Enem: meme entre alunos, professor do DF gabarita matemática

Ele faz o exame desde 2014 com a finalidade de ajudar na orientação aos alunos. Até então, sempre errava uma das 45 questões

Arquivo pessoal

atualizado 19/01/2020 12:39

O professor Frederico Torres, 33 anos, do Distrito Federal, alcançou a maior nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) em matemática. A pontuação é de 985,5. Alcançada na sexta tentativa de gabaritar as questões da disciplina, a nota é um marco para o docente. Ele faz o exame desde 2014 com a finalidade de ajudar na orientação aos alunos. Até então, sempre errava uma das 45 questões, fato que o fez virar “meme” e ficar conhecido entre os alunos como “o 44 de 45”.

Mestre em matemática, Frederico foi aluno, monitor e, atualmente, é professor da escola Pódion, na Asa Norte. Ao Metrópoles, ele afirma que faz os exames para “sentir na pele” os que os alunos passam.

“Essa foi a sexta vez que fiz a prova, sempre me inscrevendo como candidato. Acho importante entender o modelo de prova e esse ‘laboratório’ de sentir na pele o que o estudante sente é a melhor forma de passar o conteúdo pra eles em sala”, explicou.

Frederico conta que sempre teve muita facilidade em matemática. Em 2012, o professor do DF foi o único no país a gabaritar o Exame de Acesso ao Programa de Mestrado Profissional em Matemática em Rede Nacional (Profmat), um mestrado profissional na disciplina. “Imaginei que acertaria todas as questões do Enem na primeira tentativa. Em 2014, tirei 973,6, mas acertando apenas 44 dos 45 itens”, lembrou.

O brasiliense também coleciona aprovações no Enem. Frederico foi aprovado em direito na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), medicina na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), Engenharia Civil na Universidade de Brasília (UnB), entre outras. No entanto, o professor nunca ocupava a vaga. Em 2018, mesmo tendo ficado em 36° das nove vagas, foi aprovado para medicina na UnB e resolveu cursar.

“Não penso em largar a sala de aula. Eu amo a sala de aula, amo o meu ambiente de trabalho e todas as pessoas que fazem parte do meu dia a dia – alunos, professores, direção–, mas eu sempre gostei de estudar e não queria me arrepender depois de não ter tentado fazer o curso de medicina. Mesmo que eu não me forme, só de poder vivenciar o curso de dentro já será uma experiência super válida, uma vez que lido diariamente com inúmeros estudantes que sonham com esse curso”, contou.

Mesmo com a realização do desejo antigo, o docente vai continuar fazendo os exames. “Meu objetivo principal nunca foi o de gabaritar a prova. Acreditava ser possível, me chateava quando errava itens por vacilo ou desatenção. Meu foco maior sempre foi o de entender o modelo de prova e poder passar segurança para os alunos em sala de aula”, explicou.

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Dicas

O professor explica que o grande problema da matemática para os alunos que ainda temem a disciplina é que a matéria é “muito sequencial”. “Uma falha na base, não corrigida a tempo, pode colocar tudo o que vier pela frente em risco. Então, acho que a maneira ideal de estudar pra disciplina passa, principalmente, por uma autoavaliação e uma humildade em aceitar algumas dificuldades em operações básicas, por exemplo, e voltar lá atrás para cobrir essa lacuna”, disse.

“Depois que essas lacunas são cobertas e o estudante vai sentindo mais confiança, a matemática vira uma matéria linda. Quando estudante, poucas coisas me deixavam mais em êxtase do que resolver alguns problemas complicados de matemática”, completou.

Durante anos orientando alunos em curso preparatório, Frederico ressalta que muitas vezes falta foco e um bom direcionamento para os estudantes que se preparam para o exame. Segundo ele, falta entender o que é relevante de ser estudado, o que vem sendo cobrado com mais frequência e o que é apenas um extra.

“Se o aluno conta com o apoio de alguém que entende bem do modelo de prova e que sabe como cada conteúdo é cobrado, isso já é meio caminho andado. Esse é um dos principais motivos pelo qual eu faço a prova ano após ano. Nas turmas de 3° ano do Pódion, por exemplo, implementamos em 2015 um treinamento específico para a matemática do Enem, com listas semanais que eram corrigidas em sala tomando como base o desempenho dos estudantes na lista e as matérias e formatos de itens que mais se assemelhavam ao Enem”, exemplificou.

Tudo no seu tempo

Para os que não conseguiram a nota desejada nesta edição do Enem, o professor aconselha que os estudantes tenham serenidade para aceitar que tudo tem seu tempo. “Sempre fui um aluno de destaque no ensino médio e, mesmo assim, tive três não aprovações seguidas na UnB. Tanto é que me formei em 2003 no Ensino Médio e só entrei na UnB no 1° semestre de 2006”, confidenciou.

Frederico destaca que é fundamental ter equilíbrio e cuidar da saúde mental. “Acho fundamental que eles estudem, se dediquem para atingir seus objetivos, mas que não abram de, no mínimo, uma atividade de lazer. Acho que ter esse equilíbrio é fundamental nesse processo tão desgastante do Enem”, finalizou.

Melhores resultados em matemática

Os alunos que realizaram a edição de 2019 do Enem tiveram melhores resultados em matemática e piores em ciências da natureza. É o que mostram dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). De acordo com o Inep, a nota média dos 3.709.809 participantes do Enem 2019 foi de 523,1 em matemática, de um total de 1.000 pontos.

Na sequência, aparecem as áreas de ciências humanas, com uma média de 508 pontos, linguagens (520,9) e, por fim, ciências da natureza, com 477,8 pontos na média. Na edição anterior, de 2018, a área com melhor média foi ciências humanas, com 569,2, também de um total de 1.000 pontos.

Em seguida, apareceram matemática (535,5), linguagens (526,9) e, novamente, ciências da natureza (493,8). Comparando as edições de 2018 e 2019, houve queda nas notas médias do exame em todas as provas objetivas.

Questionado sobre a queda das médias nas notas do Enem, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, afirmou que o exame não pode ser usado para medir o ensino no país. No entanto, ressaltou que o resultado mostra que os alunos não evoluíram. “O ensino não avançou no Brasil. O resultado mostra que os alunos não evoluíram. É o paradigma do fracasso”, disse o ministro.

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