Covid-19: proporção de infectados nas prisões do DF é 28,5 vezes maior do que no restante da capital

Com 16.648 mil indivíduos, entre detentos e policiais penais, na comunidade carcerária, número de doentes cresce exponencialmente

Fotos de agentes penitenciários no HRAN com suspeito de CovidHugo Barreto/Metrópoles

atualizado 20/05/2020 17:35

Os alertas de entidades e especialistas sobre a proliferação do novo coronavírus no sistema penitenciário do Distrito Federal se confirmaram e tendem a se agravar. Menos de um mês após registrar o primeiro caso de infecção, em 3 de abril, 758 pessoas, entre presos e policiais penais, testaram positivo para a Covid-19, duas pessoas morreram e 14 estão internados em Unidades de Terapia Intensiva (UTIs). Os dados constam nos boletins mais recentes das secretarias de Segurança Pública (SSP) e de Saúde (SES).

Com 16.648 mil indivíduos, entre detentos e policiais penais, a taxa de incidência de contaminação na comunidade carcerária do DF é de 4,55%. Proporcionalmente, esse percentual é 28,5 vezes maior do que o registrado na capital do país. O Distrito Federal tem 3 milhões de habitantes e 4.898 doentes – ou seja 0,16% da população recebeu o diagnóstico positivo para Covid-19.

Quando comparado com o Brasil, o número de doentes é proporcionalmente 35 vezes maior na população carcerária do DF. Enquanto a taxa de incidência na contaminação nos presídios da capital federal é de 4,55%, em todo o país, fica em 0,13%.

Gráfico com Comparação entre o sistema prisional do DF e dados de contaminados no Brasil e na capital federal

 

 

Os seis presídios do sistema penitenciário do DF ultrapassam, proporcionalmente, a quantidade de contaminados nos países mais atingidos pela Covid-19 no mundo.

Quando a referência passa a ser os Estados Unidos, nação com mais mortes e casos computados no planeta, a quantidade de pessoas que testaram positivo para o vírus dentro das cadeias da capital do Brasil é 9,6 vezes maior.

O gráfico abaixo compara a taxa de incidência de casos por 100 mil habitantes do sistema prisional do DF e dos cinco países com mais infectados no mundo:

Gráfico que compara a quantidade de casos de covid-19 no sistema prisional do DF e no Mundo

Esses índices preocupantes tendem a aumentar, de acordo com as observações do presidente do Centro de Empoderamento e Defesa dos Direitos Humanos, Michel Platini. “Eu falei sobre o colapso desde o início. O grau de proliferação é muito alto. As celas, feitas para sete ou oito pessoas, abrigam 50. Se um pegar a Covid-19, todos ali vão se contaminar rapidamente” argumentou.

Para o especialista, as prisões do DF agravam a pandemia. “Ainda não há protocolo de higiene nem de como lavar roupas. Os policiais usam máscaras, mas os presos, não. Como essas pessoas serão atendidas se precisarem de UTI?”, questiona Platini.

Assista ao vídeo do Michel Platini, presidente do Centro de Empoderamento e Defesa dos Direitos Humanos:

Presos por unidade

Devido à superlotação do sistema e à pandemia, o Tribunal de Justiça do DF e Territórios (TJDFT) analisou e deferiu 1.532 processos de sentenciados que cumpriam pena no regime semiaberto e passaram para o aberto. Assim, foi possível reduzir o número de internos, que chegava a quase 17 mil. De acordo com levantamento feito nessa terça-feira (19/5), existem hoje 15.125 pessoas abrigadas dentro dos presídios do DF.

São 665 mulheres na Penitenciária Feminina do Distrito Federal (PFDF). Dentro do Complexo Penitenciário da Papuda, o Centro de Detenção Provisória (CDP) abriga 3.150 presos. O Centro de Internamento e Reeducação (CIR) tem 1.595 apenados.

