DF: conheça profissionais da saúde no front da guerra à Covid-19

No olho do furacão da pandemia da doença, eles relatam a rotina dentro de hospitais e postos do DF

atualizado 22/03/2020 10:12

Igo Estrela/Metrópoles

Enquanto a população precisa se recolher para conter o avanço do coronavírus, um batalhão de profissionais de saúde está na linha de frente dessa guerra. Por vocação, enfrentam a pandemia. E salvam vidas. Considerados heróis, eles vêm recebendo homenagens pelo país e pelo mundo. Na sexta-feira (20/03), foram aplaudidos por milhares nas redes sociais. “Obrigado”, gritaram as pessoas, das janelas de casas e apartamentos.

No dia a dia, encaram uma rotina dura, mas gratificante. Enfermeira de formação, a técnica de enfermagem Maria Charlene Batista de Andrade está nesse front. Ela participa da equipe de tratamento da primeira paciente diagnosticada com Covid-19 no DF e do atendimento de casos suspeitos no Hospital Regional da Asa Norte (Hran), a unidade de saúde de referência para as pessoas com a doença na capital do país.

A rotina de trabalho é tensa. Mas ela diz que não sente medo. “Gosto muito do que faço. O que me impediria de ir ao Hran, de dar meu plantão, era se fosse um caso suspeito. Se ficasse doente. Quero ajudar e dar o melhor. E não sobrecarregar os colegas. Fazer o que eu posso pela população. É meu dever. Está dentro do meu juramento”, garante.

 

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Paramentação

A primeira paciente confirmada com o coronavírus está internada na UTI do Hran. A advogada de 52 anos, moradora do Lago Sul, tem o quadro agravado por outras doenças. O tratamento demanda cuidado e o uso dos equipamentos de proteção individual (EPIs).

“A gente está mais atento com a paramentação e a desparamentação. E a forma como vamos colocar e descartar os EPIs, após o contato com o paciente é a hora crucial. Uma quebra de barreira, de protocolo, pode nos contaminar”, assinalou. A equipe do Hran criou uma rotina de segurança. A cada retirada do equipamento, um colega fiscaliza o outro. A atenção é redobrada.

Esperança

Os profissionais nutrem esperança pela recuperação da primeira paciente diagnosticada com coronavírus no Distrito Federal.  “Por ela, por todo o esforço da equipe e por todos os pacientes”, assinalou Maria Charlene. O último boletim da Secretaria de Saúde, divulgado nesse sábado (21/02), mostra que a mulher está em estado gravíssimo.

Na linha de frente no Hran, Maria Charlene conta ainda como foi ficar 12 horas de plantão na unidade onde são atendidos os casos suspeitos de coronavírus no hospital. Os pacientes, diz ela, se mostraram muito aflitos. E o diagnóstico demanda espera. Com gentileza e cuidado, a técnica tentou ao máximo acalmá-los com esclarecimentos. Teve êxito.

A servidora Maria Charlene faz parte da equipe de tratamento de pacientes com coronavírus ou com suspeita da doença do Hran

“Alguns pacientes queriam ir embora. Falei: ‘Gostaria de pedir a consciência de vocês. Você acha que está bem, mas pode ser positivo. Se saírem na incerteza, vão disseminar a doença. Peço um pouco de compreensão'”, lembrou.

Apelo

Maria Charlene reforça o apelo que autoridades e especialistas vêm fazendo à população: “Fiquem em casa, lavem as mãos. Não tem álcool em gel para o mundo todo. Mas água e sabão também limpam”.

O técnico em radiologia Alessandro Araújo dos Santos (foto em destaque) também faz parte da equipe do Hran. Fez o exame de imagem da primeira paciente diagnosticada no DF, in loco, na UTI. “Estávamos com os EPIs. Foi tranquilo. Tivemos proteção. É claro que você fica receoso se aquela proteção vai ser 100% efetiva. E a gente precisa fazer nosso trabalho. A missão foi cumprida. É gratificante ajudar o próximo por meio da nossa profissão”, contou.

Diagnósticos

Segundo o técnico, todos pacientes com sinais de gripe precisam ser atendidos como prováveis contaminados de Covid-19. “É um risco da profissão. A gente tem de enfrentar. Precisamos tratar o paciente com presteza. Nosso exame pode ajudar a chegar ao diagnóstico”, destacou. Laboratórios e radiologia atendem grande parte dos pacientes em unidades de saúde. As imagens ajudam também na conduta do médico no tratamento do novo coronavírus.

A cada diagnóstico negativo da doença, Alessandro ganha força para seguir. “Chegou um paciente suspeito de Covid-19. Quando você vê a imagem que não está tendo nada de grave, é satisfatório. Aquele pulmão não foi atingido ainda. Ou seja, está bem”, detalhou.

Superando o perigo

De acordo com Alessandro, os servidores buscam proteção não apenas com EPIs, mas adotando práticas de segurança, como manter conversas a distância. Mas muitos ficam receosos. “Fica a sensação de perigo. Você vai voltar para a casa, para a família. Tem filho, mãe, pais, avós.  Mas vou continuar trabalhando. A missão tem que ser cumprida. Isso é gratificante”, ressaltou.

Para o profissional, as medidas do governo de restrição ao máximo da circulação protegem não só a população como a rede pública. “É melhor pecar pelo excesso do que pela falta. A contaminação em massa pode saturar o sistema. Então, pedimos que a população, principalmente os idosos, tome ainda maior cuidado e evite circular desnecessariamente”, reforçou.

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Mesmo com hipertensão, hérnia de disco, alergia e hipotireoidismo, a técnica de enfermagem Sueli Silva Cirilo Lima segue trabalhando no Posto de Saúde da QE 38 do Guará 2. “Nós somos a porta que precisa estar aberta sempre. Podem fechar todas as outras. A nossa, não. Com os cuidados necessários, evitamos mortes”, resumiu.

Pacientes com suspeita da doença são acomodados no auditório do posto. De acordo com Sueli, na falta de insumo, como máscaras de proteção e papel, os servidores fazem vaquinhas e bazares para manter o atendimento.

Diante da crise da Covid-19, o GDF assumiu o compromisso de reforçar o quadro de pessoal e estoques. Liberou R$ 32.418.216 de crédito suplementar nesta sexta-feira (20/03). O dinheiro será utilizado na compra de equipamentos para as forças de segurança e a nomeação de servidores.

 

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A enfermeira Kelly Coelho trabalha na unidade da Vigilância Epidemiológica de Taguatinga. Registra notificações de doenças e presta apoio técnico aos servidores. Os telefones da central ficaram congestionados nos primeiros dias da crise. “Meu celular também. Os servidores estavam em pânico. Só o fato de tirarmos as dúvidas, os deixa mais tranquilos. Estavam angustiados porque não sabiam como proceder. Foram dias muito tensos”, relatou.

Antes do pico

Para ela, a hora de aprender é esta. “Antes do pico da doença. É um inimigo invisível. O mundo nunca viveu essa experiência. Mas os servidores estão unidos”, garantiu Kelly Coelho.

Ao longo da carreira, o técnico de laboratório Josadark Carvalho teve o dedo furado duas vezes por seringas de pacientes diagnosticados com HIV. “Até hoje, nenhum exame deu positivo. Mas fiquei muito mais assustado com o coronavírus”, revelou.

Carvalho colhe amostras para diagnóstico de diversas doenças no Hospital Regional do Gama (HRG). A precaução em cada atendimento é máxima. “Nem penso em parar de trabalhar. Se não fosse o SUS, a situação do DF e do país estaria ainda pior”, cravou.

 

 

 

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