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Economia

Mitos e preconceito: apenas 33% dos deficientes trabalham no DF

Lei obriga que 5% do quadro de pessoal das empresas seja ocupado por trabalhadores especiais, mas ainda sobram queixas de falta de acesso

05/01/2020 20:04, atualizado 06/01/2020 11:21
Hugo Barreto/Metrópoles
Mitos e preconceito: apenas 33% dos deficientes trabalham no DF

O Distrito Federal tem cerca de 139 mil pessoas com alguma deficiência. O número corresponde a 4,8% de toda a população da capital, de acordo com a Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan).

A deficiência ainda é cercada de dificuldades, mitos e preconceitos. Não seria diferente quando o assunto é a inserção no mercado de trabalho. No DF, apenas 33,2% das pessoas com deficiência estão empregadas, segundo dados da Codeplan. Em contrapartida, 55,3% das pessoas sem deficiência possuem um emprego.

Emilly Amorim (foto em destaque), 33 anos, está presente na estatística positiva. O primeiro emprego chegou aos 19 anos. Mesmo assim, também passou por situações complicadas. A administradora conta que deixou de assumir uma vaga de emprego por não terem oferecido a ela circunstâncias adequadas.

“Não havia a menor condição de um cadeirante transitar pelo espaço. Ele [o empregador] propôs dobrar o salário inicial e eu que me adaptasse ao local, em vez de fazer as alterações necessárias”, conta.

Se aceitasse a proposta, Emilly teria que comer em uma sala de espera e não no refeitório. Para usar o banheiro, seria obrigada a optar pelo masculino — o único com a porta larga o suficiente para passar a cadeira. “A única alteração que ele se dispôs a fazer era o aumento da porta da minha sala”, lembra.

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Emilly perdeu o movimento das pernas aos 16 anos, vítima do desabamento de um prédio onde estava. Sobre a adaptação, ela disse ter sido rápida. “Nesse ponto, eu sou muito racional. Qual opção eu tinha?”, questiona.

A administradora acredita que o cenário só mudará quando o comportamento das pessoas também for outro. “A pessoa te reduz automaticamente. É um estigma que você carrega e só vai mudar com a convivência. Por isso, é fundamental a abertura do mercado”, pondera.

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Emilly deixou de assumir uma vaga de emprego por não terem lhe oferecido condições adequadas
Se aceitasse a proposta, ela teria, por exemplo, que comer em uma sala de espera e não no refeitório
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No DF, apenas 33,2% das pessoas com deficiência estão empregadas
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No DF, apenas 33,2% das pessoas com deficiência estão empregadas

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Emilly deixou de assumir uma vaga de emprego por não terem lhe oferecido condições adequadas
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Emilly deixou de assumir uma vaga de emprego por não terem lhe oferecido condições adequadas

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Se aceitasse a proposta, ela teria, por exemplo, que comer em uma sala de espera e não no refeitório
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Se aceitasse a proposta, ela teria, por exemplo, que comer em uma sala de espera e não no refeitório

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Capacitação

A diferença nos números também está presente quando se analisa a escolaridade dos brasilienses. Entre as pessoas com deficiência, 27,5% tem ensino médio completo, enquanto o percentual para a população sem deficiência é de 36,5%.

No ensino superior, o contraste é ainda maior: 18,7% das pessoas com deficiência conta com uma graduação. Entre as pessoas sem deficiência, o índice bate 33,8%. Apesar da distância entre os números, a gerente de educação profissional do Senai-DF, Valéria Silva, acredita que a situação vem mudando aos poucos.

“Temos recebido cada vez mais alunos com deficiência. Acredito que há muito mais ligação com o fato pessoal. Esse deficiente que buscar cada vez mais autonomia, quer ter acesso a mais informação, quer conhecer coisas novas e ter acesso a tecnologias”, afirma.

Silva faz parte do Programa Senai de Ações Inclusivas (PSAI), com o objetivo de promover a educação profissional entre diversos tipo de deficiência. A gerente afirma que mudanças ainda são necessárias. “A gente observa que esse número ainda é relativamente pequeno, embora as empresas tenham a obrigatoriedade do cumprimento da cota [prevista em lei]”, destaca.

