Caso Bernardo: polícia suspende buscas por corpo em rodovia

Os policiais que conduzem as apurações acreditam que Paulo Osório criou uma história para desviar a atenção e manipular as investigações

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atualizado 05/12/2019 10:46

Policiais da Delegacia de Repressão a Sequestro (DRS) suspenderam as buscas pelo corpo do menino Bernardo, de um ano e 11 meses, na BR-020. O pai da criança, Paulo Roberto de Caldas Osório, 45 anos, confessou ter matado o filho e indicou para os investigadores o local onde teria jogado o cadáver.

Durante toda essa quarta-feira (04/12/2015), um efetivo da Polícia Civil do Distrito Federal ficou mobilizado na rodovia, próximo à Roda Velha (BA). O helicóptero da corporação também prestou apoio para vasculhar a área. De acordo com os investigadores, o local apontado pelo criminoso é uma região de plantação de soja e tem quatro trechos de mata fechada, que foram exaustivamente vasculhados pelos agentes. Até mesmo uma jiboia foi encontrada.

Os policiais que conduzem as apurações acreditam que Paulo Osório criou uma história para desviar a atenção e manipular as investigações. Agora, a polícia vai reconstituir o passo a passo do crime para descobrir, por outros meios, o que foi feito com a criança.

Frio a ponto de confessar ter matado o próprio filho por vingança, Paulo assustou até os investigadores mais experientes da PCDF. Aos policiais, relatou com tranquilidade e riqueza de detalhes as horas que antecederam o assassinato.

Dissimulado
Descrito por autoridades policiais, vizinhos e colegas de trabalho como “introspectivo”, “dissimulado” e “de poucas palavras”, o funcionário do Metrô-DF tinha facilidade para esconder das outras pessoas com quem se relacionava até mesmo os pormenores mais sórdidos da sua vida.

Paulo Osório foi capaz de ocultar o assassinato da própria mãe em 1992, do qual foi o autor. Apenas os vizinhos da quadra sabiam da história, ocorrida na mesma residência onde a Polícia Civil acredita que Bernardo tenha sido morto. Foi, inclusive, um morador da 712 Sul que revelou à mãe do bebê, Tatiana da Silva, 30, o homicídio cometido pelo agente de estação do Metrô em 1992.

A mulher só soube do crime 17 anos após a absolvição do criminoso. Pelo assassinato da mãe, Paulo Osório ficou 10 anos internado na ala psiquiátrica da Papuda. Na ocasião, ele tinha apenas 18 anos. Segundo a polícia, a vítima foi surpreendida por Paulinho, como era chamado à época, assim que chegou em casa: o então jovem esfaqueou e enforcou a mãe. Em seguida, queimou o corpo dela.

Solto em 2002, Osório voltou ao endereço onde cometeu o matricídio. Dividiu a casa da família com o pai, Paulo Jarbas, até fevereiro deste ano – quando o idoso morreu em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Sozinho, o homem voltou a apresentar sinais dos transtornos psiquiátricos que o levaram à reabilitação, segundo os vizinhos. Chegou a se afastar do trabalho por licença médica.

Paulo Osório usava medicamentos controlados. Para insônia, tomava hemitartarato de zolpidem: remédio que ajuda pacientes com insônia adormecerem.

Aos investigadores da DRS, o homem afirmou ter dopado o pequeno Bernardo com o sonífero usado em seu tratamento. A morte, conforme contou, teria sido provocada por uma superdosagem do medicamento.

Em seu relato à polícia, o homem disse ter diluído três comprimidos da substância no suco de uva que deu ao filho.

Saiba como ocorreu o crime, na versão do pai de Bernardo: 

De pouca conversa

Os colegas de trabalho nunca desconfiaram do comportamento de Paulo Roberto de Caldas Osório, que atuava como agente de estação da Companhia do Metropolitano (Metrô-DF) na 112 Sul, próximo de onde morava. Para empregados do local, o homem aparentava ser “um cara calado e de pouca conversa”.

A notícia do crime assustou os colegas. “Recebi com surpresa essa notícia. Ele era muito na dele, mas nunca imaginei que fosse capaz de algo tão bárbaro”, diz um funcionário do Metrô que pediu para não ser identificado. “Era muito reservado. Conversávamos sobre música, bichos de estimação. Paulo sempre se disse um amante dos animais”, relembra.

Veja fotos sobre o caso: 

 

“Periculosidade”

Preso na Bahia, o metroviário passou por audiência de custódia nessa quarta-feira (04/12/2019). Na decisão em que converte a prisão de Paulo Osório em preventiva, o juiz do Tribunal do Júri de Brasília, Fellipe Figueiredo de Carvalho, ressaltou a crueldade do ato, classificado pelo magistrado como “extremamente grave”. “Cuida-se de homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver, que o autuado teria cometido contra o próprio filho, criança de 1 ano e 11 meses de idade”, destaca.

Tudo isso demonstra frieza, ousadia ímpar e extrema periculosidade, bem como a necessidade da constrição cautelar para garantia da ordem pública, não sendo suficiente a concessão de liberdade provisória ou a aplicação de medidas cautelares diversas da prisão

Trecho de decisão do juiz Fellipe Figueira de Carvalho, do Tribunal do Júri de Brasília

Para o juiz, Paulo Osório não aparentou ter “qualquer tipo de perturbação mental”. “Consciente, localizado no tempo e no espaço, com raciocínio concatenado e fala fluída e harmônica”, diz trecho da sentença.

A mesma frieza observada pela Justiça fica evidente durante o depoimento colhido pelos investigadores da DRS. Na conversa, na qual confessa o crime, Osório admitiu que estava chateado com a mãe da criança, pois a mulher recorreu à Justiça em busca de pensão para o filho. “Eu estava num momento de necessidade. Meu pai tinha morrido. Teve a greve do Metrô. E ela não precisava do dinheiro”, pontuou (veja vídeo abaixo).

O homem revelou como deu a medicação para Bernardo, quando descobriu que o filho havia morrido e por que decidiu descartar o corpo às margens da rodovia que liga os estados de Goiás e da Bahia: “Pensei na merda que ia dar”. Toda a história é contada sem emoção, com frieza.

Questionado sobre a sensação sentida ao ver o filho morto, Paulo Osório falou que evita pensar no assunto. “Ele [Bernardo] era minha alegria. Tudo que eu tinha era ele”, disse. O momento da declaração é o único em que o homem se impacienta na cadeira e mostra alguma sensibilidade.

Confira:

Mãe tem esperanças

A angústia da mãe do pequeno Bernardo aumenta a cada minuto. Ao Metrópoles, na manhã desta quinta-feira (05/12/2019), ela voltou a dizer  que ainda tem esperanças de encontrar o filho vivo.  “Estou com uma angústia, mas ao mesmo tempo esperança de ele voltar para casa”, desabafa Tatiana da Silva.

Colaborou Jak Spies

 

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