Homem que xingou delegado de macaco se pronuncia: “Peço desculpas”

Em nota enviada por meio da defesa dele, Pedro Henrique diz que o ato "não é reflexo da educação que ele carrega"

atualizado 10/08/2020 17:30

Reprodução

Pedro Henrique Martins Mendes, o morador do Lago Sul, de 35 anos, acusado de proferir ofensas racistas contra o delegado da Polícia Civil do DF Ricardo Viana, na noite da última sexta-feira (7/8), divulgou uma nota, por meio de sua defesa, em que pede desculpas pelo caso. Ele foi preso em flagrante, mas solto após pagar fiança.

No texto endereçado “ao senhor Ricardo, à sua filha, aos familiares e a todos os seres humanos”, o homem pede perdão. “O injustificável ato não é reflexo da educação, do amor e do respeito que recebi e que carrego como preceitos básicos”, diz.

Em outro momento, Pedro Henrique pede, novamente, desculpas. “Solidarizo-me com a dor causada a todos e, mais uma vez, peço desculpas!”

O texto, encaminhado pelo advogado Danilo Bomfim, termina assinado não apenas por Pedro Henrique, mas também pela família dele.

Solto após pagar fiança

No final de semana, Pedro Henrique pagou fiança no valor de R$ 3.117, o equivalente a três salários mínimos, e poderá responder em liberdade desde que cumpra todos os requisitos da Justiça. Ele deve comparecer a todos os atos do processo, não se ausentar do DF por mais de 30 dias – a não ser que seja autorizado – e não mudar de endereço sem comunicação prévia às autoridades.

Pedro também está proibido de sair de casa entre as 20h e as 6h em dias úteis. Aos sábados, domingos e feriados, deve cumprir recolhimento domiciliar em regime integral, sendo, inclusive, monitorado eletronicamente.

A princípio, o homem usará tornozeleira eletrônica pelo período de 90 dias. Depois disso, deve comparecer à unidade responsável pela retirada do equipamento, caso a Justiça não determine que o prazo de monitoramento seja postergado.

A concessão de liberdade provisória foi proferida a todos os presos cujas liberdades estejam condicionadas ao pagamento de fiança, durante o estado de calamidade pública causado pela pandemia de Covid-19, com a imposição de medidas cautelares diversas da prisão, inclusive monitoramento eletrônico para aferição do cumprimento da cautelar de recolhimento domiciliar.

Relembre o caso

A ofensa aconteceu na noite de sexta-feira (7/8), no Mc Donald’s da QI 23 do Lago Sul. Viana estava com a filha de 15 anos dentro da lanchonete quando Pedro Henrique passou a insultá-lo gratuitamente, segundo o policial.

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O delegado conta que deu voz de prisão ao agressor e que ele ainda tentou fugir, mas foi preso pela Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF), que deu apoio à ação. “Falou que iria me pegar, me chamou de macaco e viado. Arremessou um pé de sua chinela em minha direção”, narra.

No carro do homem, foram encontradas porções de maconha. O criminoso foi detido em flagrante e a ocorrência foi registrada na 1ª Delegacia de Polícia (Asa Sul).

“Até o momento, não entendi por que tanto ódio em uma só pessoa, o pior é saber que este tem histórico de violência e já praticou fatos semelhantes com outros negros”, disse Viana, no dia das agressões.

Em vídeo, divulgado no dia seguinte ao ataque, o policial diz que está muito consternado e não poderia se calar neste momento. “Eu declaro a vocês que nós vivemos um racimo estrutural. O racismo está entranhado em todas as classes sociais e, eu, convivo com isso desde que eu sou menino. Todas as vezes que a gente vai galgando algum espaço na nossa sociedade, essa ferida é tocada.”

Veja o vídeo:

Solidariedade

Em nota, tanto a Subsecretaria de Políticas de Direitos Humanos e de Igualdade Racial quanto a Ordem dos Advogados do Brasil no DF se manifestaram prestando solidariedade a Viana e criticando veementemente a posição do homem, acusado de injúria racial.

“A Sejus se solidariza com as vítimas e afirma que os crimes de racismo devem ser punidos com penas que sirvam de medida reparatória e exemplar para toda a sociedade brasileira”, diz trecho da nota.

A OAB-DF disse que está de portas abertas para prestar todo o auxílio necessário ao delegado Ricardo Viana e afirmou que repudia qualquer ato discriminatório, seja qual for a natureza.

“Poderia ter sido um dia atípico, diante dos estarrecedores casos de racismo que vimos ganhar espaço na mídia, mas não foi. Infelizmente, foi um dia como qualquer outro em que ficou expresso que o absurdo perdeu a vergonha. A exclusão racial, que é um fato desde o início do Terra Brasilis, agora está espetacularizada. Não adianta dizer que os casos aumentaram, pois, na verdade, só estão mais expostos”, diz trecho do texto.

Ainda segundo a nota, “é imperioso sairmos das redes, das hashtags, e partirmos para ação, para a contenção desse crime que mata e exclui. O silêncio e a conivência encorajam esse tipo de delito”.

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