“Beco do crack” cresce a 1,5 km de delegacia e escolas na Asa Norte
Segundo moradores e comerciantes, a região da 716 Norte foi tomada por traficantes, usuários de drogas e bandidos
atualizado
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O “beco do crack” cresce na 716 Norte, em Brasília (DF), a aproximadamente 1,5 km de distância da 2ª Delegacia de Polícia (Asa Norte) e de diversas escolas particulares tradicionais da capital. A região, que virou um eixo do crime, é um exemplo do avanço da criminalidade e da sensação de insegurança na Asa Norte (DF).
Veja:
Travestidos de pessoas em situação de rua bandidos furtam, roubam e ameaçam moradores, comerciantes e trabalhadores em diversas regiões da Asa Norte. Sem resposta das Forças de Segurança ou da Assistência Social, o tráfico de drogas, em especial o crack, tomou a 716 Norte, a qualquer hora do dia ou da noite. Embalados por essa versão distorcida do conceito de liberdade traficantes, usuários e bandidos transformaram o ponto no “beco do crack”.
O Metrópoles percorreu a 716 Norte na manhã de segunda-feira (13/4). Por segurança, as identidades das famílias e dos trabalhadores ouvidos serão mantidas em sigilo. Do ponto de vista de Dona Maria*, a região está nas mãos do crime. “O Governo do DF abandonou a gente. São muitas pessoas em situação de rua. Querem doação a todo custo. Xingam, ameaçam, furtam toldos, plantas… A sensação é de medo” contou.
Os núcleos do “beco do crack” ficam entre os blocos A e B, bem como G e H da área comercial. Com pouca iluminação, criminosos, usuários de drogas e traficantes ficam à vontade, principalmente a partir das 18h, embora a sensação de insegurança dure 24 horas. “Um deles apareceu balançando a marmita e eu não tinha comida para dar. Daí, ele disse: ‘ah, é? então amanhã volto e quebro tudo”, lembrou Maria.
Jorrou sangue
João* compartilha da aflição e indignação de Maria. “Um deles agrediu uma mulher, que chegou a jorrar sangue na frente das lojas. Já tentaram tirar eles, mas passa uma semana e eles voltam”, comentou.
Para tentar dificultar a ação dos ladrões, muitos fundos de loja estão cercados com grades. Um deles tem até arame farpado.
Além dos crimes, João se queixa da sujeira provocada pelos criminosos e pessoas em situação de rua na região. “Eles fazem as necessidades nas lojas, prédios, não ligam para nada. Damos marmitas, mas não comem. Beliscam e jogam a comida no chão. Acaba atraindo ratos e baratas”, revelou.
O crack tomou o beco
Fernando* é outro morador da região que se diz estarrecido com a ousadia dos criminosos. “As casas estão sendo assaltadas, duas, três vezes. A polícia prende, mas chega na delegacia, assina o Boletim de Ocorrência e é solto. O crack tomou conta do beco, são dezenas de pessoas. E, quando chega à noite, o cidadão que trabalha, paga impostos, fica à mercê” desabafou.
O que dizem os órgãos do GDF
A Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF) respondeu que questões de segurança devem ser tratadas pelas autoridades competentes. “A pasta elucida que não existem dados ou estudos que comprovem que pessoas em situação de rua são delinquentes ou cometem delitos. É importante não generalizar para não estigmatizar ainda mais um público que já é muito vulnerável”.
A Sedes ainda frisou que não faz remoção de pessoas em situação de rua. “O papel deste GDF é garantir o acesso dessa população à rede de proteção social do Distrito Federal, o que tem sido tratado de forma transversal por meio do Plano Distrital para a População de Rua, pioneiro no Brasil, para criar vínculos, prestar atendimento, desenvolver autonomias e acelerar o processo de saída das pessoas das ruas no Distrito Federal. O documento é composto de medidas integradas de diversos órgãos, como a ação de acolhimento, que ocorre quase que diariamente em diversos pontos do DF”.
A pasta ainda disse possuir dois Centros Pop (Asa Sul e Taguatinga) que funcionam diariamente, a partir das 7h, “e servem como ponto de apoio durante o dia para quem vive ou sobrevive nas ruas”.
A Secretaria ressaltou ainda que acompanha, sistematicamente, as pessoas em situação de rua do DF, sobretudo as da Asa Norte, por meio de 26 equipes do Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas). Essa atuação inclui evolução de atendimento (criação de prontuário com abordagens frequentes) em que são ofertados acolhimento em unidades permanentes e possibilidade de pernoite no Hotel Social, que alcançou mais de 40 mil acolhimentos de pernoite desde sua inauguração. Também são oferecidos benefícios e encaminhamento para outras políticas públicas de Justiça, Saúde, Trabalho, etc. A população pode acionar a abordagem social por meio da Ouvidoria, no 162.
Já a Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF) destacou que a Asa Norte foi escolhida para o lançamento, recentemente, do programa Brasília Mais Segura, que consiste em intensificar o policiamento nos locais com maior incidência de consumo de drogas e de furtos durante a madrugada.
A pasta reconheceu que muitos criminosos se travestem de pessoas em situação de rua para cometer crimes e não serem reconhecidos. “A SSP-DF reconhece que a concentração de pessoas em situação de vulnerabilidade e o tráfico de entorpecentes em áreas comerciais elevam a percepção de risco. Um dos principais fatores é a infiltração de criminosos que utilizam essa vulnerabilidade como escudo para o tráfico de drogas e a prática de delitos, como o furto de cabos, por exemplo”.
(*) – Nomes fictícios
















