Chuva retorna e escancara velhos problemas de infraestrutura do DF

Em Vicente Pires, no condomínio Porto Rico, no Setor Santa Luzia e em Ceilândia, moradores enfrentam problemas com os temporais

Michael Melo/MetrópolesMichael Melo/Metrópoles

atualizado 19/10/2018 22:02

A chuva desta sexta-feira (19/10), além de causar transtornos, expôs velhos problemas de infraestrutura no Distrito Federal. Em Vicente Pires, vias ficaram alagadas e veículos acabaram atolados no lamaçal. No Setor P Norte, em Ceilândia, o asfalto cedeu em uma obra para instalação de redes pluviais e uma van caiu no buraco.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o volume de água registrado na madrugada superou o acumulado dos 18 dias de outubro. É apenas o começo das chuvas e dos transtornos. De inundações, alagamentos, ruas enlameadas a buracos e enxurradas, Brasília acumula problemas provocados pela má captação, drenagem e escoamento da água.

As áreas de risco do DF são as mais afetadas pela infraestrutura precária. São pelo menos 36 regiões que vivem em alerta, onde estão 4,7 mil imóveis, segundo levantamento feito pela Agência de Fiscalização do Distrito Federal (Agefis) em 2017.

Metrópoles visitou algumas regiões que costumam enfrentar mais problemas na época da chuva. Na Rua 10 de Vicente Pires, por exemplo, um ônibus ficou preso no barro, dificultando a passagem dos outros carros nesta sexta. O cobrador Denilson José de Souza, 47 anos, disse que o coletivo precisará passar por reparos. Segundo ele, o para-choque do veículo foi danificado.

O motorista de transporte escolar Elias Alves dos Reis, 50, iniciava o trabalho às 6h, quando o micro-ônibus que ele conduzia caiu em um buraco na Rua 3 da mesma cidade. No momento do acidente, ele transportava duas crianças. Por sorte, ninguém se feriu.

A auxiliar de serviços gerais Erici Teixeira, 52, trabalha há um ano na mesma loja em Vicente Pires e diz que a situação é dramática quando chove. Nesta sexta-feira (19), ela ficou uma hora parada na rua, sem coragem de atravessar. “Se eu pisar ali, sei que vou atolar. É sempre assim, desde que começaram a fazer essa obra.”

 


“Cratera”

Considerada uma das áreas mais preocupantes, o Setor Habitacional Ribeirão, no condomínio Porto Rico, em Santa Maria, é o retrato do descaso governamental. Sem asfalto, energia elétrica e esgoto, moradores vivem há quase 12 anos com medo da chuva na região.

Localizado em um desnível, o local recebeu o apelido de “cratera” pelos moradores. Em 2017, as fortes chuvas quase transformaram a vida de Paula Sousa, 28, em uma tragédia. Seu filho, que na época tinha 11 anos, foi carregado pela forte enxurrada, mas acabou salvo a tempo pelos vizinhos.

Ele vinha da peixaria de bicicleta. Chovia muito. Meu filho acabou perdendo o equilíbrio e caindo. Uma correnteza o levou. Se não fosse pelos vizinhos, ele não estaria mais aqui

Paula Sousa, moradora do Porto Rico

A Defesa Civil incluiu o local como área de risco e uma barragem foi construída para conter a água, que, segundo os moradores, “desce e sai levando tudo pelo caminho”. “Nem choveu direito e já está entrando água nas casas. Vivemos ilhados por aqui. Temos que ver se essa barreira vai solucionar nossos problemas”, disse.

Gambiarra
A também moradora Alzinete Rodrigues, 32, acalenta outra preocupação: acabar sendo vítima de uma descarga elétrica. Na região, todo fornecimento de energia é obtido à base de gatos e gambiarras feitas pela própria população. O esgoto não chega e os moradores recorrem a fossas. Em alguns locais, vivem em meio a fezes e urina.

“Estamos abandonados. Muita gente tem criança aqui e elas ficam expostas ao esgoto. Já pensou isso na chuva? Entrando e invadindo as nossas casas. É um medo que me dá toda vez que chove”, reclama Alzinete.

O Setor Santa Luzia, na Vila Estrutural, é outra área crítica. O local fica ao lado da empresa Capital Recicláveis e, quando chove, os lixos e entulhos de construção civil despejados diariamente na unidade são levados pela enxurrada.

Em Santa Luzia, crianças brincam em meio aos resíduos, poças d’água e lamaçal. “Choveu, já era. Lama por aqui é rotina. Entra no comércio e nas nossas casas. Às vezes, chove tanto que isso aqui mais parece um rio, de tanta água”, destacou.

Procurada pela reportagem, a Subsecretaria de Defesa Civil informou que emite alertas sobre as condições climáticas e monitora de maneira contínua as áreas costumeiramente mais afetadas pela chuva. “Os pontos críticos coincidem com áreas onde o solo foi ocupado de maneira desordenada”, ressaltou, em nota.

Tesourinhas
Quem passa pelas tesourinhas do Plano Piloto também tem medo das grandes poças de água que se formam quando um bueiro entope e não consegue dar conta do escoamento. Uma das quadras que colecionam episódios de inundação é a 210 Norte, onde moradores ficam “ilhados” e comerciantes saem no prejuízo.

Chaveiro na quadra desde 2001, Emerson da Silva Moreira, 38, tem muita história para contar. “Quando chove, não tem como passar, não – só de barco. A quadra para, o trânsito congestiona, é um caos.”

Na 210 Sul, o problema é o mesmo. A moradora Solange Maria Carvalho, 60, evita sair de casa durante os dias chuvosos. “Ano passado, até viajei. Não estava por aqui, mas recebi de uma vizinha um vídeo em que a tesourinha mais parece uma cachoeira, jorrando água”, destacou.

Outro lado
A Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), as secretarias de Infraestrutura e de Serviços Públicos, das Cidades e a Subsecretaria de Defesa Civil dizem trabalhar em conjunto para prevenir e enfrentar os transtornos causados pela chuva.

Os órgãos disseram que estão fazendo, em Vicente Pires, por exemplo, pelo menos 185,6km de obras de drenagem pluvial. “O sistema contará com 22 bacias de qualidade e detenção, das quais cinco já foram concluídas, além de 136 lançamentos”, destaca nota encaminhada ao Metrópoles.

Em Santa Luzia, a Defesa Civil e a Administração Regional da Estrutural planejam a “execução de um plano de contingência, caso seja necessário”. Porto Rico, em Santa Maria, por sua vez, segundo o governo, teve “obras de drenagem concluídas e entregues à população em junho deste ano”. “Foram executados 15km de rede de drenagem e uma bacia de qualidade e detenção”, completou a Novacap.

“Além disso, pelo segundo ano consecutivo, a Secretaria das Cidades coordenou uma operação de limpeza e desobstrução de bocas de lobo, se antecipando ao período chuvoso. O cronograma de ações seguiu levantamento de pontos críticos de alagamento da Defesa Civil”, destacou a nota.

Ao todo, segundo informou o documento, foram 495 bocas de lobo desentupidas e 76 toneladas de lixo recolhidas no Plano Piloto (com foco nas tesourinhas e na W3 Norte), Taguatinga, Gama, Planaltina, Núcleo Bandeirante e Ceilândia.

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