Delegado aposentado diz que álibi de Adriana Villela é “incontestável”

André Victor atuou no caso e foi ouvido no julgamento da acusada de matar os pais. Policial foi alvo de perguntas do MP

atualizado 28/09/2019 21:41

Andre Borges/Especial para o Metrópoles

Delegado aposentado e diretor do Departamento de Polícia Circunscricional à época das investigações, André Victor do Espírito Santo disse que sempre acreditou na hipótese de o crime da 113 Sul ser latrocínio. “Analisando a cena do crime e as possibilidades — e eu já tinha 20 anos de polícia —, eu percebi que, se a Adriana (Villela) ou um desafeto qualquer de uma das vítimas quisesse ceifar a vida dessas pessoas, não seria daquela maneira”, afirmou.

O integrante da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF) foi a quinta testemunha de defesa ouvida no sábado (28/09/2019). É o sexto dia deste que já é o julgamento de um único réu mais longo da história do Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT). Havia a expectativa de que Adriana fosse ouvida neste domingo (29/09/2019). Entretanto, a promotoria prevê que ela só fale na segunda-feira (30/09/2019).

Espírito Santo afirmou que o álibi da acusada era “perfeito, fortíssimo e incontestável”, antes mesmo da colheita de outras provas, como a localização por meio de sinal do telefone. Ele disse que, quando soube da busca e apreensão na casa de Adriana, alertou o então diretor-geral da PCDF, Pedro Cardoso, de que a linha de apuração era “bastante equivocada”. “Disse não ter possibilidade de ela estar envolvida nisso, muito antes de os autores serem descobertos”, completou.

Encontro com Leonardo

O delegado aposentado detalhou ter se encontrado com um dos assassinos condenados, o ex-porteiro do casal Villela e acusado de receber dinheiro de Adriana para a execução, Leonardo Campos Alves. “Estive com ele por cerca de cinco a 10 minutos. Eu falei o seguinte: ‘Queremos de você apenas a verdade’. Ele disse que, desde o momento que foi preso em Montalvânia (MG), perguntavam se Adriana estava envolvida. E falou: ‘Se me disserem que a pena vai cair 20 ou 10 anos, se eu vier a inclui-la, vou dizer que não esteve. Porque não estava envolvida no crime”, narrou.

Espírito Santo teceu comentários sobre a piora da vida de Adriana após o triplo homicídio. “Teria sido ruim para ela de qualquer maneira. A morte do pai foi ruim para ela completamente. [O José Guilherme] era um homem produtivo que tinha renda excepcional, era o melhor advogado de Brasília em atuação nos tribunais superiores. Ganhava dinheiro sem fazer força. A filha trabalhava com o avô”, destacou.

Quebra de sigilo

Antes do depoimento do delegado aposentado, o promotor Marcelo Leite adiantou que André Victor seria alvo de perguntas do Ministério Público, o que ocorreu no fim de mais um dia de julgamento. “Ele trocava mensagens com Adriana. Ela ainda não era indiciada, mas, de qualquer maneira, ele chegou a ser indiciado por quebra de sigilo funcional”. Desde segunda-feira (23/09/2019), 22 pessoas arroladas pela acusação e defesa falaram em frente aos sete jurados.

No plenário, a testemunha falou que, logo após o crime da 113 Sul, foi encarregado de fazer mediação entre a família das vítimas e a polícia. “Eu, como era a ponte com a Adriana, mandei e-mail explicando que acabou investigação na 1ª DP”, pontuou. O processo acabou arquivado, segundo Espírito Santo.

O delegado aposentado assinalou que Adriana indicou o Leonardo como suspeito. Questionado pelo advogado de defesa, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, se é comum um suposto mandante de crime indicar o nome do autor, respondeu: “Se quiser ser preso, sim”.

A defesa apresentou um vídeo no qual Leonardo, condenado pelo crime, diz à imprensa que cometeu os homicídios porque se sentiu humilhado por José Guilherme, e não cita Adriana.

No fim do dia, o procurador Maurício Miranda questionou se Espírito Santo tinha relacionamento com a acusada ou a família dela antes do triplo homicídio. O delegado aposentado negou, mas admitiu conhecer pessoas em comum. “Minha mãe trabalhou no STF [Supremo Tribunal Federal] a vida toda. Ela conhecia o senhor José Guilherme Villela. Eu o conhecia indiretamente”, ponderou. O julgamento foi encerrado pouco antes de o relógio marcar 22h.

