscalização e atualizar os moradores”, comenta. “A Administração Regional deveria incluir em seus boletins as normas e leis, para que os moradores novos sejam informados”, completa Natanry.
Para a professora, a quebra dos padrões torna o Lago Sul “um grande canteiro de obras”. “Empresas modernas têm cercado os lotes com muros de lata, como se ali fosse um canteiro de obras. Daí, o Lago Sul está se tornando um grande canteiro, quase que permanente. Quem vem de fora, pergunta: ‘Por que o Lago Sul é esse grande canteiro de obras?'”, diz a moradora.
“O Lago Sul não é engessado, como Brasília não é, mas há normas. É questão de preservar. É um bairro de baixa densidade, e tem uma razão de ser.”
A presidente do conselho comunitário afirma que alguns moradores constroem muros altos sob o pretexto de gerar agilidade na segurança ao imóvel e aos residentes. “O argumento do proprietário é: ‘Se a gente cerca, nossa segurança é maior’. Ora, se você pretende manter o seu cercamento é muito simples, basta deixar uma faixa de 70 centímetros, no mínimo, para que você plante, no limite do lote, a cerca viva. Rapidamente a mata crescerá, sem prejudicar o planejamento do bairro, e você terá aquilo que considera sua segurança”, sugere Natanry, que aproveita para alertar:
“Isso terá um efeito negativo terrível, porque rapidamente o Lago Sul deixará de ter o ar circulando livremente, mantendo a qualidade de vida. A região se tornará superaquecida. Mas isso é pra quem pensa nas gerações futuras, na qualidade de vida futura. As pessoas, na sua maioria, só querem pensar no aqui e agora.”
“O Lago Sul já teve um dos cinco maiores índice de desenvolvimento humano (IDH) do mundo. Com a cerca viva, a ventilação traspassa. Já com muros de lata e alvenaria, não se tem um equilíbrio de temperatura. Isso interfere na vida dos moradores e de todos que por aqui passam”, finaliza.
Cerca verde é beleza
O professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (FAU-UnB), Frederico Flósculo, concorda que a comunicação junto a comunidade poderia ser melhor. “A má disseminação da informação e a displicência da Administração Regional do Lago Sul são as razões para que os moradores ultrapassem os limites. Você tem ignorância por parte de alguns donos de casas e um comportamento muito ruim por parte do próprio administrador. Essa combinação é péssima”, alerta o especialista.
Para Flósculo, a destruição das áreas verdes têm crescido da década de 1990 até então. “O Lago Sul é belíssimo enquanto mantido pelo verde. No entanto, ao longo do tempo, nós vemos os moradores cortando as cercas vivas e substituindo por lata — que alguns até pintam, mas outros nem isso, deixam a lata com cor de lata, mesmo. O Lago Sul fica parecendo um setor de oficinas, de depósito de carro usado, de lixo, de peças, de tranqueira”, critica o professor.
“Dos anos 1990 pra cá, por conta da autonomia política e desse perfil de administradores desligados do dever de servir a comunidade, o desrespeito aos padrões da cerca verde tem piorado de forma impressionante.”
O especialista alerta que os órgãos fiscalizadores precisam agir de forma mais direta. “Devem entrar em contato com os cidadãos que estão contribuindo para a deterioração da imagem do bairro. A administração pública tem esse dever, é mais do que um direito. Acredito que, com isso acontecendo, sistematicamente todo mundo vai concordar em rever seus padrões. Todos aqueles que estão contribuindo para a deterioração do Lago Sul vão recuar”, encerra.
Respostas
Em contato com o Metrópoles, a Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh), responsável pela Luos, reiterou que os padrões dos muros (máximo de 2,7 metros de altura e mínimo de 70% de transparência) são aplicáveis aos cercamentos que estão voltados às ruas públicas.
A pasta reforçou também que, embora a Luos tenha sido atualizada pela Lei Complementar nº 1.007/2002
Quanto ao que acontece com as casas fora dos padrões, o Executivo age a partir de denúncias, por meio de fiscalização da Secretaria DF Legal. A pasta informou ao Metrópoles que há um pedido de fiscalização para um dos imóveis revelados pela reportagem e que lavrou uma intimação demolitória ao dono do lote.

















