Médico Wesley Murakami vira réu em ação penal por deformar pacientes

Denúncia do MPDFT, a partir do relato de quatro pacientes, foi recebida pela Justiça. Ele é acusado de lesão corporal e estelionato

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atualizado 17/09/2019 12:34

O médico Wesley Noryuki Murakami virou réu em ação penal que corre na Vara Criminal e Tribunal do Júri de Águas Claras. O juiz de direito Gilmar Rodrigues da Silva aceitou denúncia do Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), na qual ele é acusado de ofender a integridade corporal e a saúde de diversos pacientes, ocasionando deformidades permanentes no rosto e corpo das pessoas. A ação, nesse caso, atende o pedido de quatro das 30 vítimas que o acusaram de procedimentos malfeitos.

Na decisão, a Justiça recebe a denúncia por considerar a “existência de materialidade e de indícios de autoria em face dos depoimentos das vítimas”. Os possíveis danos cometidos por ele em pacientes ocorreram pela aplicação de PMMA (polimetilmetacrilato) em quantidades excessivas para o corpo humano.

Em dezembro de 2018, Murakami foi preso em operação da Polícia Civil, deflagrada pela Coordenação de Repressão aos Crimes Contra o Consumidor, a Propriedade Imaterial e a Fraudes (Corf) e batizada de Dismorfia.

Em 17 de janeiro, a prisão do médico foi revogada. Entretanto o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) impediu Murakami de exercer a profissão. Na ação que o torna réu, foram ouvidos quatro pacientes e oito testemunhas.

Confira fotos de alguns dos pacientes:

O MPDFT descreve na denúncia que, ao realizar o procedimento estético de bioplastia (técnica de preenchimento facial ou corporal), com quantidade excessiva de PMMA – ocasionando infecções, tromboses e deformidades permanentes –, Murakami assumiu o risco de resultado danoso. “Verificou-se que o denunciado nem mesmo respeitava os procedimentos de higiene exigidos para procedimentos invasivos, deixando de usar luvas e realizar a correta assepsia das mãos”, diz a peça do MPDFT.

Antes dos procedimentos, o médico, segundo o MPDFT, posicionava as vítimas diante de espelhos, apontava imperfeições em seus rostos e prometia “traços mais harmoniosos e bonitos”. Em depoimento, uma das vítimas ouvidas pela Justiça relatou que, por meio do site de descontos, no início de abril de 2012, comprou um pacote de 10 aplicações de carboxiterapia a serem realizadas na clínica onde o suspeito atendia.

Manchas de espinhas

Durante os procedimentos de carboxiterapia, ele teria oferecido a bioplastia, alegando que seria um procedimento para “tirar manchas de espinhas”. Não informou, porém, que usaria o PMMA, substância que adere de forma permanente aos tecidos, músculo e pele. A vítima contratou o serviço por R$ 7 mil.

O produto foi aplicado na face da vítima e gerou diversas deformidades e danos aparentes “irreparáveis”, além de perda de sensibilidade na face. A vítima disse ter sentido fortes dores por quatro dias. Ele ainda voltou ao consultório para fazer a manutenção, devido à promessa do médico de que os resultados seriam vistos em dois meses.

“Até os presentes dias, a vítima sente microesferas de plástico em sua face. Além disso, o aspecto inflamatório e o inchaço interferiram na sensibilidade local, com debilidade permanente de sentido”, detalha o MPDFT. A vítima ainda desenvolveu depressão e teve pensamentos suicidas.

Trombose

Outra vítima fez relatos parecidos. No caso dela, as lesões ocorreram em 2015. A mulher relatou ter recebido uma injeção com o mesmo produto embaixo do nariz. Ela chegou a aspirar parte do PMMA, sentindo-o em sua garganta. Dois dias depois do procedimento, constatou sinais de infecção na mucosa bucal, com pus, inchaço e dor.

A mulher não conseguiu contato com o médico em Brasília e foi até a emergência do Hospital Santa Helena. Lá, foi diagnosticada com trombose venosa profunda. O quadro se agravou para um tromboembolismo pulmonar, que a afastou de suas atividades por mais de 30 dias.

Mesmo após ser submetida a diversos tratamentos, a mulher teve deformidades permanentes e limitações geradas pelo procedimento: “Até o presente momento, sofre com falta de ar constante, fadiga, limitações para viajar, pois usa meias compressivas, associadas a injeções de anticoagulantes no abdômen”, explicita a denúncia recebida pela Justiça.

Outras duas vítimas relatam no processo situações parecidas. Uma delas afirmou que o médico a chamou de “feia” e “baranga”, antes de injetar o PMMA no rosto dela. Em outro caso, afirmou que o rosto da paciente estava desalinhado e que faria “harmonização facial”. Cobrou R$ 20 mil pelos procedimentos.

A mulher ficou com “bolsas” nos olhos, manchas de queimadura na região ocular e têmporas marcadas. Abalada, desenvolveu síndrome do pânico e foi aposentada por invalidez.

Multa

O MPDFT pede, na denúncia, que sejam analisados os crimes de lesão corporal, estelionato, além do pagamento de multa no valor mínimo de R$ 100 mil a cada paciente lesado.

O advogado do réu, José Wellington Medeiros, afirmou ao Metrópoles que o cliente é inocente e que “há uma campanha difamatória contra o médico por parte de um apresentador de jornal que o chantageou para não divulgar os casos na mídia”. “O procedimento de PMMA tem um tempo de recuperação. As pessoas fotografaram no dia do procedimento. Gostaria que mostrassem as fotos de hoje, de como cada pessoa está agora. Está todo mundo mais bonito que antes”, afirmou.

Condenação

Em abril, o médico Wesley Murakami foi condenado a pagar indenização de R$ 60 mil a uma paciente que sofreu sequelas após procedimento para reduzir as olheiras, em Goiânia (GO). O produto usado no tratamento ficou alojado no rosto da vítima.

De acordo com o processo, nódulos irregulares se concentraram na região das pálpebras e a vítima precisou passar por cirurgia para retirada do produto injetado. Ela ficou com sequela no olho esquerdo, depois de o nervo óptico ser afetado.

Nesta terça-feira (17/09/2019), a Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (Regional DF) enviou nota ao Metrópoles afirmando que Murakami “não pertence ao quadro de associados da SBCP”. também esclarece que no site do Conselho Regional de Medicina, “o médico referido não apresenta Registro de Qualificação de Especialista (RQE) para Cirurgia Plástica”.

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