Provas e contestações

A acusação usa como prova, por exemplo, um laudo do Instituto de Identificação (II) da Polícia Civil que aponta, a partir do colhimento de impressões digitais, Adriana no apartamento em um intervalo de dias que inclui a data do crime. Segundo o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios (MPDFT), o documento contradiz depoimentos nos quais Adriana teria dito que esteve no imóvel em momentos anteriores aos que indicam o laudo.

Outra argumentação diz respeito a suposto relacionamento conturbado entre filha e pais, com dependência econômica de Adriana, que recebia mesada de R$ 8,5 mil. Uma carta de 2006, na qual Maria Villela diz estar cansada dos “destemperos” da arquiteta, foi lida aos jurados. Com a morte dos pais, Adriana herdou herança estimada em R$ 40 milhões, dividida entre ela e o irmão, Augusto Villela.

Também se apoia em registros do celular da ré, as chamadas ERBs. “A partir das 20h13, não temos registro de Adriana em local algum”, frisou o promotor Marcelo Leite.

A defesa, por outro lado, apresenta parecer do Instituto de Criminalística (IC) que coloca em xeque o laudo do II. Mostra também troca de e-mails entre mãe e filha com mensagens carinhosas. Os advogados usam uma linha do tempo com tudo o que Adriana teria feito em 28 de agosto de 2009 como prova de que ela não esteve no local do crime.

Kakay reforçou à imprensa que “tem a prova milimétrica de onde Adriana esteve naquele dia 28 desde o acordar até a noite”. “Às 21h17 ela estava em casa e, felizmente, passou e-mail para vários amigos”, disse, rebatendo informação da acusação de que a partir das 20h13 não haveria registro de Adriana.

Ex-companheiro

Antes do delegado aposentado, o ex-companheiro de Adriana Villela (foto em destaque) acusada de mandar matar os pais na 113 Sul, Livino Silva afirmou ter estado com a ré no momento no qual ela teria recebido a notícia que os pais foram mortos, três dias após os assassinatos. Embora tenham morado juntos por quatro anos no passado, o relacionamento amoroso já tinha acabado e eles eram amigos em 2009.

“Carolina [filha de Adriana e neta do casal Villela] disse que os avós estavam mortos. Estávamos no pilotis dos prédios, (e ela) chegou chorando. Elas se abraçaram e a Carolina perdeu o equilíbrio. Ela usou o termo ‘mataram'”, detalhou, emocionado. No banco dos réus, Adriana chorou.

Livino detalhou que foi à casa de Adriana, no Lago Sul, após ela ligar preocupada com os pais. Em seguida, a levou ao apartamento dos Villelas, na 113 Sul.

Voz embargada

Confrontado com informação do delegado aposentado e ex-chefe da antiga Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida) Luiz Julião Ribeiro de que houve “quebra de padrão comportamental” porque Adriana teria “protelado ao máximo a chegada ao local”, Silva ficou com a voz embargada. “Eu também me emociono ao lembrar. É muito chocante ver pessoas tão queridas sofrendo tanto. Todos ficamos muito abalados”.

Contou, ainda, que quando depôs para a antiga Coordenação de Crimes Contra a Vida (Corvida), selecionaram trecho de declaração dele a respeito do relacionamento entre Adriana e Maria Villela. “Eu relatei que parecia, para mim, uma relação normal de mãe e filha com momentos de conflito e momentos amorosos. Ela [a delegada] colocou que, ‘perguntado, depoente disse que tinha conflitos’. É bem distante do que eu disse”, frisou.

Depoimento de Adriana

Na previsão da promotoria, Adriana Villela deve falar apenas na segunda-feira (30/09/2019). A explicação é a quantidade de testemunhas a serem ouvidas e as peças do processo que o MPDFT quer apresentar, como vídeos e relatos de pessoas de outro estado, por meio de carta precatória.

Depois de Livino, Ronei Alves, ex-presidente de uma cooperativa de catadores de lixo, onde Adriana fez projeto de mestrado com curso de reciclagem de vidro, foi ouvido. Ele contou do trabalho que Adriana desenvolveu com o grupo, em 2006. “Se ela tivesse sido uma pessoa má, não estaria aqui. Era uma pessoa amável”, afirmou.

