“Ela já tinha pedido socorro”, diz amiga de mulher morta por sargento

Segundo testemunhas, vítima havia sido agredida pelo militar. Além da esposa, Francisco Assis foi executado por Juenil Queiroz

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atualizado 13/06/2019 12:07

Um dia após o sargento da Aeronáutica matar a esposa e um homem no Cruzeiro Novo, o clima era de comoção e perplexidade no edifício onde ocorreu o crime. Vizinhos e parentes tentavam entender por que Juenil Bonfim de Queiroz, 56 anos (foto em destaque), decidiu abrir fogo contra Francisca Naíde de Oliveira Queiroz, 58, e Francisco de Assis Pereira da Silva, 41.  O companheiro de Francisco, identificado como Marcelo, também estava no apartamento na hora do duplo homicídio, mas conseguiu correr e escapar ileso.

Abalada , a corretora de imóveis Marilene Macedo, 42, diz que a amiga Francisca era agredida constantemente por Juenil. “Ela já tinha pedido socorro. Nos encontramos no mercado e ela me contou que o casamento não estava indo bem, que o esposo estava agressivo. Ele é um homem obcecado e ciumento”, relata.

Conforme explicou Marilene, Francisca e Queiroz eram casadas há 32 anos e tiveram dois filhos. “Ela era uma mãe guerreira, que fazia crochê para pagar a faculdade da filha. Uma pessoa íntegra”. A mulher foi a 15ª vítima de feminicídio no DF em 2019.

Queiroz, por sua vez, teria sido pastor no ano de 2008, em uma igreja do Guará. A filha deles, segundo Marilene, mora no Nordeste e veio para o Distrito Federal após saber da tragédia que chocou a família.

A prima de Marcelo, que não quis se identificar, presenciou os momentos de terror antes do crime. De acordo com o relato da mulher, Marcelo e Francisco estavam juntos há cerca de 5 anos. Entre o casal e o sargento acusado de feminicídio e homicídio, nunca teria havido desentendimento, segundo a testemunha.

“Marcelo e Francisco vieram aqui pegar um notebook e ficamos conversando na parte debaixo do prédio. Nesse meio tempo, o sargento chegou com a esposa. Ele estava muito nervoso e agitado. Subiu rapidamente, depois desceu armado e chamando o Francisco para subir”.

Insultando Francisco, o sargento teria dito a ele: “Sobe agora que eu vou te mostrar o que é um homem”. Diante das ameaças, Marcelo, Francisco e o sargento subiram juntos para o apartamento. “Nós chamamos a polícia nesse meio tempo, mas não deu nem sete minutos e Marcelo desceu correndo, fugindo do sargento, que também correu atrás dele”, relata. “O Marcelo está péssimo. Ele viu o Francisco morrer de joelhos”.

Depoimento

Preso em flagrante após o duplo homicídio, Juenil Bonfim de Queiroz narrou, em depoimento, detalhes sobre a motivação e como agiu logo após cometer o crime.

De acordo com o depoimento do ex-militar ao qual o Metrópoles teve acesso, ele e Francisca estavam casados há 32 anos e, em 2017, contou ter descoberto que sua mulher mantinha um relacionamento amoroso com Francisco, então vizinho do casal. Francisco relatou que após descobrir a suposta traição, teria conversado com Francisca e também avisado aos dois filhos o que estava ocorrendo. “Perante a família, ela (Francisca) prometeu não se relacionar mais com aquele homem”, contou o sargento sem seu termo de declaração.

No entanto, de acordo com Juenil, em dezembro de 2018, ele teria tomado conhecimento que Francisca continuaria a se encontrar com o vizinho e, por esse motivo, teria voltado a discutir com sua esposa. Naquela ocasião, o sargento teria tomado o celular da mulher e jogado no chão. Logo depois da briga, Francisca registrou boletim de ocorrência contra o marido. A Justiça decretou a aplicação de medida protetiva e Juenil foi obrigado a deixar o apartamento em que o casal vivia. No mesmo período, Francisca também deixou o imóvel para morar com a filha.

 

Reconciliação

Ainda segundo os relatos de Juenil, após 45 dias, o casal teria voltado a conversar e reataram o relacionamento voltando a viver no apartamento do Cruzeiro. Já em abril deste ano, o sargento contou ter ficado sabendo que a mulher tinha voltado a se envolver com Francisco depois de, supostamente, flagrar uma conversa entre a mulher e vizinho em “clima de romance”.  “Na ocasião, interpelei Francisca lembrando a ela o compromisso que fizemos de que ela não se relacionaria mais com Francisco”, disse, em depoimento.

O sargento relevou, também, que em determinado momento, a mulher teria confessado a ele que se encontrava com Francisco nos estacionamentos próximos ao prédio onde viviam.  O ex-militar narrou aos policiais detalhes do que ocorreu no dia do crime. Juenil contou que na manhã de quarta estava na companhia de Francisca e ambos foram até a casa do filho, na Asa Sul, para comemorarem o Dia dos Namorados. Por volta das 19h10,  o casal deixou a residência do filho e retornaram ao prédio do Cruzeiro. Ao chegarem ao edifício, encontraram com Francisco, que estava na companhia das irmãs e de seu atual companheiro.

Quando se encontraram no pilotis do prédio, o ex-militar contou que Francisca teria pedido para que ele convidasse Francisco a fim de que os três conversassem sobre a situação. Ainda de acordo com o Juenil, Francisco teria aceitado o convite e todos subiram até ao apartamento. Marcelo, atual companheiro de Francisco, também teria ido até a residência.

Descontrole 

Dentro do apartamento, Juenil teria discutido com Francisca e o suposto amante, determinando que ambos contassem sobre o relacionamento. Os dois negaram que tivessem qualquer envolvimento amoroso. O ex-militar relatou ter se descontrolado, ido até o quarto e pegado uma pistola calibre 380. Ele abriu fogo contra Francisco, que acabou atingido por pelo menos dois disparos, um deles na cabeça. Em seguida, o sargento atirou na mulher. Assustado, Marcelo correu e conseguiu escapar.

O ex-militar disse que, após atirar, desceu e ficou debaixo do bloco aguardando a chegada da polícia. Juenil foi preso em flagrante e responderá pelo duplo homicídio qualificado por motivo torpe e impossibilidade de defesa da vítima.

Neste 2019, o Metrópoles inicia um projeto editorial para dar visibilidade às tragédias provocadas pela violência de gênero. As histórias de todas as vítimas de feminicídio do Distrito Federal serão contadas em perfis escritos por profissionais do sexo feminino (jornalistas, fotógrafas, artistas gráficas e cinegrafistas), com o propósito de aproximar as pessoas da trajetória de vida dessas mulheres.

O Elas por Elas propõe manter em pauta, durante todo o ano, o tema da violência contra a mulher para alertar a população e as autoridades sobre as graves consequências da cultura do machismo que persiste no país.

Desde 1° de janeiro, um contador está em destaque na capa do portal para monitorar e ressaltar os casos de Maria da Penha registrados no DF. Mas nossa maior energia será despendida para humanizar as estatísticas frias, que dão uma dimensão da gravidade do problema, porém não alcançam o poder da empatia, o único capaz de interromper a indiferença diante dos pedidos de socorro de tantas brasileira.

 

 

 

 

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