DF: filha de idosa maltratada não deixava vizinhos se aproximarem

Mulher de 69 anos resgatada pela Polícia Civil morreu no Hospital Regional de Taguatinga. Filha foi solta após pagar fiança

Hugo Barreto/MetrópolesHugo Barreto/Metrópoles

atualizado 16/01/2020 14:06

Vizinhos da idosa de 69 anos que morava com a filha, Flávia Cristina Marçal, 38 anos, em Taguatinga Sul, estão chocados com a notícia de maus-tratos e a morte da mulher. Eles dizem que a família evitava qualquer tipo de contato com a vítima.

Segundo Munira Chaer, 68, que mora ao lado da casa onde ocorriam os maus-tratos, Flávia não era uma pessoa de conversar com ninguém. “Não falava nada. Se olhasse para ela, até virava a cara”, ressaltou.

Por esse motivo, a vizinha sempre teve medo de tratar qualquer assunto com a família. “Eu já tinha receio, pois ela não se comunicava, agora que não confio mesmo. É revoltante o que aconteceu”, destacou.

A servidora aposentada da Secretaria de Educação Leila Maria Marçal foi encontrada pelos investigadores em sua residência (foto em destaque), em Taguatinga Sul. Ela estava desnutrida, sem dentes e com várias feridas pelo corpo. Um dos machucados, nas costas, deixava o pulmão da mulher à mostra, de tão profundo.

A situação em que se encontrava a idosa chocou os policiais civis que foram ao local e prenderam a filha dela. “Eles descreveram Leila como um cadáver vivo. Ela estava se desintegrando, uma situação deplorável”, disse a chefe da Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa, por Orientação Sexual ou contra a Pessoa Idosa e com Deficiência (Decrin), Ângela Maria dos Santos. A prisão de Flávia Cristina Marçal, filha de Leila, ocorreu nessa terça-feira (14/01/2020). Mas ela foi solta após pagar fiança de R$ 2,5 mil.

 

Outra moradora, que não quis se identificar, tem a mesma impressão sobre Flávia. “Não gostava dos vizinhos. Não deixava ninguém entrar em casa”, afirmou.

Tanto problema na relação fez com que ela nunca tenha sabido o que acontecia dentro da casa. “A gente via que tinha um acompanhamento médico. Todo mês aparecia alguém aí, mas não tinha como ter informações sobre a mãe dela”, afirmou a vizinha.

Uma moradora antiga da rua, que também preferiu não ser identificada, lembra que uma vez tentou entrar na casa e foi impedida. “Queria ver como a mãe dela estava, mas [a filha] não deixou. Disse que os cachorros iam atacar”, garantiu.

Ela ainda resumiu o relacionamento de Flávia com toda a vizinhança: “Passa pela gente que parece um pedaço de pau. Não olha nem dá bom dia”.

Relacionamento era conturbado também com a idosa

Ainda de acordo com Munira, a idosa, antes de sofrer o acidente que a deixou acamada, tinha comportamento igual ao da filha. “Também não falava. Sempre desviava de todos”, lembra.

O atropelamento da idosa, inclusive, teria acontecido por causa desse problema com os vizinhos. “Minhas filhas estavam na esquina e ela ia passar. Como não queria passar perto delas, foi para o meio da rua e um carro bateu nela”, afirma Munira.

Os policiais chegaram até a casa da idosa após denúncia de um médico do Núcleo de Atendimento Domiciliar, do Hospital de Taguatinga (HRT). Durante uma das visitas, o profissional se deparou com as cenas de horror.

Após ser resgatada, a idosa foi levada às pressas para o HRT e entubada. Desnutrida, chegou ao hospital em estado grave, com diversos machucados de odor fétido e áreas necrosadas pelo corpo. Apresentava ainda péssimo estado de higiene, pois estava defecada e urinada. A possível causa da morte é infecção generalizada.

O caso foi comunicado ao Ministério Público.

Inicialmente, a filha pode responder por três crimes. São eles: deixar de prestar assistência ao idoso em situação de iminente perigo ou dificultar sua assistência à saúde, sem justa causa – pena de 6 meses a 1 ano de reclusão e multa; expor a perigo a integridade e a saúde, física ou psíquica do idoso, submetendo-o a condições desumanas ou degradantes – pena de 2 meses a 1 ano de reclusão e multa; apropriar-se de ou desviar bens, proventos, pensão ou qualquer outro rendimento do idoso – pena de 1 a 4 anos e multa.

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