Buraco na rede de esgoto “engole” parte de casa no Sol Nascente

Caso ocorreu no último sábado (07/12/2019) e família está desabrigada desde então

Myke Sena/Esp. para o MetrópolesMyke Sena/Esp. para o Metrópoles

atualizado 10/12/2019 12:53

Neste ano, não haverá comemoração de Natal na casa da família de Maria Aparecida Pereira de Souza, 44 anos. Moradora de área de risco, a diarista ficou desabrigada após a residência que batalhou para construir ir abaixo. Construído em cima da rede pública de esgoto, o imóvel foi engolido, no último sábado (07/12/2019), por uma erosão provocada pela ruptura da tubulação.

Da casa onde a diarista morava com o marido e os dois filhos, restaram apenas um banheiro e um quarto. A família dividia o imóvel há nove anos. Em meados de 2010, Cida, como é conhecida, conseguiu juntar suas economias para comprar um lote na Chácara 91 do Sol Nascente.

Ao logo do período em que esteve no lote, a mulher diz ter investido pelo menos R$ 80 mil na casa simples. Com o dinheiro, ergueu dois quartos, cozinha, sala e banheiro. Era seu “sonho realizado”. Planejava investir em melhorias no imóvel quando foi surpreendida pela ruptura da tubulação de esgoto.

Barulho de explosão

A diarista afirma desconhecer que estava comprando um terreno situado sobre uma rede de esgoto, o que é proibido pela Defesa Civil. A descoberta veio da pior maneira: nesse sábado (07/12/2019), durante uma obra de revitalização do emissário de esgoto, a tubulação se rompeu e fez com que parte da casa de Cida ruísse (fotos em destaque e na galeria abaixo).

No momento do desabamento, marido e filhos da diarista se preparavam para dormir. Por sorte, eles conseguiram deixar o local antes que sala, quarto e cozinha da casa desabassem. Segundo o marido de Maria Aparecida, Gilson Pereira da Silva, não foi possível recuperar nenhum móvel dos cômodos a tempo.

“Eu estava me preparando para dormir na sala, quando saí um minuto para colocar comida para os cachorros e para o gato. Foi quando ouvi um barulho de explosão, pensei que era o botijão de gás. Foi o tempo de eu entrar, chamar todo mundo e sairmos. O barulho foi muito alto, algumas casas chegaram a rachar por conta do estrondo. Se demoro mais um pouco, a gente tinha morrido soterrado”, conta.

Dos bens, a família só salvou o que conseguiu carregar nos braços na correria. “Perdemos tudo,  sofá, mesa, toda a cozinha, material escolar dos meus filhos, brinquedos de Natal. Perdi o que tinha e o que eu sofri, trabalhei, suei para conseguir. A casa própria era o sonho da minha vida”, lamenta Cida.

Solidariedade

Ao Metrópoles, o casal afirmou ter ciência de que a casa apresentava perigo, pois chegou a ser notificado pela Defesa Civil no ano passado. A família não tinha a quem recorrer nem outro lugar para ir. Os moradores chegaram a pedir abrigo em imóveis voltados para famílias de baixa renda, sem sucesso.

“Nós não conseguimos entrar nos programas [sociais do GDF] por conta da burocracia. Não deu tempo, ficamos no aguardo de relatórios e foi quando isso aconteceu. Nunca tivemos suporte. Mas vou brigar até o fim pela minha moradia, pois o suor derramado ali foi grande”, explica a diarista.

Desabrigados, os quatro agora dependem da solidariedade de vizinhos para não dormirem nas ruas. “Cada dia um vizinho vai ajudando. Um dia dormimos em um e depois em outro. O que sei é que, depois de tudo isso, Natal lá em casa não vai existir. Até lá, não sei onde estaremos”, encerra Cida.

Outro caso

Episódios como o que atingiu a família de Maria Aparecida não são pontuais. Na última semana, uma casa em Vicente Pires passou pelo mesmo problema. O imóvel veio abaixo depois que a tubulação de águas pluviais se rompeu com a força da chuva. O Corpo de Bombeiros foi acionado para atender a ocorrência.

A residência, feita de alvenaria, tinha quatro cômodos. Devido à gravidade dos danos, técnicos da Defesa Civil chegaram ao local para fazer a avaliação da estrutura e definir se era necessário isolar o perímetro, a fim de garantir a segurança dos lotes vizinhos.

Veja foto: 

CBMDF/Divulgação
Uma casa caiu em Vicente Pires depois que a tubulação de águas pluviais se rompeu com a força da chuva

 

O caso aconteceu em uma chácara na Rua 19. A casa ficou destruída: as paredes cederam e houve destelhamento. Apesar dos estragos, ninguém ficou ferido. Os sete ocupantes da residência foram retirados. Os bombeiros trabalharam com quatro viaturas e 18 militares.

O outro lado

As obras na rede de esgoto do Sol Nascente são de responsabilidade da Companhia de Saneamento Ambiental do Distrito Federal (Caesb). Conforme a Caesb destacou, em nota, Maria Aparecida “foi notificada, no ano passado, pela Defesa Civil, por construir em área irregular e em cima de um emissário de esgoto, o que é terminantemente proibido”.

“Em função dessa construção irregular, o emissário de esgoto da Caesb se rompeu no dia 1 de dezembro. A Defesa Civil esteve no local e interditou o imóvel. A Caesb foi autorizada, a partir de hoje [segunda-feira, 09/12/2019], a efetuar o reparo do emissário. Os serviços já começaram e devem ser concluídos nos próximos quatro dias”, disse a companhia.

Procurada, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) informou que Cida pode ir ao Centro de Referência Assistencial (Cras) mais próximo para requerer o benefício eventual, modalidade auxílio em situação de desastre ou calamidade pública.

De acordo com a pasta, a modalidade pode ser concedida em situações de desastre ou calamidade pública declaradas oficialmente pelo governo. Seu valor corresponde a R$ 408 e a concessão também poderá ser feita por meio de bens de consumo.

Já o benefício excepcional é um auxílio em razão do desabrigo temporário, de prestação excepcional no âmbito da assistência social e subsidiária à política de habitação, concedido às famílias que vivenciam situações de vulnerabilidade temporária ocasionadas pela falta ou pela inadequação da moradia.

“Se destina exclusivamente ao pagamento de aluguel de imóvel residencial e é concedido em prestações mensais no valor de até R$ 600, por até seis meses, podendo ser prorrogado por igual período, se o beneficiário estiver na condição de habilitado na política habitacional do Distrito Federal”, explicou a pasta.

À reportagem, a Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Distrito Federal (Codhab) informou não ter sido “provocada por nenhum outro órgão do Governo do Distrito Federal à respeito desta situação”.

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