Saga de desempregados no Distrito Federal dura até quatro anos

Confira o drama de pessoas que estão em busca de emprego e também dicas que ajudam a ingressar no mercado de trabalho

Igo Estrela/MetrópolesIgo Estrela/Metrópoles

atualizado 01/04/2019 8:49

Marcos Aparecido de Souza, 39 anos, segue uma rotina parecida desde 2017. Levanta cedo, cuida da esposa – às vezes, é preciso levá-la ao posto médico por causa de um tratamento nos rins – e, depois do almoço, ganha as ruas. A pé ou no transporte público, o destino é sempre o mesmo: algum lugar com oferta de trabalho. Mas o drama se arrasta há quase dois anos, assim como o de milhares de outros desempregados espalhados pelo Distrito Federal.

Há três meses, ele se mudou de Mirabela (MG) para o Cruzeiro Velho (DF). Até agora, porém, nenhum retorno sobre as dezenas de currículos que já deixou em lojas, restaurantes e agências de emprego. “As pessoas falam que aqui é terra de oportunidades, mas a realidade é bem diferente”, diz.

Marcos (foto em destaque) veio para o DF em busca de tratamento médico para a mulher. O único sustento de ambos é a pensão recebida pela esposa. Era o suficiente enquanto eles moravam no interior de Minas. Agora, submetidos ao maior custo de vida da capital, aumentar a renda é mais do que necessário.


Formado em cursos técnicos para barman, garçom e porteiro, o último trabalho de Marcos foi um “bico” como servente de um restaurante, há quatro meses. Ele avisa: “Para o que me chamarem eu estou disposto”.

Distante da família
O drama de Marcos é parecido com o do técnico em telecomunicações Raimundo Nonato Matos Filho, 43. No DF desde novembro de 2018, quando se mudou de Paranaíba (PI), ele segue a via-crúcis em busca de uma colocação no mercado de trabalho. Não tem emprego formal há cerca de um ano. Na capital, convive com duas saudades: dos três filhos e da esposa, que continuam no Piauí.

 

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Raimundo Nonato está sem emprego formal há cerca de um ano

 

Na última quinta-feira (28/3), ele esteve na Agência do Trabalhador do Setor Comercial Sul para fazer o cadastro e tentar uma vaga. “Não conheço ninguém e isso me atrapalha. Mas tenho que acreditar. Se não fizer isso, quem fará por mim?”, questiona.

Enquanto busca uma colocação no mercado de trabalho, Raimundo mora de favor em Samambaia. Mas não vê a hora de tirar o próprio sustento para ajudar a família e, eventualmente, trazê-la para perto de si. Com formação técnica em refrigeração e especialização na área de vendas, também anuncia: “O que vier, eu aceito”.

Ao deixar seu último emprego formal, em abril de 2015, o bacharel em Sistema de Informação João Paulo Pereira de Sá, 38, resolveu investir em sua formação. Concluiu duas especializações em informática e melhorou o inglês. Porém, vai completar quatro anos na condição de desempregado.

“Estou persistindo”, garante. Ele tem distribuído currículos, mas muitas vezes não recebe retornos. “A meu ver, há processos por aí pouco confiáveis. As avaliações são superficiais, e eles não querem analisar de fato o que a pessoa pode oferecer. É uma rigidez desnecessária em alguns lugares”, critica.

Se no começo da peregrinação em busca de trabalho João Paulo pensava em se manter em sua área de atuação, atualmente ele também diz “aceitar qualquer oportunidade”. “Na vida, a gente começa de baixo para merecer uma promoção e ir subindo”, resigna-se.

Fila por oportunidades
No Distrito Federal, a taxa de desemprego é de 18,7%, segundo pesquisa da Companhia de Planejamento (Codeplan-DF). Significa dizer que 314 mil pessoas estão em busca de uma colocação no mercado de trabalho na capital. E qualquer oportunidade é muito disputada.

Prova disso é que, semana passada, 2,5 mil pessoas formaram uma fila em frente a um restaurante que está abrindo as portas em Planaltina e oferecendo 100 vagas de emprego.

Analistas afirmam que é possível vencer as barreiras e conseguir uma chance. Especialista em recrutamento e gerente de consultoria da Page Personnel, Sérgio Castellano aponta que todas as ferramentas das redes sociais voltadas à recolocação de profissionais no mercado encurtam o caminho até um emprego.

São portais para a pessoa ser conhecida e podem ser portas abertas para uma contratação. O recrutador chega mais fácil a pessoa inserida nessas redes em relação a quem não tem

Sérgio Castellano, gerente de consultoria da Page Personnel

Ele diz ainda que a falta de foco ajuda a aumentar a frustração da pessoa que batalha por um trabalho. “Muitas vezes, ela não recebe retorno porque não preenche os requisitos que a posição exige. Já vi vaga de engenheiro de plataforma de petróleo receber aplicação (currículo) de professor de jiu-jitsu. Precisa haver algum critério”, pontua.

 

 

Horizonte de ações
A Secretaria do Trabalho do Distrito Federal (Setrab) prepara estudos para identificar qual o melhor tipo de vaga para se ofertar a pessoas como Marcos, Raimundo e João Paulo. A pasta também planeja a realização de mutirões pelas cidades do DF para dar vazão a essa procura.

O secretário do Trabalho, João Pedro Ferraz, diz que em nenhum lugar do país houve melhora nos índices de desocupação. “Aumentamos a taxa de ocupação para chefes de família e isso é importante, pois os filhos dessas pessoas continuarão estudando, se qualificando”, assinala.

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