Merenda escolar melhora no DF, mas está sem carne vermelha há 2 anos

Sem pipoca e com menos biscoitos, refeição ganhou mais frutas e verduras. No entanto, cozinhas ainda precisam de investimentos

JP Rodrigues/ MetrópolesJP Rodrigues/ Metrópoles

atualizado 11/05/2019 11:29

O aroma de peixe, arroz e farofa quentinha escapava pelas frestas das panelas na cantina do Centro de Ensino Fundamental 33, em Ceilândia. Esbaforidos, alunos iam até o balcão para perguntar qual seria a refeição daquela tarde de quinta-feira (09/05/2019). Ao saber do cardápio, montaram vigília nos arredores do refeitório. Tão logo o sinal badalou, meninos e meninas formaram uma animada fila por um prato cheio de comida. O Metrópoles acompanhou cada instante da refeição.

A sobremesa era mexerica. Em menos de 15 minutos, as panelas estavam vazias e as crianças, de barriga cheia. Segundo o diretor da escola, Amadeu Romualdo da Silva Neto, a alimentação é um dos pontos altos da rotina e importante para o aprendizado dos alunos, especialmente os mais carentes. “Eles comem sempre bem”, sorriu o educador. Para o gestor, as cenas poderiam ser ainda melhores se a escola conseguisse uma reforma na cozinha para preparar e armazenar melhor as refeições. “Desde 1981, a cantina não passou por qualquer obra”, pontuou.

A alimentação nas escolas públicas do Distrito Federal melhorou, mas ainda não está no ponto. O governo retirou do cardápio a polêmica pipoca e reduziu a oferta de biscoitos, passando a oferecer mais frutas e verduras. No entanto, não conseguiu trazer de volta a carne vermelha bovina natural, que está fora dos pratos dos estudantes desde 2017. Além disso, a falta de estrutura nas cozinhas e o baixo número de nutricionistas afetam a qualidade da merenda.

Para 2019, o Governo do Distrito Federal (GDF) planeja investir R$ 71 milhões nas refeições escolares. De acordo com o presidente do Conselho Regional de Nutrição do DF (CRN 1), Aldemir Soares Mangabeira Júnior, o Executivo mostrou sensibilidade para a necessidade de melhoria na qualidade da merenda. Contudo, a conquista do cardápio ideal é um projeto de médio e longo prazo. Por isso, os conselheiros fizeram uma reunião com a Secretaria de Educação em abril passado para formular um plano de ação conjunta.

O ponto negativo para Mangabeira é a falta de estrutura e equipamentos nas cozinhas e depósitos de alimentos nas escolas. Segundo ele, praticamente toda a rede precisa de reforma ou ampliação. “A melhoria das dependências permitiria a aquisição de gêneros mais naturais e menos processados. E a falta de condições é a justificativa do GDF para comprar plastificados, como a carne e o feijão”, criticou.

Atualmente, o governo tem 73 nutricionistas para atender toda as 697 escolas da rede pública. De acordo com o CRN 1, o quadro técnico adequado seria de 303 nutricionistas. Nesse contexto, a instituição encaminhou um ofício à Secretaria de Educação, na última quarta-feira (08/05/2019), solicitando o reforço da equipe.

Já na opinião do presidente do Conselho de Alimentação Escolar (CAE), André Luiz de Souza Santos, as refeições melhoraram visivelmente. “A pipoca nunca deveria ter sido oferecida da forma como foi. Nossa luta é para que os estudantes tenham direito à alimentação escolar e não a um lanche. Muitos são de famílias carentes, e a escola é o único lugar onde podem se alimentar bem”, comentou.

Na outra ponta da balança, Souza cobra a compra de gêneros da agricultura familiar, seguindo o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). “O GDF deveria aplicar 30% do orçamento para levar esses alimentos às escolas. Houve um aumento, mas ainda está abaixo do padrão”, apontou. Pelas contas do CAE, em 2018, 23% da verba do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) foram empregados, e nenhum centavo do DF foi gasto.

Arte/Metrópoles

O Sindicato dos Professores (Sinpro) também identificou a evolução da alimentação estudantil. “A merenda melhorou. Não temos recebido mais denúncias”, resumiu o diretor Samuel Fernandes. Por outro lado, o sindicalista também condenou a falta de carne vermelha bovina in natura e o excesso de alimentos processados embalados no plástico.

Melhores sabores
Segundo a Educação, a proposta do governo de Ibaneis Rocha (MDB) é fornecer alimentação de qualidade conforme as especificidades dos alunos, levando em conta faixa etária, modalidade de ensino, necessidade nutricional e vulnerabilidade social. O cardápio segue o Programa de Alimentação Escolar do DF (PAE). Para evitar desperdício, a pasta diz ter um sistema de distribuição racional dos gêneros.

A secretaria promoverá uma alimentação melhor e mais nutritiva a cada dia. Isso é o que a população do DF pode esperar da merenda escolar

Rafael Parente, secretário de Educação

De acordo com a pasta, existe um planejamento para reforma de cozinhas e depósitos, bem como para a contratação de novas nutricionistas por meio de concurso. Contudo, as ações dependem da liberação de recursos.

O órgão explicou que a redução dos biscoitos é decorrente do aumento da aquisição de alimentos da agricultura familiar, e o GDF pretende ampliar ainda mais o consumo dos gêneros produzidos pelos pequenos produtores. No caso da pipoca, o item estaria ausente do cardápio desde 2018.

Sobre a carne vermelha bovina in natura, distante a mais de 21 meses dos cardápios, a secretaria declarou haver processos para compra em andamento. Enquanto isso, a proteína é oferecida com frango in natura (dois tipos de cortes), suíno in natura, filé de peixe e ovos, além de outros tipos em embalagens.

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