Homem negro agredido por PM no DF: “Não sou bicho para me tratarem assim”

Vendedor ambulante Welligton Luiz Maganha disse que saía do supermercado quando passou a ser agredido em Planaltina

Reprodução/Facebook

atualizado 03/06/2020 10:07

Quando Welington Luiz Maganha (foto em destaque), 30 anos, veio para o Distrito Federal, em 2016, ele queria a oportunidade que não tinha no Rio de Janeiro. E conseguiu construir uma nova vida em Planaltina. O que o vendedor ambulante não esperava era ser agredido por policiais militares, como aconteceu na noite dessa segunda-feira (01/06).

“Eles não agiram da forma correta. Me esculacharam sem eu fazer nada”, conta o rapaz à reportagem do Metrópoles, usando o celular da esposa, Gildete Corrêa, 44 – o dele foi quebrado durante a abordagem dos PMs.

Welington registrou ocorrência na 16ª Delegacia de Polícia (Planaltina), passou pelo Hospital Regional de Planaltina, mas recebeu alta na tarde dessa terça-feira (02/06), e ainda nesta quarta (03/06) pela manhã seguiria para o Instituto de Medicina Legal (IML). Na noite de segunda-feira (01/06), o homem recebeu golpes de cassetete de um policial militar do lado de fora de um supermercado, no Setor de Áreas Especiais Norte de Planaltina.

“Eu não sou bicho para me tratarem assim”. Ele contou que tinha ido ao local comprar refrigerante e cervejas e, ao sair do estabelecimento, foi abordado. Os militares passaram a revistá-lo.

Não encontraram nada, mas, segundo a sua versão, começou a ser agredido. “Me enquadraram, mandaram eu calar a boca, me chutaram”, conta. A partir daí, Welington não se lembra de muitas coisas, quantos golpes de cassetete levou, por exemplo. “É como se eu tivesse ficado cego, sabe? Apagou tudo”, diz.

Lembra das pauladas, de ter recebido um jato de spray de pimenta nos olhos, chutes e uma pedrada na cabeça. “Onde já se viu polícia jogar pedra? Eu já tinha sido abordado pela polícia antes, mas sempre tratei com respeito e sempre me trataram com respeito”, conta Welington, que vende doces, fones de ouvidos e porta-documentos em ônibus pela cidade.

Medo de morrer

No momento das agressões, o ambulante pensou que iria morrer. “Pensei que eles iam ‘terminar o serviço’, né? Não consigo dormir direito depois disso. Acordo à noite com qualquer barulho, achando que eles vão entrar na minha casa”, confessa.

Por isso mesmo, fala com receio sobre a motivação da violência. “Acho que foi racismo, preconceito. Todo mundo está falando isso”, conta Welington.

Imagens

Uma testemunha filmou o momento em que um dos policiais dá diversos golpes nas costas de Welligton Luiz, que mora em Planaltina. As imagens viralizaram e causaram muita indignação nas redes sociais.

A Polícia Militar diz que afastou os policiais que são lotados no 14º BPM (Planaltina) e que investiga a conduta da dupla que aparece nas imagens. A corporação, porém, diz que “não há que se falar em racismo, e, sim, em excesso na ação policial”. Disse ainda se tratar de um “caso isolado”.

Veja o vídeo:

No vídeo, é possível ouvir o rapaz perguntando o que teria feito e grita de dor enquanto é atingido pelos golpes. Em determinado momento, chega a cair. Os policiais continuam perseguindo o homem e, então, a filmagem acaba.

O que diz a PM

Em nota, a PM afirma que foi acionada pela população para denúncias de perturbação da tranquilidade e da ordem pública no local. E confirma que o final da ação foi registrado conforme o vídeo, mas não houve qualquer contextualização racista.

“Informamos que os policiais serão ouvidos, no devido processo disciplinar/criminal, pela corregedoria, para verificar as circunstâncias do fato e que todo o excesso será apurado com o rigor que o caso requer”, destaca.

0

Também por meio de nota, a Secretaria de Segurança diz que, em conjunto com o comando da PMDF, está adotando todas as providências legais de apuração dos fatos ocorridos em vídeo que circula desde a madrugada nas redes sociais.

“Já está em curso a instauração de Inquérito Policial Militar, e deixamos claro, desde já, que as atitudes dos policiais em questão em nada correspondem às diretrizes de abordagem e conduta preconizadas pela corporação”, destacou.

João Pedro e George Floyd

O caso ocorre em meio a duas situações de violência que marcam o Brasil e o mundo. No Rio de Janeiro, uma operação policial acabou com a morte do adolescente João Pedro, de apenas 14 anos. Ele brincava em casa com amigos e primos.

Há também protestos no mundo inteiro após a morte de George Floyd, 46. No dia 25 de maio, ele foi abordado por policiais na cidade de Minneapolis, nos Estados Unidos. Diversos vídeos mostram a vítima ao chão, imobilizada por um agente, que pressionava com o joelho o pescoço dela contra o chão.

George chegou a dizer que não conseguia respirar. O policial Derek Chauvin acabou preso na última sexta-feira (29/05).

Últimas notícias