Medidas paliativas não aliviam estragos da chuva na Asa Norte

Com alagamentos, moradores, comerciantes e especialistas não viram melhoras na região após as últimas intervenções feitas pelo governo

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 08/11/2019 8:27

A tempestade na manhã dessa quinta-feira (07/11/2019) causou estragos na Asa Norte. O Governo do Distrito Federal (GDF) divulgou nota comemorando o desempenho das lagoas de contenção construídas perto do Estádio Nacional de Brasília Mané Garrincha que, segundo o Palácio do Buriti, diminuiriam o impacto das águas na região. No entanto, a população não viu melhora.

A nota do GDF citou o “desempenho satisfatório” das obras na contenção de águas na 202, 402 e 907 Norte. O Metrópoles visitou as três vizinhanças na tarde dessa quinta-feira (07/11/2019) . Do ponto de vista de moradores, comerciantes, especialistas e órgãos de controle, as enxurradas causaram o mesmo desconforto dos anos passados. Ou seja, tiveram pouco efeito na retenção das águas.

Após a enxurrada, a 202 Norte ficou tomada por barro, pedras e placas de carros. Segundo Donizete Rosa, 28 anos, gerente de um restaurante da quadra, as obras não mitigaram o impacto das tempestades. Com 15 minutos chuva, a região ficou alagada. “Não melhorou nem um pouco. É prejuízo para o comerciante. Como a pessoa anda com água na cintura?”, criticou.

Entre novembro e março, a quadra costuma sofrer com alagamentos. Pedindo para ter o nome preservado, uma trabalhadora da região não concordou com o discurso do GDF. “Alagou com intensidade igual aos anos anteriores. Chegou a fechar a tesourinha. Ela ficou alagada. As obras não surtiram muito efeito. E eu estava até na expectativa de melhora”, desabafou.

Piora?

Dono de um restaurante na 402, João Carlos Gontijo, 26, também não testemunhou menor intensidade nos alagamentos. “Pelo que pude perceber, este ano continua a mesma coisa, continua tendo os alagamentos do ano passado”, pontuou. Sentimento compartilhado pelo comerciário Gelcianio Vieira de Freitas. Na verdade, para o trabalhador, a situação piorou.

“No ano passado, não presenciei e fiquei sabendo de casos iguais aos desta terça-feira. Acho que o GDF tem que fazer um estudo para a finalização dessas obras”, comentou. Neste contexto, Gelcianio e os colegas de loja não estão satisfeitos com a linha de ação do governo. “Tem que melhorar muito. E com providências urgentes”, arrematou.

Nos arredores da 907 Norte, críticas também foram disparadas. Segundo Márcio Borges, 47, porteiro de um prédio residencial na 706 Norte, ao longo de 26 anos a região sofre com alagamentos no período chuvoso, e neste ano não foi diferente. “Passou água do mesmo jeito”, resumiu. De acordo com Borges, as bocas de lobo ficaram entupidas pela sujeira. A água tomou tudo.

Elogios

As reclamações não foram unânimes. O atendente Daniel Soares, 18, empregado em uma lanchonete perto da 907, viu melhora. “Realmente, melhorou. Não foi grande, mas foi boa”, afirmou. Segundo o jovem, os transtornos foram menores na comparação com períodos chuvosos passados.

O chapeiro Bruno Alves, 19, também aprovou as obras. A tempestade chegou a danificar a lanchonete onde trabalha, perto da 907, mas o fluxo das águas correndo pelas ruas foi menos intenso, do ponto de vista do trabalhador. Morador do Paranoá, Alves espera que o GDF continue a fazer obras de contenção e drenagem das chuvas não apenas na Asa Norte, mas em todo o DF.

Paliativo

Segundo a presidente do Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia do DF (Crea-DF), Fátima Có, as bacias de contenção são soluções para as inundações, mas devem ser executadas em todo o percurso até o Lago Paranoá.

“Ao que nos parece, foram feitas pequenas intervenções, como a limpeza das bocas de lobo e outras. Mas tais intervenções são paliativas, não resolvem definitivamente o problema”, ponderou. Fátima destacou problemas em outras regiões, como a 511 Norte, completamente alagada. Existe um veio d’água na região, dificultando ainda mais a penetração da água no solo.

Ineficientes

Na leitura do professor de arquitetura e urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Frederico Flósculo, as obras do GDF não foram eficientes. Neste sentindo, classifica como “embaraçoso” o desempenho do projeto de drenagem na Asa Norte e em todo o DF. Para o especialista, as construções pecam pela falta de diagnósticos técnicos.

“O GDF gasta sem saber. E o meio ambiente não mente, com alagamentos e enxurradas”, sentenciou. As chuvas também causaram estragos em escolas e hospitais públicos.

Versão do GDF

Procurado pela reportagem, o GDF reafirmou a avaliação positiva das intervenções, realizadas pela Secretaria de Obras em conjunto com a Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap). Segundo o diretor de Urbanização da estatal, Luciano Carvalho, na Asa Norte, as obras pontuais não são a solução definitiva, mas funcionaram satisfatoriamente.

Além da construção de duas lagoas de contenção e curvas de nível perto do depósito do Departamento de Trânsito do DF (Detran-DF), o governo concertou pontos de captação de água da chuva, limpou e desobstruiu bocas de lobo e bueiros.  “Nossa avaliação é que os impactos foram bem menores do que aqueles que vimos nas últimas chuvas”, declarou.

Novo Drenar DF

Segundo a Secretaria de Obras, o programa Drenar DF, antigo Águas do DF, está em fase de atualização. A versão original data de 2008, e o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) exige mudanças, como a troca de bacias a céu aberto por cobertas. A estimativa é de que o novo custo da obra fique em torno de R$ 350 milhões.

Nesse contexto, não há previsão de execução das obras. Na fase atual, o programa é dividido em duas etapas. Uma com foco no Plano Piloto e outra, em Taguatinga.