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Nesta semana, dois colégios do país causaram polêmica nas redes sociais. Tanto o Colégio Marista Champagnat quanto a Instituição Evangélica de Novo Hamburgo (IENH), ambos do Rio Grande do Sul, fizeram, em épocas diferentes, festas com o tema “Se nada der certo”. Nelas, os estudantes se vestiram como empregados de trabalhos que consideram “alternativos”, como garis e atendentes de lanchonete, caso não obtenham o sucesso esperado em sua vida profissional.

A repercussão negativa nas redes sociais foi imediata e gerou uma resposta forte e bela do escritor e conselheiro acadêmico Marcio Ruzon. Filho de um porteiro, ele usou seu Facebook para contar a história do pai e mostrar sua indignação com os eventos.

“Eu desabei a chorar quando soube da história. Me lembrei muito também da minha mãe, que sempre me ensinou pelo exemplo e de como tratar todos iguais. Pensei na minha filha de 10 anos, que pode vir a trabalhar para algum desses adolescentes”, disse ele ao Metrópoles. Para Marcio, contudo, a grande indignação não pode ser direcionada aos jovens.

Ele, que tem 38 anos e mora em Brasília, lembra que esse tipo de atividade é programada pela escola e, nesse caso, faltou aos adultos um mínimo de discernimento para garantir que aqueles alunos não crescessem entendendo essas profissões como “menores”.

“Até porque são escolas religiosas, que têm a obrigação moral de servir o filho do carpinteiro [Jesus], uma profissão de quem ‘não deu certo’. Faltou reflexão. Excluo os adolescentes disso porque não é certo cobrar atitudes adultas de quem não é adulto”, completa.

Confira o texto na íntegra:

Ao Colégio Marista:

Meu pai aposentou-se como porteiro.

O mesmo que vocês têm aí na entrada do Colégio, que os pais “que deram certo” passam e nem cumprimentam.

Então, falando do meu pai, ele trabalhava feito um condenado (aliás, mesmo depois que se aposentou teve que voltar à portaria pra completar a renda). O que meu pai recebia de salário era uma mensalidade que as famílias “que deram certo” pagam pra vocês ensinarem essa ética (ou falta dela) aos estudantes.

Ele tinha uma Barra forte preta e com ela ia de sol a sol, chuva a chuva, noite a noite, cuidar de fábricas ou de condomínios ao estilo que os alunos moram ou que os pais “que deram certo” trabalham como Diretores, Gerentes.

Aprendi a profissão com meu pai. Fui porteiro por anos. Vi o que é você comer em pé ou no banheiro porque não tem ninguém pra substituí-lo nos intervalos. Cansei de atender pessoas na guarita enquanto mastigava um ovo frio.

Já usei papelão como mesa em cima da privada para almoçar.

Colégio Marista, meu pai não deu certo. Criou três filhos junto com a minha mãe que ficava apreensiva em casa: -” Será que ele volta?” Porque meu pai pegava estradas perigosas de madrugada, aliando-se ao fato de muitas vezes cuidar de galpões abandonados, que era alvo de bandidos.

Mas ele não deu certo.

Conseguiu sustentar 3 filhos (e minha mãe administrando como uma Economista) com pouco mais de um salário, hoje todos bem e com família, mas infelizmente ele não deu certo.

Meu pai não é desses pais bacanas que param aí na frente do Colégio, com Cherokees, Tucson, sorrindo pra quem convém e pisando nos descartáveis.

Meu pai tem um Palio que vive quebrando, e mesmo debilitado pela idade, levava todos os netos às escolas públicas. Levava e buscava.

Mas, que pena! Meu pai não deu certo.

Quem deram certo foram essas famílias que dependem da faxineira, do porteiro, do zelador, da cantineira, do gari, da empregada doméstica. Eles deram certo!

Ainda bem que muita gente “dá errado” na vida, senão quem iria preparar o lanche dos filhos que vão para o Colégio Marista? O pai? A mãe? Não sabem nem como ligar um fogão! Mas deram certo, não é?

Fique um dia sem um gari na sua rua e no dia seguinte você já está ligando na prefeitura fazendo birra! Ué? Pega uma vassoura e varre! Você não “deu certo”?

Fique sem porteiro no condomínio e mundo para. Não sabem descer pra atender o motoboy? Tem medo de quem seja? Pode ser um ladrão, não é? Deixa que o porteiro arrisca (sem seguro de vida) a vida por você (com seguro de vida).

Gente que não deu certo existe pra isso: mimar os que deram certo.
Tenho orgulho de ter um pai que não deu certo, Colégio Marista. E eu tenho orgulho de não ter dado certo também. Já pensou, criar minha filha num ambiente que debocha de profissões, que em vez de promover a isonomia e empatia, fomenta a segregação e a eugenia?

Deus me livre!

Aliás, por falar em deus, vocês são de formação católica certo?

Se nada der certo, vocês vão virar carpinteiro também? Embora eu sendo agnóstico, respeito muito um carpinteiro que “não deu certo” e que vocês finjem amar. Que feio, Colégio! Ensinando crianças a desprezarem seu Mestre?

Enfim, falei demais. Obrigado pela lição de hoje. Talvez tenha sido o único ensinamento que vocês deixaram:

Se nada der certo, vou para o Colégio Marista. Lá pelo menos eu posso esconder meu ser vazio atrás de um patrimônio que consegui pisando nos outros.

Viu, a lição de vocês acabou “dando certo”!

 

 

 

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