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Os mais recentes episódios envolvendo tráfico e consumo de drogas nas dependências da Universidade de Brasília (UnB) reacenderam o debate sobre o livre acesso de estudantes a substâncias ilícitas no ambiente acadêmico. Somente nessa última semana, a polícia entrou na instituição para apurar dois crimes supostamente ligados ao comércio de entorpecentes. No último dia 23, o corpo de um aluno de filosofia foi encontrado ao lado de um cachimbo de crack. Três dias depois, policiais prenderam um graduando de agronomia sob acusação de que ele vendia maconha no local onde fazia estágio, o Centro de Excelência para o Turismo (CET) da UnB.

Além de causarem perplexidade, os casos provocaram alvoroço na Universidade de Brasília. Enquanto alguns defendem ações mais enérgicas da polícia, outros consideram a presença de militares uma afronta ao histórico de luta e resistência da UnB, cujas dependências foram invadidas durante o regime militar para a prisão de estudantes e professores.

Sob a condição de anonimato, um estudante da maior instituição de ensino do Distrito Federal conversou com a reportagem do Metrópoles. Ele admitiu o hábito de fumar maconha todos os dias, antes das aulas. “Droga tem em todo lugar e maconha está longe de ser o principal problema do país. O que mata é crack, cocaína”, defendeu o jovem, de 21 anos.

Nessa sexta-feira (29/6), mesmo com a universidade já em ritmo de férias e com número reduzido de alunos, a reportagem flagrou jovens fazendo uso de maconha sem qualquer receio nos arredores do Instituto de Ciências Sociais (ICS). Em pleno horário de almoço, cinco rapazes e uma mulher passavam baseados de mão em mão.

Também durante o dia, sentada no corredor em frente ao Centro Acadêmico de Sociologia, uma jovem fumava enquanto mexia no celular (foto em destaque). Pela quantidade de estudantes, professores e funcionários passando em frente à garota, percebe-se que a cena já é considerada normal por ali.

Problema afeta toda a cidade
Tal impressão é confirmada pela própria direção da universidade. O chefe de gabinete da Reitoria da UnB, Paulo César Marques, reconheceu que existe, sim, circulação de drogas nas dependências da instituição, mas ponderou: o problema deve ser tratado dentro de um contexto mais amplo.

“Não existe política de combate às drogas, porque não cabe à universidade. O fato é que esse problema afeta a cidade toda, inclusive a UnB. Mantemos os canais de comunicação com as forças de segurança abertos e, quando identificamos episódios inadmissíveis como o do aluno de agronomia, colaboramos no que for preciso”, destacou.

Paulo César Marques também confirmou haver núcleos de resistência à presença da Polícia Militar no ambiente acadêmico, mas acredita tratar-se de um número reduzido de pessoas com essa postura. “Muitos temem que a PM reprima alguns movimentos dentro da UnB, o que seria realmente ilegal, pois todos querem preservar essa característica histórica de luta e de livre manifestação. Mas, quando se trata de melhorar a segurança pública, creio haver apenas uma ínfima parcela que se opõe”, disse.

 

Resistência à PM
As estatísticas oficiais nem de longe refletem o dia a dia na UnB. Segundo a Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social, em 2018 foram registradas somente duas ocorrências de tráfico no local. Em 2017, elas não passaram de sete casos. Em 2016, houve apenas seis registros.

Segundo o comandante do 3º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal (Asa Norte), major Lúcio Flávio Teixeira, operações policiais na instituição são delicadas, devido à repulsa que alguns alunos têm à corporação.

“É fato, a nossa presença incomoda o usuário, mas o curioso é que recorrentemente nos deparamos com esses mesmos usuários reclamando da ausência de policiamento quando têm carros arrombados ou objetos roubados dentro da universidade”, pondera.

Para a psiquiatra e vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e outras Drogas (Abead), Alessandra Diehl, não se pode acusar as universidades pelo problema escancarado, mas sim o Estado, incapaz de formular políticas para desmistificar a cultura de que entorpecentes combinam com o ambiente acadêmico.

Deveria se fazer o mesmo que fizeram com tabaco há alguns anos. Hoje, todo jovem que ingressa na faculdade conhece os efeitos nocivos do cigarro, mas a percepção em relação às drogas, principalmente à maconha, ainda é muito distorcida, justamente por não haver um debate franco"
Alessandra Diehl, vice-presidente da Abead

A profissional critica a inversão de prioridade do governo brasileiro em relação ao tema: via de regra, o Estado investe em repressão e praticamente ignora a prevenção. “Estudos internacionais demonstram que, para cada dólar aplicado em prevenção, poupa-se sete dólares com sistema prisional”, exemplifica.

O Diretório Central dos Estudantes (DCE) manifestou-se por meio de nota. A entidade, que representa o conjunto dos alunos da UnB, entende ser urgente o início de discussões sérias sobre a problemática das drogas não só na universidade, mas no país inteiro.

“O debate no Brasil sobre a criminalização das drogas se pauta em concepções rasas sobre a questão. Os reflexos na criminalidade que o tráfico de drogas gera influi na segurança dos alunos, professores e servidores. Para o DCE, uma rediscussão nacional sobre a questão é essencial e precisa começar agora”, diz o texto encaminhado ao Metrópoles.

Processo arquivado
No ano passado, o consumo e tráfico de drogas na Universidade de Brasília causou um mal-estar entre a atual reitora, Márcia Abrahão, e o delegado Rodrigo Bonach, que à época integrava a Coordenação de Repressão às Drogas (Cord). Na ocasião, a unidade da Polícia Civil do DF prendeu três estudantes acusados de cultivar maconha nas dependências da UnB (veja vídeo abaixo).

 

À época, o delegado relatou dificuldades para atuar na região e disse que a Universidade de Brasília era “conivente” e “leniente” com o consumo de drogas. Márcia Abrahão reagiu no mesmo dia. Anunciou a abertura de um processo disciplinar que poderia resultar, inclusive, na expulsão do trio da instituição de ensino superior. No entanto, o procedimento foi arquivado e os alunos voltaram a frequentar as aulas normalmente.

Em nota, a UnB alegou ter se embasado em critérios técnicos para inocentar esses universitários, como laudo encomendado pelos advogados dos detidos. “A recomendação se baseou em decisão judicial sobre o caso, que inocentou os envolvidos, e parecer elaborado por um tecnólogo em topografia contratado pela defesa dos estudantes”, diz o texto enviado ao Metrópoles pela instituição.

“O documento técnico apontou que os pés de maconha estavam localizados fora da área da universidade, mais próximos da orla do Lago Paranoá, em uma área de responsabilidade da Marinha”, conclui a nota.