Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Distrito Federal

Famílias do DF gastam até 18% do salário mínimo com transporte público, diz estudo

Estudo da UnB aponta que desembolso com passagens chega a R$ 3.120 por ano; valor mensal é suficiente para comprar até 8 cestas econômicas

28/06/2026 04:09
Arte/Metrópoles
Famílias do DF gastam até 18% do salário mínimo com transporte público, diz estudo

As famílias do Distrito Federal gastam, em média, R$ 260 por mês com passagens de ônibus. O valor mensal, que corresponde a 18,4% do salário mínimo, é suficiente para comprar até oito cestas básicas econômicas ou cerca de 17 kg de frango. Ao longo de um ano, a despesa pode chegar a R$ 3.120.

Os dados são de um estudo desenvolvido por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), vinculados ao Instituto de Ciência Política (IPOL), ao Grupo de Pesquisa Geopolítica e Urbanização Periférica (GeoUrb) e ao Núcleo Brasília do Observatório das Metrópoles.

Coordenada pelo professor Thiago Trindade, do Instituto de Ciência Política da UnB, a pesquisa destaca que o deslocamento diário não é uma escolha para grande parte da população trabalhadora. Segundo ele, a escolha da metodologia teve como objetivo servir de base para estudos futuros.

A partir disso, os pesquisadores multiplicaram o número de passageiros pelos valores das tarifas predominantes até abril de 2026, período em que o estudo foi finalizado.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DF

Para chegar aos números, os pesquisadores cruzaram dados da Pesquisa Nacional de Mobilidade (Pemob 2024), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e de operadoras de transporte coletivo das 27 capitais brasileiras e respectivas regiões metropolitanas.

A principal conclusão do estudo é que a tarifa zero deve ser compreendida não apenas como uma política de mobilidade urbana, mas também como uma política de distribuição de renda.

Dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que o ônibus é o principal meio de transporte de 21,4% da população ocupada do país, o equivalente a 14,9 milhões de pessoas. Para os pesquisadores, a tarifa funciona como uma espécie de “imposto de circulação” para milhões de brasileiros que dependem do transporte público.

Segundo os pesquisadores, eliminar a cobrança das passagens aumentaria a renda disponível das famílias, reduziria desigualdades e estimularia a economia local.

Os pesquisadores estimam que a implementação integral da tarifa zero no Distrito Federal e na Região Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (Ride-DF) teria potencial para redistribuir cerca de R$ 2,78 bilhões por ano para a população.

Em nota ao Metrópoles, a Semob informou que foi instituído um Grupo de Trabalho com o objetivo de analisar, consolidar e apresentar estudo técnico acerca do custo real do Programa Vai de Graça, que prevê gratuidade no transporte público aos domingos e feriados, contemplando aspectos orçamentários, financeiros, arrecadatórios e operacionais. O prazo para conclusão é de 180 dias a contar da data da primeira reunião do Grupo de Trabalho.

Além disso, a Semob afirmou que realiza um estudo minucioso para otimizar a gestão tarifária. Entre os objetivos desses estudos estão o de manter a gratuidade e programar a sua ampliação.

Modelo de financiamento

O estudo da UnB propõe um modelo de financiamento a partir de uma reconfiguração do vale transporte, que hoje é pago em parte pelo trabalhador e em parte pelo empregador, com destino às empresas de transporte.

A proposta sugere a criação de um fundo específico, com possibilidade de adoção em âmbito nacional, capaz de financiar a tarifa zero.

“A gente fez um cálculo e chegou à conclusão de que se cada empregador depositar uma taxa de R$ 250 por mês para esse fundo, a gente já seria capaz de financiar a tarifa em âmbito nacional, mas com um detalhe importante. Essa contribuição só viria para as empresas a partir do décimo funcionário”, disse.

Impacto no bolso da população

Dados da Síntese de Indicadores Sociais 2024, do IBGE, mostram que 40,8% da população do Distrito Federal vive com renda domiciliar per capita de até um salário mínimo mensal de R$ 1.412.

Outros 16,3% vivem com até meio salário mínimo por pessoa, enquanto 4,7% sobrevivem com renda de até um quarto do salário mínimo per capita.

Dessa forma, o gasto mensal de R$ 260 com transporte corresponde a 18,4% do salário mínimo e pesa especialmente sobre a população de baixa renda, que depende diariamente dos ônibus para trabalhar, estudar e acessar serviços públicos.

O valor equivale também a uma série de despesas básicas das famílias. Segundo levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) e do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a cesta básica em Brasília custava R$ 712,06 em março deste ano.

Já as cestas mais econômicas, compostas por itens como arroz, feijão, óleo e açúcar, custam entre R$ 29,99 e R$ 79,99. Com os R$ 260 destinados às passagens, seria possível comprar até oito dessas cestas por mês.

As opções intermediárias, vendidas entre R$ 109,90 e R$ 119,90, poderiam ser adquiridas até três vezes com o mesmo valor. Já as cestas maiores, que incluem produtos de limpeza, custam valores próximos de R$ 120, o que permitiria a compra de duas unidades.