A Penitenciária do Distrito Federal I (PDF 1) possui 4.093 internos, e a Penitenciária do Distrito Federal II (PDF 2), 4.091. O Centro de Progressão Penitenciária (CPP) registra 1.093 pessoas. Outros 438 homens estão no CDP 2.

Além dos detentos, as unidades prisionais têm 1.523 servidores ativos da Subsecretaria do Sistema Penitenciário (Sesipe). Porém, a pasta perde sua força de trabalho a cada dia, seja em razão de licença médica devido à Covid-19 ou por outras questões, como licenças maternidade e férias, entre outros benefícios previstos em lei.

Com a morte do policial penal Francisco Pires de Souza, no último domingo (17/05), e sete servidores da área internados com a doença, o presidente do Sindicato dos Policiais Penais do Distrito Federal (Sindpen), Paulo Rogério da Silva, perdeu as esperanças.

“Não vejo saída. Estamos em uma situação em que ‘se correr o bicho pega, se ficar o bicho come’. Vamos trabalhar, cumprir nosso dever, mas tudo que oferecem para nós em termos de proteção, testagem e tratamento é muito tímido”, ressaltou o sindicalista.

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Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública do DF, na noite dessa terça-feira (19/5), 98 policiais penais tinham testado positivo para a Covid-19 e 105 se encontravam recuperados. Parte dos que fizeram o exame ainda aguarda a contraprova, ou seja, os números podem sofrer alterações nos próximos levantamentos. “Até o momento, já foram aplicados, pela Secretaria de Saúde, mais de 3,2 mil testes em internos e policiais penais no DF”, informou a SSP.

Em decorrência da Covid-19, quatro policiais penais se encontram internados, sendo um no Hospital Regional da Asa Norte (Hran) e três na rede hospitalar particular do DF. Os demais apresentam sintomas moderados e foram afastados das atividades. Os recuperados já retornaram aos postos de trabalho.

Detento perde a vida

No caso dos 555 presidiários infectados, sete estão internados com a Covid-19, sendo seis no Hran e um no Hospital de Base.

Após a morte do policial penal Francisco Pires de Souza, na terça-feira, foi confirmada a segunda morte no sistema carcerário em decorrência da Covid-19. Dessa vez, de um interno. Ele estava na Penitenciária do Distrito Federal 1, localizada no Complexo da Papuda. O Metrópoles apurou que ele tinha comorbidades e estava internado no Hran desde o último dia 3.

Caso no Presídio Federal de Brasília

Além da Papuda e da Penitenciária Feminina, o presídio Federal de Brasília também começa a ter contaminados. Foi registrado, nessa terça-feira, um preso de 40 anos que chegou à Penitenciária Federal de Brasília com sintomas do novo coronavírus. Ele realizou exames e teve a doença confirmada. Acusado de ameaçar uma juíza em Pernambuco, ele foi trazido do estado nordestino sem que qualquer teste para a Covid-19 tivesse sido realizado.

A unidade, que fica perto do Complexo Penitenciário da Papuda, ainda não havia registrado nenhum caso de Covid-19. O local abriga uma célula do Primeiro Comando da Capital (PCC). Entre os presos, está o líder máximo do PCC, Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. A facção criminosa paulista é a maior do país.

O que diz a SSP

Segundo informações da SSP, algumas medidas vêm sendo tomadas, em trabalho conjunto com a Secretaria de Saúde, para que não haja colapso na rede carcerária em função do coronavírus. Uma delas é o uso de dois novos blocos dos novos CDPs para tratamento e quarentena de presos durante a pandemia. “Dessa forma, 400 vagas – 200 em cada – estão disponíveis”, disse a pasta.

A Secretaria de Segurança Pública informou ainda que a instalação de hospital de campanha na Papuda está em fase de finalização da fundação. Ele terá 10 leitos equipados com suporte de ventilação mecânica e 30 leitos de retaguarda para ventilação. A previsão da Secretaria de Saúde é de que a obra seja concluída até 23 de maio.

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