MPDFT estuda denunciar PMs que agrediram ambulante à Auditoria Militar

Caso é apurado pela PMDF e PCDF. Advogado pretende entrar com ação de danos morais. Abordagem violenta ocorreu em Planaltina

Hugo Barreto/Metrópoles

atualizado 03/06/2020 19:37

O Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) informou ao Metrópoles que a instituição estuda oferecer denúncia contra os militares flagrados agredindo o ambulante Welington Luiz Maganha, 30 anos. O caso ocorreu na noite dessa segunda-feira (01/06), em Planaltina.

Em nota, o MPDFT diz acompanhar o desenrolar das investigações do inquérito policial militar instaurado para verificar a possibilidade de ajuizamento da ação penal junto à Auditoria Militar do DF.

Além da investigação realizada pela 16ª Delegacia de Polícia (Planaltina), o caso é apurado pelo Comando-Geral da Polícia Militar do DF (PMDF) em conjunto com a Secretaria de Segurança Pública (SSP-DF).

“Já está em curso a instauração de Inquérito Policial Militar, e deixamos claro, desde já, que as atitudes dos policiais em questão em nada correspondem às diretrizes de abordagem e conduta preconizadas pela corporação”, destacou a corporação, também em nota ao Metrópoles.

Agredido fisicamente por policiais militares, Welington Luiz Maganha disse, em depoimento à Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), que os ataques começaram quando saía de um supermercado em Planaltina, após ter comprado “um refrigerante e duas cervejas”.

Segundo o relato do homem, três policiais militares teriam o abordado no estacionamento do local e mandado que “colocasse as mãos na cabeça”. Ele narra que nada foi encontrado durante a busca pessoal.

Após a revista, um militar teria desferido, sem motivo, um soco na costela da vítima. Quando Welington questionou o motivo da agressão, os policiais passaram a “desferir socos na cabeça” – ainda conforme depoimento prestado à PCDF.

Os ataques não cessaram. “Me mandaram calar a boca, me deram socos na cabeça. Quando fui me afastar, fui agredido novamente nas costas com golpes de cassetete. Os policiais também usaram gás de pimenta”, relatou aos policiais civis.

Pertubação da tranquilidade

Segundo a nota da PMDF, a corporação foi acionada pela população que denunciou “perturbação da tranquilidade e da ordem pública no local”. A PM confirma que o final da ação foi registrado conforme o vídeo, mas não houve qualquer contextualização racista na abordagem ao ambulante.

“Informamos que os policiais serão ouvidos, no devido processo disciplinar/criminal, pela Corregedoria, para verificar as circunstâncias do fato e que todo o excesso será apurado com o rigor que o caso requer”, destaca.

Pedido por Justiça

A reportagem conversou com o homem responsável por gravar as agressões. O rapaz diz sentir que as imagens ajudarão “a justiça a ser feita”. Sem imaginar que o vídeo causaria tanto impacto, ele conta que não acreditou quando recebeu várias ligações avisando que a filmagem estava em diversos veículos de comunicação.

“Fiquei muito feliz com a repercussão”, afirma. O jovem estava na porta do supermercado, esperando um amigo sair, quando começou a ouvir vários gritos. Era uma discussão entre os PMs e Wellington.

“Estavam sendo bem agressivos com ele. Só posso dizer o que eu vi e, durante todo o tempo que observei, o rapaz não levantou a voz em nenhum momento”, relata.

Em um determinado momento, no entanto, os policiais ficaram com ainda mais raiva. “Parece que ele disse algo que não gostaram. Foi aí que eu comecei a gravar, pois não queria que alguma injustiça acontecesse”, explica.

Veja o vídeo:

Nesse momento, a dupla de militares voltou à viatura e jogou spray de pimenta em Wellington, que começou a correr. “Se fosse uma abordagem normal, não precisava de nada disso. Ele não tinha nenhuma arma, era só revistar e prender. Mesmo assim saíram atrás com o cassetete”, lamenta a testemunha.

O que mais chamou a atenção do homem que fez a gravação foi o momento que tudo acabou. “O cara atravessou a rua e os policiais foram embora. Não levaram para a delegacia. Se fosse mesmo um criminoso, não deixariam ele sair normalmente”, pontua.

Na manhã desta quarta-feira, Wellington foi ao Instituto de Medicina Legal (IML-DF) fazer exame de corpo de delito. Os especialistas, segundo o advogado do homem, Anderson Tiago Campos, confirmaram diversos ferimentos, como lesão na clavícula e no ouvido. O laudo deve sair em 10 dias.

Na saída da sede da PCDF, a vítima, afrodescendente que veio do Rio de Janeiro buscar oportunidades na capital do país, contou detalhes do caso.

Assista: 

Nas palavras de Welington, o medo foi o principal sentimento na hora das agressões. “Naquele momento, eu achava que ia morrer”, contou. Mas o vendedor ambulante também mostrou compreensão ao falar dos policiais.

“Eu aceito o perdão, eu perdoo. A gente tem que perdoar. Não sei o que deu na cabeça deles”, afirmou. “Que possam refletir sobre o que fizeram porque não está certo.”

O advogado dele pretende protocolar requerimento no Conselho de Direitos Humanos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Na Justiça, pedirão ressarcimento por dano moral. E, na esfera criminal, em caso registrado na 16ª DP, será apurada a possibilidade de racismo.

“Acreditamos que foi racismo. Se fosse uma pessoa com fenótipo diferente, não aconteceria dessa forma”, opinou Anderson Tiago Campos.

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