O montante também representa uma quantidade significativa de alimentos. Dependendo do corte escolhido, os R$ 260 permitem comprar entre 4 kg e 10,8 kg de carne bovina.

Nos cortes mais nobres, vendidos entre R$ 60 e R$ 80, o quilo, o valor equivale a cerca de 4 kg. Já os cortes mais populares, com preços entre R$ 35 e R$ 45, o quilo, permitiriam a compra de até 7 kg.

No caso do frango, cujo quilo varia entre R$ 12 e R$ 16, a mesma quantia seria suficiente para adquirir aproximadamente 17 kg.

Mulheres negras são as mais afetadas

O estudo também chama atenção para a dimensão racial das desigualdades na mobilidade urbana.

Dados do Censo Demográfico de 2022 mostram que o automóvel particular é o principal meio de transporte utilizado pela população branca para se deslocar ao trabalho. Entre a população negra, o ônibus aparece como a modalidade mais utilizada.

No Distrito Federal, pesquisas do Instituto de Pesquisa e Estatística do Distrito Federal (IPEDF) indicam que mulheres negras e de baixa renda são as que mais dependem dos ônibus e dos deslocamentos a pé para chegar aos locais de trabalho.

Receba no seu email as notícias de Metrópoles DF

Frequência de envio: Diário

Ver todas as newsletters

Segundo os pesquisadores, esse grupo é o mais afetado pelas limitações impostas pela qualidade do transporte público e pelo custo das tarifas. Nesse cenário, a adoção da tarifa zero poderia reduzir desigualdades e ampliar o acesso à mobilidade.

O estudo também destaca que, em âmbito nacional, a população branca utiliza majoritariamente o automóvel para ir ao trabalho, enquanto entre a população negra o ônibus é o principal meio de transporte.

Para os autores, essa diferença faz com que o custo das passagens tenha impacto proporcionalmente maior sobre a população negra.

O levantamento também estima que aproximadamente R$ 2,78 bilhões deixam de compor a renda das famílias todos os anos para custear o transporte público na região de Brasília.

O cálculo considera os ônibus urbanos do Distrito Federal, o Metrô-DF e os ônibus metropolitanos que atendem municípios do Entorno.

Segundo a pesquisa, os ônibus urbanos do DF transportam cerca de 359,6 milhões de passageiros por ano e possuem tarifa predominante de R$ 5,50. O Metrô-DF registra aproximadamente 42,4 milhões de passageiros anuais, também com tarifa de R$ 5,50.

Já os ônibus metropolitanos do Entorno, regulados pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), transportam cerca de 49,8 milhões de passageiros por ano e têm tarifa predominante de R$ 11,45.

Atualmente, as passagens no Distrito Federal custam R$ 2,70 para viagens curtas, R$ 3,80 para ligações entre regiões administrativas e R$ 5,50 para viagens longas e para o metrô.

O estudo aponta ainda que Brasília possui o maior percentual de viagens gratuitas entre as cidades utilizadas pelos pesquisadores para comparação. Em 2025, 37,41% dos deslocamentos foram realizados sem cobrança de tarifa. O índice supera os registrados no Rio de Janeiro (29,47%), em Salvador (16,97%) e em Florianópolis (13,68%), municípios usados como referência para estimar a média nacional de gratuidades no transporte público.

As gratuidades atualmente contemplam estudantes, idosos, pessoas com deficiência e acompanhantes, rodoviários, servidores da saúde, crianças menores de 6 anos e mulheres vítimas de violência doméstica.

Debate sobre tarifa zero

No recorte nacional, que considera as 27 capitais e suas regiões metropolitanas, o estudo estima que a adoção da tarifa zero poderia injetar R$ 45,6 bilhões por ano na economia brasileira, já descontadas as gratuidades existentes.

Segundo os autores, o valor corresponde ao dinheiro que deixaria de ser gasto com passagens e passaria a ser destinado a outras despesas das famílias.

Desse total, aproximadamente R$ 2,1 bilhões representariam recursos novos circulando anualmente na economia local, já descontadas as gratuidades atualmente existentes.

Gratuidade no DF

O debate sobre a medida ganhou força nos últimos meses. Em 4 de maio, a governadora Celina Leão (PP) anunciou que a Secretaria de Transporte e Mobilidade (Semob-DF) realizaria estudos para avaliar a implantação da tarifa zero no transporte público da capital.

Atualmente, o Governo do Distrito Federal (GDF) mantém o programa Vai de Graça, que garante gratuidade no transporte público aos domingos e feriados.

Dados da Subcomissão de Tarifa Zero da Comissão de Transporte e Mobilidade Urbana da Câmara Legislativa mostram que, um ano após a implantação do programa, a média de passageiros transportados aos domingos passou de 271 mil para 461 mil usuários, um aumento de 70%.

Nos feriados, o crescimento médio registrado foi de 73% no número de acessos ao sistema de transporte público do Distrito Federal.

Em fevereiro deste ano, o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT) instaurou um inquérito civil para solicitar os estudos técnicos e financeiros que embasaram a adoção dos subsídios ao transporte público do DF.