“Ela disse que vidro pode virar renda, trabalho, dignidade. Isso mudou a vida de muita gente e, para nós, foi importante para a dignidade de ter um trabalho bacana. Todo mundo que conviveu com ela pensa a mesma coisa”, testemunhou Ronei, que chegou a ser investigado pela Corvida e até forneceu impressões digitais. “Foram ríspidos e trataram friamente, como se fosse bandido”, declarou.

Sexto dia

O sexto dia de julgamento de Adriana começou por volta das 9h30 deste sábado (28/09/2019). A primeira testemunha de defesa a ser ouvida foi Francisco das Chagas Leitão, arquiteto e amigo da ré. Ele garante que estava com a colega em um curso no dia do crime, 28 de agosto de 2009.

Diante do Tribunal do Júri de Brasília, Francisco disse ter participado de um seminário de palestras, na Asa Sul, com Adriana, na data do triplo homicídio. Informou ainda que chegou ao Instituto Cervantes por volta das 14h20 e saiu aproximadamente às 18h30. “Voltamos a nos encontrar novamente no hall do instituto, porque estava tendo uma exposição de fotografia. Saí algumas vezes para fumar. Em todas as vezes, foi possível manter contato visual com ela”, afirmou.

O depoimento coloca dúvida em uma das teses da acusação, a de que Adriana teria passado em uma parada de ônibus antes do triplo homicídio para deixar dinheiro com Leonardo Campos Alves, ex-porteiro do prédio dos Villelas e condenado pelo crime.

Depois de Francisco, foi a vez de a pedagoga Graziela Ayres Ferreira Dias contar como foi aquele 28 de agosto. A amiga de infância da ré declarou que a acusada foi à casa dela à noite e saiu ao fim do Jornal Nacional, da Rede Globo. Durante as investigações, a Polícia Civil descobriu que o programa jornalístico acabou às 20h57. “Na hora em que a Adriana saiu, entrei e estava passando as letrinhas do Jornal Nacional. Eu estava interessada porque queria ver a novela seguinte [Caminho das Índias]”, detalhou.

O promotor Marcelo Leite esclareceu que não tem como precisar a hora do crime, ocorrido no Bloco C da 113 Sul. Fato é que, no fim da tarde, os executores estavam na parada de ônibus e, por volta das 23h, seguiram para Montalvânia (MG).

As duas testemunhas restantes, o amigo do casal Villela Pedro Augusto de Freitas Gordilho e o perito Sami El Jundi, seriam ouvidas neste sábado (28/09/2019). Porém, ficou decidido que só falarão neste domingo (29/09/2019).

Histórico

Este é o julgamento de um único réu mais longo da história do Tribunal de Justiça do DF e dos Territórios (TJDFT). O caso conhecido como “massacre da Estrutural” durou seis dias, iniciado também na segunda e finalizado no sábado, com a absolvição dos nove militares acusados.

O prazo de cinco dias previstos para o julgamento de Adriana Villela extrapolou nessa sexta-feira (27/09/2019). As sessões para tratar do triplo homicídio conhecido como crime da 113 Sul continuam neste sábado (28/09/2019).

A arquiteta e jornalista é acusada de ser a mandante do assassinato dos pais, o ex-ministro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) José Guilherme Villela e a advogada Maria Villela. A empregada do casal, Francisca Nascimento Silva, também foi executada. Eles foram mortos a facadas – 73 no total –, em 28 de agosto de 2009. Adriana teria contratado o ex-porteiro do prédio dos Villelas Leonardo Campos Alves para matar os pais por R$ 60 mil. Ele, por sua vez, teria prometido dar R$ 10 mil a Francisco Mairlon Barros Aguiar para executar o crime.

Sobrinho de Leonardo, Paulo Cardoso também foi acusado pelo esfaqueamento do trio. Julgados e condenados, os três estão presos.

As testemunhas de acusação foram as primeiras ouvidas. Depois de Adriana se pronunciar no Tribunal do Júri, ocorre a discussão entre as duas partes. Por último, os jurados se reúnem para decidir se ela é inocente ou culpada. Se o entendimento for pela condenação, o juiz calcula a pena.

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