Estudante da UnB com paralisia corre risco de ser separada da família
Aluna de direito, Millena Silva vive em moradia da universidade com a mãe e a irmã mais nova, de 11. Mas UnB não permite crianças no local
atualizado
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Desde o nascimento, a estudante Millena Silva de Moraes, 19 anos, jamais se separou da mãe, a dona de casa Jocília Silva Conceição, 37. “Ficamos juntas, literalmente, 24 horas por dia”, diz a jovem, aluna do segundo semestre de direito da Universidade de Brasília (UnB). Ela tem deficiência decorrente de paralisia cerebral e se locomove por cadeira de rodas, o que lhe impôs um sem-número de desafios. Para superá-los, Millena encontrou na mãe e na irmã, de 11 anos, o alicerce. Mas, hoje, essa união está ameaçada por um drama.
A família vive em um dos apartamentos da Casa do Estudante Universitário (CEU) – no campus Darcy Ribeiro, na Asa Norte – destinados a pessoas com deficiência. Porém, a UnB permite aos moradores ter apenas um acompanhante. Assim, pesadelos nunca antes imaginados por Millena podem se tornar reais nas próximas semanas: a separação da família ou o abandono do curso e, consequentemente, o maior sonho profissional da estudante, de ser delegada da Polícia Civil.
“Sinto uma angústia que nunca passa só de pensar em me separar de uma das minhas filhas. Ou de vê-las vivendo longe uma da outra”, diz Jocília. No último dia 14, ela procurou a Diretoria de Desenvolvimento Social (DDS) da UnB para explicar a situação. “Eu falei que não tinha com quem deixar minha filha pequena. Jamais abandonaria ela ou Millena, que depende de mim para comer, estudar, trocar de roupa”, contou.
Antes de viver na CEU, as três moravam em Ceilândia, a 40km da UnB. A distância elevou o gasto diário de combustível e causou arrocho financeiro.
Apesar da justificativa, segundo a mulher, a DDS não permitiu à filha mais nova viver com a mãe e a irmã. Ela insistiu: argumentou que a caçula ficava fora do apartamento na maior parte dos dias e apenas pernoitava no imóvel. Estudante do 5º ano do ensino fundamental, a menina permanece na escola das 8h às 18h, de segunda à sexta. Ainda assim, a diretoria manteve o veto e concedeu à Jocília sete dias para alugar um apartamento no centro de Brasília ou em local próximo a uma estação de metrô.
“A DDS me propôs auxílio de R$ 530 mensais para alugar apartamento, mas não encontro um a esse preço no Plano Piloto. São bem mais caros, a partir de R$ 750, e provavelmente não são adaptados para a Millena”, lamentou. Em nota enviada ao Metrópoles, a UnB confirmou a oferta.
Jocília também descartou se mudar para Ceilândia e Taguatinga, onde há estações de metrô. “Nos dias de greve dos metroviários, por exemplo, não teríamos como ir à UnB. E eu não consigo bancar combustível morando tão longe”, acrescentou. A família recebe da instituição, mensalmente, R$ 465 de auxílio socioeconômico.
O prazo inicialmente concedido pela universidade expirou na última quinta-feira (23/8). No entanto, a filha mais nova continua vivendo na CEU. Enquanto isso, a preocupação da família cresce e Millena teme pela separação.
“Pedi a minha mãe uma irmã, eu queria alguém com quem me divertir, conversar, desabafar. Nós somos como psicólogas uma da outra e nos ajudamos nas atividades. Não nos imaginamos separadas
Millena Silva, estudante de direito da UnB
Apoio
Outros contemplados por auxílio estudantil da UnB e seus acompanhantes abraçaram a causa da família. Stephane Nunes, 21, divide apartamento na CEU com a irmã, a estudante de música Shirley Nunes, 28, e outras cinco pessoas. Entre elas, Jocília e as duas filhas. Ela demonstrou apoio à permanência das três na residência.
“Não representa incômodo. A menina é quieta e vivemos muito bem juntos. Às vezes, parece que ela nem está aqui”, afirmou. Sensibilizados, esses beneficiados e outros estudantes de direito da UnB se articulam por meio de redes sociais para levar o caso à Reitoria da instituição a fim de solucionar o impasse o mais rapidamente possível.

O que diz a UnB
A Administração Superior da UnB informou a ampliação do prazo para permanência da criança na CEU até esta sexta-feira (31). Ainda segundo a universidade, desde quando soube do caso, assistentes sociais da instituição “têm trabalhado com a família para buscar solução” e reforçou a proibição de crianças na Casa do Estudante.
“A CEU não possui instalações adequadas para a presença de crianças (há escadas e janelas sem proteção, por exemplo). Além disso, não há qualquer infraestrutura de apoio próxima, como escolas e parquinhos”, afirmou, em nota.
A UnB disse também que se comprometeu a garantir a vaga de Millena na CEU, “para o caso de a família conseguir resolver a situação com a criança de outra maneira”. A universidade acrescentou que “está sensível à situação de Millena” e tem feito o possível para garantir a permanência da jovem na instituição.
Superação
Millena sempre enfrentou desconfiança sobre sua capacidade intelectual. Com o apoio da família, ela deu de ombros para os duvidosos. A jovem, durante toda a vida, estudou em escolas públicas. Nenhuma delas exclusiva para pessoas com deficiência.
“Quando ela terminou o ensino médio, falei que ela prestaria o PAS [Programa de Avaliação Seriada] da UnB e o Enem [Exame Nacional do Ensino Médio] como qualquer outra pessoa. Ouvimos que ela não precisava disso, mas a Millena mostrou que era uma guerreira. No segundo e terceiro anos do ensino médio ganhou prêmio de aluna destaque
Jocília da Silva, mãe de Millena
O sucesso na vida estudantil se justifica pela perseverança da mãe. Na infância de Millena, Jocília treinava insistentemente a fala da filha. “Eu cantava músicas infantis para ensiná-la a falar”, relembrou. A mulher também ensinou a primogênita a escrever.
As limitações motoras de Millena também atraíram olhos desconfiados. Outra vez a jovem superou os desafios e, há quatro anos, pratica bocha – o esporte consiste em lançar bolas coloridas o mais perto possível de uma branca (bolim). Millena e os outros atletas paralímpicos ficam sentados em cadeiras de rodas limitados a um espaço demarcado para fazer os arremessos. Eles têm permissão de usar as mãos, os pés e os instrumentos de auxílio, como calhas, no caso dos atletas com maior comprometimento dos membros.
“Todos podem alcançar os sonhos. É só se dedicar muito”, aconselhou Milena, que, a cada dia, amadurece a ideia de transformar a própria história em livro e, assim, inspirar outras pessoas com deficiência.

















