Dona de igreja repassou R$ 5 milhões a banco que lavou dinheiro do PCC
A informação consta no relatório final da CPMI do INSS. Religiosa também repassou R$ 9 milhões a empresa investigada na CPI da Covid-19
atualizado
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Lucineide dos Santos Oliveira – sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB), ONG envolvida na farra do INSS, e presidente da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus, localizada no Recanto das Emas, a cerca de 32 km da capital do país – repassou R$ 5,94 milhões para o BK Bank, instituição investigada por lavar dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC).
A informação consta no relatório final da CPMI do INSS, que pediu o indiciamento de Lucineide pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Outras 215 pessoas também foram indiciadas no documento, lido nesta sexta-feira (27/3).
No texto, a CPMI diz que a mulher fez o repasse ao BK por meio de uma empresa de fachada denominada Expresso Marketing. O mesmo CNPJ enviou R$ 9,5 milhões para a BSF Gestão em Saúde – companhia que foi investigada na CPI da Covid-19, em 2021, por suspeitas de irregularidades em contratos com o Ministério da Saúde.
A BSF Gestão em Saúde é controlada pelo lobista Danilo Trento. Segundo a Polícia Federal, o homem, que também é empresário, teria atuado em conjunto com o ex-procurador-geral do INSS Virgílio Antônio de Oliveira Filho, para desviar dinheiro das aposentadorias por meio de descontos irregulares nos benefícios.
Velho conhecido do Congresso Nacional, Danilo também foi alvo da CPI da Covid-19, em 2021. À época, ele era o então diretor da Precisa Medicamentos, que intermediou a compra da vacina Covaxin pelo Ministério da Saúde. Ao fim das apurações, a CPI da Covid pediu o indiciamento dele, por fraude em contrato, improbidade administrativa e formação de quadrilha.
“Rede familiar e religiosa”
No relatório, a CPMI disse que Lucineide dos Santos Oliveira atuava também como tesoureira da AAB. Além disso, a comissão acusou a mulher de atuar no núcleo financeiro e administrativo da organização criminosa que operava as fraudes da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer).
Conforme indicam as investigações, Lucineide atuou na gestão de empresas de fachada, na operacionalização de descontos indevidos e na dissimulação do proveito dos crimes mediante uma rede familiar e religiosa.
Ela também é apontada como uma operadora estratégica na lavagem de dinheiro e na pulverização de recursos desviados de aposentados.
“A indiciada controlava a Expresso Serviços de Publicidade e Marketing, a Impacto Serviços de Apoio Adm e a Solution Serviços de Locação e Apoio. Tais empresas, sediadas em endereços no Recanto das Emas (DF) e sem funcionários registrados, receberam o total de R$ 141.870.598,82, sendo R$ 138,9 milhões da Conafer e R$ 2,9 milhões da AAB”, disse a CPMI.
Como pessoa física, Lucineide recebeu R$ 160,9 milhões entre 2019 e 2025, dos quais R$ 113 milhões vieram diretamente da Conafer. “Essa movimentação é flagrantemente incompatível com sua realidade econômica, visto que em 2022 ela possuía renda formal de apenas R$ 2 mil e histórico de inscrição no CadÚnico”, consta no relatório.
Outras transferências a investigados
A investigação financeira comprovou que Lucineide transferiu R$ 40 mil, em 2024, para o servidor Pedro Alves Corrêa Neto, apontado como o principal técnico que facilitava os processos das associações na DIRBEN/INSS.
Além disso, efetuou uma transferência única de R$ 600 mil, em 2024, para o Auto Posto Topa Tudo –estabelecimento localizado em Minas Gerais e utilizado para branqueamento de capitais.
Ainda segundo o relatório, Lucineide transferiu cerca de R$ 700 mil para o escritório de Milena Câmara, filha do deputado federal Silas Câmara. Esses pagamentos ocorreram entre 2023 e 2024, coincidindo temporalmente com reuniões de articulação entre o parlamentar e o presidente da Conafer.
Após o início dos repasses milionários, Lucineide adquiriu uma frota incompatível com seus rendimentos: um Porsche Boxster 2023, uma Mitsubishi Triton 2024 e um VW T-Cross 2025. A Polícia Federal aponta que ela também registrava veículos de terceiros em seu nome para blindar o patrimônio dos líderes da organização.
Com isso, Lucineide consta no rol de pedidos de indiciamento, sob a acusação de ter cometido crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica, devido à constituição de empresas sem atividade operacional real e uso de nomes quase homônimos para dificultar a fiscalização e justificar fluxos financeiros inidôneos.
“A participação de Lucineide foi indissociável da engenharia financeira que permitiu o desvio de centenas de milhões de reais do sistema previdenciário. Sua conduta de converter recursos extraídos de idosos em bens de luxo e circularizar ativos através de empresas de fachada justifica o encaminhamento de sua responsabilização penal por esta CPMI. Com isso, indicia-se Lucineide dos Santos Oliveira por ter sido peça fundamental na engrenagem financeira da Conafer e da AAB”, finalizou a CPMI.
Igreja retira fachada após escândalo
A placa de identificação da Igreja Evangélica Pentecostal Ministério Visão de Deus (foto em destaque) foi retirada dias após o Metrópoles revelar que a instituição pertence a uma sócia da Associação dos Aposentados do Brasil (AAB).
Estranhamente, no mesmo endereço onde está a igreja evangélica, fundada por Lucineide dos Santos Oliveira, sócia da AAB, supostamente funciona uma companhia pertencente a Samuel Chrisostomo do Bomfim Junior, contador da Confederação Nacional dos Agricultores e Empreendedores Familiares (Conafer) – outra instituição envolvida nas fraudes.
Antes da modificação na fachada, a reportagem esteve no endereço e encontrou apenas a instituição religiosa, erguida entre um centro catequético e um terreno baldio. Apesar disso, segundo dados da Receita Federal, a loja de Samuel está ativa no espaço, configurando a suspeita de ser uma empresa fantasma.
Dias após a matéria de denúncia do Metrópoles ser veiculada, a placa com a identificação da igreja evangélica foi retirada e o terreno baldio foi cercado por um alambrado.
Tanto a AAB quanto a Conafer têm como sede o mesmo prédio empresarial, localizado no Setor Comercial Sul de Brasília. Ambas as organizações aparecem na lista de Processos Administrativos de Responsabilização (PAR) instaurados pela CGU por suspeitas de terem aplicado descontos ilegais em aposentadorias e pensões de beneficiários do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).
O outro lado
A reportagem tentou contatar Lucineide dos Santos, mas não obteve retorno até a última atualização do texto. O espaço segue aberto para futuras manifestações.








