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Tácio Lorran

Lulinha orientou Roberta Luchsinger a emitir nota para cobrar empresário alvo da PF

Filho do presidente da República, Lulinha orientava lobista e participava de reuniões junto ao núcleo duro do Palácio do Planalto

17/08/2026 15:40, atualizado 17/08/2026 16:44
Arte/ Metrópoles
Roberta Luchsinger, Fábio Lula (Lulinha) e Cleber Ribas

Mensagens em posse da Polícia Federal e obtidas com exclusividade pela coluna revelam que Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, orientou a lobista Roberta Luchsinger a emitir uma nota fiscal para cobrar do empresário Cleber Ribas, dono da 3Structure It Ltda. O empresário ganhou mais de R$ 80 milhões em contratos com o governo federal, especialmente durante o governo Lula.

Cleber Ribas é investigado pela PF no mesmo inquérito que apura corrupção e tráfico de influência envolvendo o filho do presidente da República. Conforme revelou a coluna, o empresário pagou pelo menos R$ 150 mil a Roberta Luchsinger para “prospecção de clientes”.

As mensagens revelam que a relação entre Lulinha e Roberta Luchsinger vai além de uma simples amizade. O filho do presidente não somente sabia da atuação e dos interesses da lobista, como também a orientava e participava de reuniões junto ao núcleo duro do gabinete do presidente Lula.

No dia 24 de julho de 2023, Lulinha solicita a Roberta que ela convide Carlos Eduardo Gabas, ex-ministro da Previdência, para se dirigir à Praia do Forte, na Bahia. “Aqui todo mundo”, diz o filho do presidente. “Pronto, já falei com Fernando, com contador, com governador, com secretários, com todo mundo”, responde a lobista. Em seguida, Lulinha orienta a amiga a emitir uma nota fiscal para Cleber Ribas. “Emite a NF pro Cleber”, diz. “Já fiz”, responde Roberta. “Boaaaaa”, comemora Lulinha.

Lulinha
O empresário Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha

O relatório da Polícia Federal narra ainda que, dias depois, Cleber Ribas solicitou a Roberta uma reunião com Lulinha, em 31/5/2023. Em seguida, ele informa que Rodrigo Assumpção assumiu como novo presidente da Dataprev.

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Os inquéritos contra Lulinha foram autorizados pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e Flávio Dino e investigam, entre outros pontos, a relação do filho do presidente com empresários e sua suposta atuação em órgãos do governo federal.

Em uma outra conversa revelada nesta segunda-feira (17/8) pela coluna, Roberta afirma que ela e Lulinha trabalham em um nível diferenciado e diz que o futuro deles é a Suíça. Na mesma ocasião, o filho do presidente da República menciona reuniões com Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, então chefe de gabinete de Lula, e Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger, que ocupava a Secretaria-Executiva do Ministério da Saúde.

Conversa entre Lulinha e Roberta Luchsinger revela que filho do presidente partipava de reuniões com núcleo-duro de Lula
Conversa entre Lulinha e Roberta Luchsinger revela que filho do presidente participava de reuniões com núcleo duro de Lula

Marcola era um dos principais assessores de Lula, despachava na antessala do presidente e mantinha interlocução com integrantes do governo. Berger, por sua vez, foi quem abriu as portas do Ministério da Saúde para o lobista Antonio Carlos Camilo Antunes, vulgo Careca do INSS, que enviou repasses que somam R$ 1,5 milhão a Roberta Luchsinger. Em uma das transferências, o Careca afirmou a um interlocutor que o dinheiro era para “o filho do rapaz”.

Roberta Luchsinger, segundo a PF, pagava contas e dava presentes a Marcola. Mensagens obtidas pela coluna mostram que ela discutiu com o então assessor a compra de um par de solitários e um colar de diamantes. Segundo interlocutores da defesa de Marcola, as joias custaram R$ 9,2 mil e integravam um empréstimo de R$ 249 mil feito pelo ex-assessor com Roberta, posteriormente pago com juros e correção.

Colar e par de solitários de diamantes
Roberta encaminha a Marcola colar e par de solitários de diamantes

Em nota, a defesa de Lulinha informou que não irá comentar ou validar “fragmentos de informações sigilosas indevidamente divulgadas fora de seu contexto original, de origem e integridade não verificadas e cuja seleção descontextualizada pode ser manipulada para construir narrativas distorcidas da realidade.”

“Caso estejamos diante de mais um lamentável episódio de violação do dever de sigilo funcional – crime previsto no art. 325 do Código Penal –, o recorte seletivo e a divulgação parcial revelam um abandono de qualquer pretensão de imparcialidade e obediência às leis, deixando de lado a verdade ou o interesse público para buscar, por meio da exposição midiática, efeitos que a via processual legítima e adequada não permitiria”, informaram os advogados Guilherme Suguimori e Marco Aurélio de Carvalho.

“A defesa reafirma sua confiança nas instâncias formais e adequadas de apuração dos fatos e se manifestará nos autos em momento adequado, somente após o acesso pleno aos dados obtidos pelas quebras de sigilo”, prosseguiram.

Procurada, a defesa de Cleber Ribas afirmou que não tem “como comentar supostas mensagens extraídas de arquivos aos quais não teve acesso integral, muito menos eventuais conversas mantidas por terceiros, sem a participação de Cleber Ribas”. “O que a defesa pode afirmar é que Fábio Luís Lula da Silva mantinha uma relação estritamente pessoal com Cleber Ribas, decorrente da amizade entre ambos, sem qualquer vínculo profissional ou comercial”, destacou.

A defesa de Cleber Ribas reiterou que “os contratos celebrados pela 3Structure com o governo federal foram firmados na mais absoluta transparência, depois dos procedimentos administrativos previstos em lei e sem o favorecimento de quem quer que seja”.

Procurado, o advogado Roberto Podval, que assumiu a defesa de Roberta Luchsinger, informou que não vai comentar, em razão do sigilo do inquérito.

Pagamento de R$ 150 mil

O pagamento feito pela 3Structure It à empresa de Roberta já havia sido identificado pela Polícia Federal. Segundo Cleber Ribas, a contratação da RL Consultoria ocorreu para a prestação de serviços de assessoria voltados à prospecção de clientes e à identificação de oportunidades de negócios no setor de tecnologia.

A defesa do empresário afirma que a operação foi legítima, regularmente escriturada, contabilizada, tributada e documentada. Também sustenta que a contratação da consultoria não teve relação com os contratos da 3Structure It com o governo federal.

A 3 Structure It, criada em 2019 e sediada em Florianópolis, fechou seis contratos com o governo federal que somam R$ 85,7 milhões. Ao menos cinco foram celebrados após processos licitatórios.

O maior contrato foi firmado com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome. Em 2023, a pasta contratou a 3Structure It para fornecer uma solução destinada à sustentação do ambiente analítico de dados do ministério. O valor acumulado ultrapassa R$ 42 milhões.

Outro contrato foi firmado com a Telebras. A amiga de Lulinha mantinha influência na estatal, segundo mensagens analisadas pela coluna.

Relação de Lulinha e amiga lobista com o Careca do INSS

Roberta Luchsinger e Lulinha também aparecem nas investigações sobre a atuação de Antunes para tentar viabilizar negócios com o governo federal. O Careca do INSS buscava emplacar um contrato milionário para a compra de cannabis medicinal pelo Ministério da Saúde, iniciativa que acabou interrompida justamente pela deflagração da Operação Sem Desconto, que mira a chamada Farra do INSS.