Pequenos negócios geram 4 vezes mais empregos do que grandes empresas

Apesar dos números, levantamento mais recente da Codeplan destaca a existência de um contingente de 331 mil desocupados na capital do país

Rafaela Felicciano/MetrópolesRafaela Felicciano/Metrópoles

atualizado 05/07/2019 20:49

O microempreendedorismo tem sido uma rede de contenção aos impactos do desemprego em alta no Distrito Federal. Segundo divulgação do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), com base em dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), o saldo de vagas de trabalho geradas pelo setor, ou seja, a diferença entre a quantidade de contratados e de dispensados, foi de 8.299 entre janeiro e maio de 2019. O número é quatro vezes maior do que o saldo das médias e grandes empresas.

“O que mais cresce é o empreendedorismo individual, é o sobrevivente da crise. O ciclo funciona assim: vem o baque, a pessoa perde o emprego, entra na informalidade para se sustentar e depois passa a empreender para prosperar de novo”, destrincha o diretor-superintendente do Sebrae-DF, Valdir Oliveira (foto abaixo). Conforme o levantamento mais recente da Companhia de Desenvolvimento do DF (Codeplan), existe um contingente de 331 mil desocupados, o que representa 19,4% da população da capital apta ao trabalho.

Michael Melo/Metrópoles

Ciclo virtuoso

O personal trainer Leonardo Augusto da Silva, 36, se encaixa na descrição. Ele ficou dois anos desempregado até decidir se mover para abrir o próprio negócio, em janeiro de 2018. Alugou um estúdio em Águas Claras para oferecer atividades interdisciplinares de academia e teve retorno mais rápido do que o esperado. Em cinco meses, atingiu o chamado break-even, linguagem empresarial para designar o momento em que os lucros superam os prejuízos.

“Negociei com fornecedores, com quem cedeu o estúdio, para pagar os custos com meus resultados financeiros futuros. Foi na raça”, relembra o personal, que hoje se orgulha de ter aberto a segunda unidade, no Sudoeste. Seus resultados fizeram pensar, inclusive, em fazer um estudo de franqueabilidade. Atualmente, ele emprega 12 pessoas.

“Foram dois anos fazendo bicos e trabalhando em uma coisinha aqui e outra ali. Até que chegou ao ponto da minha noiva me dizer a frase-chave: ‘Você precisa parar de pensar em trabalhar para os outros'”, relata. Ele seguiu os conselhos da amada. Com base no programa Medida Certa, do Fantástico, que monitorava a saúde de celebridades, ele montou a Saúde Com Movimento, uma academia com acompanhamento fisioterápico, psicológico e nutricional.

Oferta maior

Enquanto não encontra outros meios de aquecer a economia, a Secretaria de Trabalho do DF também aposta no microempreendedorismo como estratégia para dirimir a desocupação. Para este ano, está prevista a concessão de cartas de crédito no valor total de R$ 10 milhões, com possibilidade de conceder mais R$ 10 milhões se houver emendas parlamentares.

“Tivemos redução do orçamento do microcrédito nos últimos três ou quatro anos e estamos postulando para que o governador Ibaneis [MDB] amplie essa verba. Ela é bem aplicada. Gera retorno ao tesouro e o empreendedor que toma microcrédito honra seus compromissos, com nível de inadimplência baixíssimo”, afirma João Pedro Ferraz (foto abaixo), titular da pasta. Segundo ele, nos seis primeiros meses de 2019, foram liberados R$ 3 milhões diluídos entre cerca de 300 pequenos empresários.

A ideia do secretário de Trabalho também é criar um canal para empreendedores que não conseguirem crédito com o governo se dirigirem ao Banco de Brasília (BRB). A instituição financeira planeja expandir seu programa de microcrédito produtivo, com anúncio de novidades no segmento para a próxima semana. Atualmente, já oferece uma linha de crédito com juros de 1,4% e pagamento em até 24 meses.

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Não basta

Sheila Silvana, 37, dona de um negócio de beleza, se antecipou à crise para empreender, em 2008, e hoje tem uma visão macroeconômica sobre a migração de ex-assalariados, como ela, para o empreendedorismo. “Organizo festa para promover encontro de maquiadores e penteadores do DF há quatro anos. Nos últimos dois, eu vi triplicar o número de pessoas que comparecem. São todas pessoas novas no mercado”, aponta.

De acordo com a empresária, o ramo da beleza é atrativo, pois pode gerar retorno rápido. Pessoas em desespero financeiro, portanto, costumam começar com serviços informais de manicure, pedicure e cabeleireiro, principalmente, e, após bons ganhos, tentam se profissionalizar. “É um mercado muito rentável. A demanda é enorme. Na área de penteado existe até déficit de profissional porque falta mão de obra qualificada. É um volume grande de gente que não tem tanta técnica e falta se aprimorar”, analisa.

Pelo que ela tem experimentado no setor, pessoas sem qualquer familiaridade com o negócio também buscam o retorno econômico por falta de opções. “A maioria quer ter seu próprio empreendimento, montar loja, sair da informalidade. Todos pensam na aposentadoria, no momento de doença, e é preciso sair da informalidade para ter essa estabilidade”, diz

Paliativo

O diretor-superintendente do Sebrae-DF, Valdir Oliveira, atesta que o mercado da beleza e do campo de serviços, de maneira geral, foi o grande responsável por impulsionar os números de empregos do micro e pequeno empreendedorismo. Do saldo de 8.299 vagas criadas entre janeiro e maio deste ano, 6.617 foram para esse setor. “O crescimento está ligado diretamente a isso, como temos observado que acontece no âmbito nacional também. O serviço público não é quem vai promover uma retomada de trabalhos. É o setor produtivo”, opina.

Ele alerta, porém, para o fato de que esses bons resultados para os micro e pequenos empreendedores ser apenas um paliativo à crise econômica. “A dinâmica desses pequenos empresários é de manutenção da economia, não de recuperação ou virada. Não são eles que vão reverter a desocupação, mas estão segurando a situação na unha”, avalia. “Numa economia saudável, a criatividade desses negócios é sinal de prosperidade e potencialização de oportunidades”, explica.

O diretor, também ex-secretário de Desenvolvimento Econômico durante o governo de Rodrigo Rollemberg (PSB), elogia as iniciativas do governo de fomentar o microcrédito, mas acredita que o papel estatal deva ser justamente esse, o de propulsor, que quando algo der certo, o Estado precisa se afastar e deixar o setor privado crescer sem interferência.

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