Da Asa Sul a Ceilândia: ataques em série de moradores de rua a pedestres apavora o DF
Nos últimos sete dias, pelo menos três ocorrências graves, envolvendo pessoas em situação de rua, foram registradas no DF

Ataques de pessoas em situação de rua nas vias do Distrito Federal têm assustado a população. Somente nos últimos sete dias, três ocorrências do tipo foram registradas, a mais recente nessa segunda-feira (3/8), quando uma mulher foi atacada pelas costas em uma parada de ônibus na Asa Sul.
Veja:
A vítima tem 21 anos e trabalha em um escritório de advocacia. Ela havia acabado de descer no ponto de ônibus e seguia para o trabalho quando foi atacada, segundo ela, de forma inesperada.
O autor foi preso, mas ficou apenas duas horas na 5ª Delegacia de Polícia (Área Central), onde assinou um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO) e foi liberado.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DFVeja outros casos:
- 31 de julho: um homem em situação de rua, que não teve a identidade revelada, foi preso suspeito de atear fogo em outro homem. A tentativa de homicídio ocorreu em 14 de julho, na Quadra 310 da Asa Sul, e o crime teria sido motivado por desavenças anteriores entre os dois;
- 28 de julho: um jovem de 18 anos teve os óculos estourados no rosto após levar um soco de um homem em situação de rua, em Águas Claras. Segundo a mãe da vítima, que pediu para não se identificar por medo do autor, o rapaz caminhava pela região quando foi atacado sem qualquer motivo;
- 30 de junho: um morador de rua de 42 anos foi preso após estuprar duas jovens, em Sobradinho. As vítimas, de 20 e 21 anos, retornavam do trabalho quando foram abordadas pelo criminoso, que portava uma faca. Sob severas ameaças, as jovens foram obrigadas a caminhar até um terreno baldio com vegetação densa, onde foram violentadas sexualmente;
- 24 de março: um policial militar da reserva atirou e matou uma pessoa em situação de rua, em Águas Claras. Segundo a PMDF, o militar relatou que passeava com o cão quando foi surpreendido pelo homem, que o agrediu com um pedaço de madeira. O policial disse que reagiu e efetuou um disparo;
- 8 de março: em Ceilândia, um policial militar foi esfaqueado durante uma ocorrência, no Setor O. Segundo a PMDF, equipes atendiam um chamado quando abordaram o autor. Inicialmente, ele colaborou com a ação. No entanto, quando um sargento tentou algemá-lo, o suspeito reagiu e desferiu uma facada contra o policial;
- 5 de fevereiro: uma confusão entre dois homens em situação de rua terminou em violência na 716 Norte. Um homem de 51 anos foi preso em flagrante após atacar outro indivíduo, de 47, com golpes de faca no pescoço e na cintura;
- 27 de dezembro de 2025: um morador de rua invadiu uma residência, em Vicente Pires (DF), e torturou até a morte o dono da casa. O criminoso entrou na residência por volta das 2h. Ao perceber a invasão, a vítima tentou reagir, mas sofreu diversas lesões corporais. Ela foi encaminhada ao hospital, mas não resistiu aos ferimentos e morreu;
- 20 de dezembro de 2025: uma mulher foi estuprada e brutalmente espancada durante 15 minutos, na Asa Norte, por um homem em situação de rua. A vítima reagiu, inicialmente, mas levou diversos socos na cabeça. Na época do crime, a mulher foi socorrida em estado gravíssimo.
Internação involuntária
Afinal, como o poder público tenta coibir essa onda de ataques? Uma das medidas anunciadas pelo GDF, em julho, foi a sanção da lei que institui acolhimento à população em situação de rua e autoriza internação humanizada de caráter involuntário.
De acordo com o projeto sancionado, a internação involuntária deve ser aplicada apenas em casos excepcionais de “risco iminente à vida do indivíduo ou de terceiros, atestadas por profissional médico”. O Ministério Público do DF e Territórios (MPDFT) e outros órgãos de fiscalização deverão ser comunicados em 72 horas, segundo a proposta.

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Ver todasO projeto também prevê acolhimento voluntário e proíbe “ações coletivas ou generalizadas que impliquem em recolhimento forçado ou internação compulsória de grupos sem a devida individualização de cada caso”.
Alguns dias após a sanção, o MPDFT encaminhou uma análise técnica a respeito da lei e apontou “precarização” e “falta de recursos humanos” da rede de atendimento à população em situação de rua.
Atuação ostensiva
Procurada pela reportagem, a secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF) disse, por meio de nota, que atua de forma integrada com demais órgãos do governo local na realização de ações voltadas à preservação da ordem pública, à prevenção da criminalidade e à promoção da segurança da população.
“Entre essas iniciativas está o Plano Distrital para a População em Situação de Rua, que reúne ações coordenadas de atendimento humanizado e de garantia de acesso a serviços públicos em diferentes regiões do DF”, ressaltou a pasta.
A SSP-DF afirmou, ainda, que o trabalho é baseado em ações de inteligência, policiamento orientado pela análise das manchas criminais, reforço do policiamento ostensivo e operações voltadas à prevenção e à repressão qualificada dos crimes.
A Secretaria destacou também a importância da ampliação da cobertura do programa DF 360 e da adesão de câmeras privadas ao sistema. “O compartilhamento voluntário das imagens fortalece o cercamento virtual do DF, amplia a capacidade de monitoramento das forças de segurança e contribui para respostas mais rápidas e eficazes às ocorrências”, pontuou a nota.
Uma das principais reclamações das forças policiais é sobre a facilidade com que os presos são liberados. Em muitos dos casos divulgados pela reportagem, os autores tinham fichas criminais extensas, alguns deles com mais de 10 passagens, pelos mais variados tipos de delitos.
A reportagem entrou em contato com o Tribunal de Justiça do Distrito Federal (TJDFT). Porém, até a publicação desta matéria, não houve retorno. O espaço segue aberto para esclarecimentos.
Acompanhamento
Em relação ao acolhimento da população em situação de rua, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF) disse, em nota, que atua em conjunto com outras pastas, também por meio do Plano Distrital para a População de Rua. O órgão afirmou que, desde junho de 2024, já acompanhou 558 ações e fez 4.644 abordagens a pessoas em situação de rua.
“É preciso frisar que a Sedes acompanha, sistematicamente, as pessoas em situação de rua do DF, incluindo as que vivem na Vila Planalto e em Águas Claras, por meio de 26 equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas)”, pontuou a nota.
De acordo com a Sedes, essa atuação inclui evolução de atendimento — criação de prontuário com abordagens frequentes — em que são ofertados, além do acolhimento, benefícios e encaminhamento para outras políticas.
A pasta destacou ainda que tem dois Centros Pop, que funcionam diariamente, a partir das 7h, e servem como ponto de apoio durante o dia para pessoas em situação de rua, onde é possível guardar pertences, fazer higiene pessoal, ter alimentação (café da manhã, almoço e lanche), além de obter orientações sobre direitos e benefícios. A Sedes calculou que, até julho de 2026, as unidades fizeram 11,1 mil atendimentos.
O órgão também ressaltou as duas unidades do Hotel Social, com 200 vagas diárias de pernoite, cada, com direito a dormitório, banho quente, duas refeições e espaço para animais de estimação. Desde a inauguração em 2025, de acordo com a Sedes, as unidades fizeram mais de 81 mil acolhimentos/pernoites.



