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Um condomínio residencial em Águas Claras deu importante passo para a inclusão social de pessoas com deficiência. A pedido do morador Valter Júnior de Melo, 50, deficiente visual, o síndico conseguiu adquirir módulos de voz para os elevadores do prédio. “Com isso, tudo ficou mais seguro e acessível”, diz Valter.

O homem teve perda total da visão aos 22 anos. Atualmente, é cantor gospel, compositor e escritor – tendo publicado uma autobiografia. Morador do condomínio residencial Mirante Club Residence desde 2009, solicitou diversas vezes a instalação do equipamento. Os pleitos, no entanto, deram resultado apenas em 2018.

Por meio de anúncio sonoro, o aparelho indica o andar em que está o elevador, além de avisar o abrir e fechar da porta. Para cegos, o benefício é grande, pois a sinalização mais comum, em braille, fica do lado de fora do elevador – quando existe. Nesse tipo tradicional, a pessoa precisa esticar a mão para fora se quiser saber o andar. Por essa razão, Valter fazia uso apenas das escadas.

À frente do condomínio desde abril, José Antônio de Souza, 59, diz estar muito satisfeito. “Ficamos sensíveis com o pedido, mas não fizemos mais do que a nossa obrigação. É um direito que ele tem e uma necessidade que atendemos”, comentou.

O síndico começou as tratativas com a empresa de manutenção dos elevadores no começo do ano, quando assumiu a administração. Após a renegociação de contatos, o equipamento, inicialmente orçado em R$ 26 mil, foi adquirido quase sem custos e será implementado em breve.

“Uma pena que algo tão útil seja tão caro, mas eu acredito que seja viável para outros condomínios também, se houver negociação conjunta”, pondera Valter.

Dificuldades
Para o cantor, a acessibilidade no Distrito Federal é melhor do que em outras unidades da Federação. Essa realidade se aplica principalmente às regiões planejadas. Porém, conforme o próprio Valter descreve, o tema é algo que necessita ser desenvolvido e mantido.  “Em Águas Claras, é difícil andar a pé. As calçadas precisam ser corrigidas”, denuncia.

O residencial não foi o único a se adequar às necessidades. “Flórida e Alabama”, no Gama, começou as mudanças em 2017, conforme conta o síndico do local, Amauri Santana. Rampas para cadeirante e idosos estão em processo de implementação. No entanto, a iniciativa está longe da maioria dos prédios do DF.

Maristela Batista, 51, deficiente visual, conta que o condomínio onde vive há dois anos, em Samambaia Sul, não possui acessibilidade. A mulher é presidente e membro da Associação de Amigos do Deficiente Visual.

Da minha portaria até o portão não tem piso tátil. Quando preciso sair, já interfono para o vigilante, que me ajuda a andar até lá. De casa até a parada de ônibus também não tem nada acessível. Não tem rampa, não tem nada"
Maristela Batista, presidente da Associação de Amigos do Deficiente Visual

Ela diz que o problema não está apenas nos condomínios. O sistema de transporte público, segundo Maristela, ainda é muito precário. “Está começando a melhorar agora, mas na Rodoviária, por exemplo, não temos piso tátil ou indicadores.”

A engenheira civil especialista em acessibilidade Márcia Muniz classifica a questão como muito complicada no DF. A profissional trabalha com o tema há 15 anos em consultorias, vistorias e acompanhamento. “Nas obras públicas pode ocorrer de colocarem as medidas, mas a manutenção dificilmente acontece. No caso dos antigos prédios residenciais, são necessárias reformas.”

Piso tátil no começo e final das escadas, sinalização dos andares e indicação em braile nos elevadores são alguns exemplos que precisam ser seguidos pelos condomínios. No entanto, de acordo com Márcia, muitos locais ainda precisam de adaptação. “As normas existem há muito tempo, mas só começaram a ser cobradas agora”, destaca.