Para ela, o preconceito ainda está presente, muitas vezes por falta de informação. “Um deficiente tem condições de fazer qualquer coisa, basta nós, enquanto educadores, darmos suporte adequado e respeita a diversidade do que eles conseguem desenvolver”, completa.

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Vagas previstas na lei

Desde 1991, os deficientes são amparados pela Lei nº 8.213. Ela determina que empresas com mais de 100 funcionários mantenham entre 2% e 5% do quadro de funcionários para a contratação de pessoas com deficiência.

De acordo com dados do Ministério do Trabalho, divulgados em julho do ano passado, o país tem 35 mil empregadores obrigados a cumprir a lei, totalizando o correspondente a 750 mil postos de trabalho.

No entanto, menos da metade (48%) dessas vagas estão preenchidas — representando cerca de 360 mil pessoas.

Emilly acredita que, mesmo com a lei, quem tem deficiência enfrenta mais dificuldade. “As empresas ‘escolhem’ a deficiência. Você consegue ver isso em anúncios de vagas. Algumas deficiências exigem adaptações ou ferramentas que trazem custos. E as empresas não estão dispostas a pagar”, aponta.

Para a administradora, há uma “infantilização” no processo seletivo para candidatos com alguma deficiência. “A sensação é de que você está ali para atender à lei. Então, recebe perguntas básicas, que não seriam feitas em um processo seletivo para pessoas sem nenhuma deficiência”, destaca.

O mesmo acontece com as tarefas delegadas a essas pessoas que, na opinião dela, não estimulariam o desenvolvimento das habilidades desses empregados.

Atualmente, tramita na Câmara dos Deputados um projeto de lei de autoria do Executivo que acabaria com a cota para os trabalhadores com deficiência. O governo Bolsonaro prevê duas formas alternativas para a inclusão.

Uma delas é a contribuição para conta única da União, cujos recursos serão destinados a ações de habilitação e reabilitação.

A outra diz respeito à associação entre diferentes empresas que, em conjunto, atendam à obrigação da contratação na forma da lei. Pessoas com deficiência severa contarão em dobro para o preenchimento de vagas.

Aposentadoria precoce

Infelizmente, os exemplos de falta de inserção são mais numerosos. Vilson Carnaúba, 52, foi obrigado a optar por se aposentar pelo INSS. Ele sofreu um acidente de carro com 23 anos e, quatro anos depois, perdeu o movimento das pernas. Depois disso, ficou apenas dois meses no trabalho em que estava até ser convencido a se aposentar.

“Eu relutei para me aposentar. Não queria de jeito nenhum”, lembra. No entanto, a pouca acessibilidade ao local de trabalho contribuiu para a decisão. As dificuldades de acesso e locomoção apareceram ainda em outros momentos da vida.

Mesmo depois de se retirar do mercado, Vilson tentou voltar a trabalhar. Em uma ocasião, ao entregar um currículo, escutou que não seria possível pelo fato de a ocupação ocorrer no subsolo. Ele até chegou a estagiar, enquanto fazia o curso de informática industrial, mas não exatamente na área que estudava.

Diante das dificuldades, Vilson se acomodou. “Por um tempo, eu fiquei recluso em um quarto, mas aquilo vai enchendo o saco e o mundo não está parado me esperando.”

Há mais de 20 anos, ele descobriu a natação, o que o motiva desde então. “Foi onde eu me encontrei”, conta. Convivendo com pessoas portadoras de outras deficiências, Vilson conta que aprendeu a superar as dificuldades se inspirando na determinação dos colegas.

Para o presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH-Brasil), Paulo Sardinha, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho ainda vive um processo moroso.

“Vem apresentando uma ligeira melhora, mas abaixo do que poderia ser”, afirma. Sardinha aponta para a necessidade de incentivo e campanhas do governo no sentido de conscientizar as empresas sobre o assunto. Assim, cresceria também, cada vez mais, o respeito à Lei de Cotas.