INSS: ONG que desviou R$ 640 milhões deu calote de R$ 560 mil na União

Os milhões desviados pela ONG, e identificados pela PF, provém de descontos em aposentadorias feitas ao longo de 2022 a 2025

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Fachada da Conafer, associação investigada por envolvimento no esquema de descontos do INSS, no Setor Comercial Sul - Metrópoles
1 de 1 Fachada da Conafer, associação investigada por envolvimento no esquema de descontos do INSS, no Setor Comercial Sul - Metrópoles - Foto: BRENO ESAKI/METRÓPOLES @BrenoEsakiFoto

Investigada pela Polícia Federal por desviar quase R$ 640 milhões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares (Conafer) – uma das instituições envolvidas na farra –, mantém dívida ativa com o Governo Federal.

O Metrópoles apurou que a Conafer coleciona, no principal CNPJ pertencente a ela, pelo menos 21 inscrições na dívida com a União. O valor, somado, chega a R$ 560.001,26. Desses, R$ 438,5 mil correspondem a débitos tributários e previdenciários, R$ 105,2 mil são dividas trabalhistas e quase R$ 17 mil, pendências com o DF.

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A Conafer é presida por Carlos Roberto Ferreira Lopes. Ele foi o 2º depoente a ter a prisão em flagrante decretada durante depoimento na CPMI que apura as fraudes no INSS por falso testemunho, mas liberado horas depois.

A associação é uma das principais entidades investigadas na Farra do INSS. Os milhões desviados por ela, e identificados pela operação policial, provém de descontos em aposentadorias feitas ao longo de 2022 a 2025. Segundo a PF, quase 90% do valor total foi transferido para empresas de fachada.

Núcleos de atuação

A Polícia Federal também identificou três núcleos de atuação dentro da Conafer. Conforme informado, o “núcleo político e de apoio” incluía o deputado Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) e seus assessores.

Nesse caso, e em troca de propina, o grupo garantia, por meio de acesso ao INSS, a manutenção do acordo com a Conafer que permitiu a associação a fazer descontos de aposentados e pensionistas, além de blindar as pessoas ligadas à associação de investigações externas.

Pettersen recebeu ao menos R$ 14,7 milhões por meio de uma lotérica e uma construtora, do interior de Minas Gerais, segundo a PF. Ele foi considerado pela Polícia Federal “a pessoa mais bem paga” entre os receptores de propina da Conafer.

O ex-assessor parlamentar Walton Cardoso Lima Júnior aparece como beneficiário dos repasses. Segundo a PF, ele seria “intermediário” entre Lopes e Pettersen. Outro assessor do deputado mineiro, André Luiz Martins Dias. A PF classifica ambos como “operadores financeiros do parlamentar” no interior de Minas.

“Walton e André são tidos pela PF como ‘operadores financeiros do parlamentar’, responsáveis por receber, fracionar e redistribuir valores que beneficiavam o deputado Euclydes Pettersen e sua base política em Governador Valadares”, diz a decisão que embasou a operação.

A PF chegou a pedir ao STF para monitorar Pettersen com tornozeleira eletrônica, mas a solicitação foi negada por André Mendonça.

Em nota ao Metrópoles, Pettersen afirmou que apoia o trabalho das autoridades e se colocou à disposição para prestar esclarecimentos.

“Acredito na justiça, na verdade e na importância das investigações sérias, conduzidas dentro da legalidade e com total transparência”, prosseguiu Pettersen”, disse o deputado.

Programa previdenciário

A Conafer divulga, no site da confederação, o Programa +Previdência Brasil, que, segundo a página, visa dar publicidade a informações sobre a educação previdenciária e o INSS Digital. As iniciativas incluem cursos sobre benefícios, de modo a auxiliar os interessados a reivindicarem os próprios direitos.

O site também detalha que não há custo nesse processo. “As associadas não receberão remuneração advinda do INSS nem dos usuários pela execução do serviço, não sendo impedidas de cobrar a mensalidade associativa do beneficiário do serviço”, diz o portal.

A investigação da CGU demonstrou, porém, que a situação não era como a Conafer fazia parecer. Os auditores ouviram 56 pessoas, em 16 unidades da Federação, que tiveram descontos feitos pela confederação. Nenhuma das vítimas havia autorizado o repasse.

A controladoria acrescentou que 621.094 aposentados tiveram desconto nos pagamentos ligados à Conafer só no primeiro trimestre de 2024.

Prisões

Em 13 de novembro de 2025, a Polícia Federal (PF) cumpriu nove mandados que levaram à prisão figuras importantes no esquema de descontos ilegais aplicados em aposentadorias e pensões do INSS.

A etapa da Operação Sem Desconto, conduzida pela PF em parceria com a Controladoria-Geral da União (CGU), atingiu diretamente ex-gestores do instituto e dirigentes de entidades que se beneficiavam do sistema fraudulento.

No total, foram expedidos dez mandados de prisão preventiva e 63 mandados de busca e apreensão, em 17 estados e no Distrito Federal.

As investigações miram crimes como inserção de dados falsos, organização criminosa, estelionato previdenciário, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.


Entre os investigados alvos de mandado de prisão, estão:

  • Alessandro Stefanutto – ex-presidente do INSS;
  • Antônio Carlos Antunes Camilo, conhecido como “Careca do INSS” (que já está preso na Papuda, em Brasília);
  • Vinícius Ramos da Cruz – presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT);
  • Tiago Abraão Ferreira Lopes – diretor da Conafer e irmão do presidente da entidade, Carlos Lopes;
  • Cícero Marcelino de Souza Santos – empresário ligado à Conafer;
  • Samuel Chrisostomo do Bonfim Júnior – também integrante da Conafer;
  • André Paulo Felix Fidelis, ex-diretor de Benefícios e Relacionamento com o Cidadão do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS)
  • Virgílio Antônio Ribeiro de Oliveira, ex-procurador-geral do INSS;
  • Thaísa Hoffmann, esposa de Virgílio

Como funcionava o esquema

O grupo utilizava entidades, associações e organizações parceiras do INSS para inserir, no sistema oficial, cobranças associativas não autorizadas, que eram automaticamente descontadas no pagamento de aposentados e pensionistas.

A fraude atingiu milhões de beneficiários, muitos dos quais só descobriram o golpe após notar redução permanente no valor recebido mensalmente.

Relatórios da CGU apontam que as entidades investigadas mantinham acordos internos que permitiam a distribuição dos valores arrecadados de forma indevida, movimentando grandes quantias sem transparência ou critério.

O outro lado

A reportagem tentou contato com a Conafer, mas não obteve retorno até a última atualização do texto. O espaço segue aberto para futuras manifestações.

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