UnB: número de estudantes negros triplica em 10 anos

Levantamento é feito semestralmente pela Universidade de Brasília. Atualmente, são 3.448 alunos autodeclarados pretos ou pardos

Rafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 21/11/2019 9:14

O número de estudantes de graduação da Universidade de Brasília (UnB) que se autodeclaram negros, pretos ou pardos em 2019 é de 3.448, segundo levantamento semestral realizado pela própria instituição. A soma atual é 3,2 vezes maior do que em 2009.

A UnB tem atualmente 38.768 estudantes ativos. Há 10 anos, esse total era de 31.007. Desses, 1.056 se autodeclaravam negros. Esse cenário tem mudado desde a implementação de políticas de ações afirmativas em instituições de ensino superior, como as cotas raciais para ingresso na universidade.

A universidade destaca, no entanto, que não dispõe de levantamento institucional sobre raça ou cor do total de estudantes. Os números acima revelam um retrato de parte da comunidade, que fez a autodeclaração para ingresso por meio de alguma dessas políticas. Ou seja, é possível e provável que a quantidade de negros seja ainda maior.

Há 16 anos, a UnB tornou-se a primeira unidade federal a adotar as cotas em seus processos seletivos para a graduação. Aprovado no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) no dia 6 de junho de 2003, o Plano de Metas para Integração Social, Étnica e Racial estabelecia que 20% das vagas do vestibular seriam destinadas a candidatos negros, além de prever a disponibilização de vagas para indígenas de acordo com demanda específica. A medida entrou em vigência no ano seguinte.

Desde 2016, a Lei Federal de Cotas determina que ao menos 50% das vagas disponíveis no Sistema de Seleção Unificada (Sisu) devem ser reservadas para atender critérios de renda, cor ou raça. De 2004 para cá, quase 22 mil estudantes ingressaram na UnB por meio do sistema. Além disso, dez programas de pós-graduação têm a política instituída em seus processos seletivos.

Durante os primeiros 10 anos de implementação das cotas para negros, a universidade fez um acompanhamento da trajetória acadêmica dos estudantes. O monitoramento revelou que o desempenho dos cotistas é similar ao dos demais, mesmo em cursos concorridos como medicina e engenharia.

Transformação

Helionay Costa (foto em destaque), 23 anos, é aluna de letras e ingressou na UnB, em 2016, pelo sistema de cotas do vestibular tradicional. Para ela, a presença de estudantes negros na instituição mostra a transformação ocorrida após a adoção da política afirmativa.

“Acho que o sistema de cotas raciais é extremamente importante. Uma forma de deixar o ensino mais igualitário e dar oportunidade também a quem realmente precisa. A universidade precisa dessa diversidade”

Helionay Costa, estudante de letras da UnB

“Eu acho extremamente comum ver pessoas negras na UnB, mas quem entrou antes de mim diz que os últimos anos foram diferentes, principalmente no mestrado e nos projetos de pesquisa. A universidade, hoje, está mais negra”, avalia. Entretanto, pontua Helionay, os professores negros ainda são minoria.

Para o estudante de comunicação social Júlio Camargo, 30, que entrou na UnB por cotas em 2015, as iniciativas são apenas os primeiros passos para transformar a universidade em um ambiente mais inclusivo. “As políticas de cotas trazem justiça para um grupo que por muito tempo não teve espaço nessas instituições. No entanto, o que precisamos pensar agora é em transformá-la em ações de permanência para que elas não promovam uma exclusão por dentro”, afirmou.

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Júlio Camargo, 30 anos

 

Maioria

Pela primeira vez na história, estudantes que se declaram de cor preta ou parda são maioria nas universidades públicas do Brasil. Os alunos representam 50,3% dos estudantes de ensino superior da rede pública, de acordo com a pesquisa Desigualdades Sociais por Cor ou Raça Brasil, divulgada na última quarta-feira (13/11/2019), pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Apesar de atualmente representar a maioria nas instituições de ensino superior na rede pública, a população de cor preta ou parda permanece sub-representada, sendo 55,8% da população brasileira

Em 2018, o Brasil tinha mais de 1,14 milhão de estudantes declarados pretos ou pardos. No mesmo ano, os brancos ocupavam 1,05 milhão de vagas em instituições de ensino superior federais, estaduais e municipais.

Segundo Luanda Botelho, pesquisadora do IBGE, a pesquisa mostra melhoras em geral na educação, mas a desigualdade ainda é grande. “Com democratização do acesso ao ensino superior e também com mais jovens se declarando de cor preta ou parda, atingiu-se pela primeira vez essa proporção, de mais da metade”, disse Luanda na data de divulgação da pesquisa.

(Com informações da Secom UnB)

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