Avó de comprador da Naskar tem Alzheimer e ganhava R$ 1 mil por mês
Mulher de 77 anos não responde pelos próprios atos civis, aponta a Polícia Civil de MG. Investigação aponta exploração por parte do neto

Avó do comprador da Naskar e atual administradora da fintech bilionária, Célia de Fátima Ferreira, de 77 anos, é portadora de Alzheimer e tem o neto, Douglas Silva de Oliveira Azara, de 26 anos, como o seu responsável legal. O nome de Célia ocupa o noticiário desde que Douglas anunciou ter comprado a instituição após o Metrópoles revelar um calote de R$ 900 milhões em 3 mil clientes.
Douglas chegou a dizer, em conversa com uma cliente lesada do Caso Naskar, que transferiu outras 49 empresas para o nome da avó, que, segundo investigação da Polícia Civil de Minas Gerais (PCMG), não tem condições de responder por si mesma. O empresário fugiu para Dubai após ser apontado como mentor de um esquema que desviou R$ 60 milhões de uma empresa ligada à família do ex-governador de Minas Gerais Romeu Zema (Novo).
Apesar de aparecer ligada a dezenas de empresas do neto com capital milionário, a mulher reside atualmente em um apartamento de classe média dentro de um condomínio localizado em Uberlândia (MG). O mesmo endereço também era utilizado por Douglas até meados de 2025.
O último emprego de Célia foi como recepcionista de seguro-saúde, recebendo um salário de R$ 1.019. Outros endereços ligados à mulher nos últimos anos mostram que ela morava em ruas simples da cidade situada no triângulo mineiro.
Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles DFCélia Ferreira chegou também a abrir uma empresa de comércio varejista, em Monte Carmelo (MG), cidade localizada a 100 km de distância de Uberlândia. O negócio foi aberto em 1988, mas fechado logo no ano seguinte.
Enquanto o nome da avó de Douglas figura em empresas milionárias do neto, o patrimônio formal que aparece registrado no nome de Célia é apenas uma Honda CG. O ano de fabricação da motocicleta é 1997. Com valor estimado de R$ 6,2 mil, Célia financiou o veículo.

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Ver todasUso da avó como “laranja”
Durante o inquérito que apura o ataque cibernético contra a Zema Financeira, empresa ligada à família do ex-governador de Minas, Romeu Zema, a Polícia Civil de MG destacou uma relação de exploração e uso consciente da vulnerabilidade por parte de Douglas contra a própria avó.
A polícia concluiu que Célia de Fátima Ferreira foi colocada na linha de frente do esquema para servir como escudo patrimonial. Célia figurava como titular de contas bancárias e de empresas de fachada, como as nomeadas Serygma, TRX e Truviax, para onde fluíam os recursos desviados da Zema Financeira.
No nome de Célia, foram realizados mais de 300 pagamentos em boletos bancários, somando um valor superior a R$ 1,5 milhão. O dinheiro abastecia o Banco Phoenix, de Douglas, conforme as investigações da PMMG.
Durante as apurações, a Polícia Civil constatou que a idosa não tinha qualquer consciência dos crimes praticados ou do volume financeiro movimentado em seu nome. Pelo seu diagnóstico de Doença de Alzheimer, Célia não responde mais por seus atos civis. Por conta da condição de saúde da avó, Douglas figurava formalmente como seu representante legal.
Para os investigadores, o contraste entre a vida humilde da idosa e as movimentações milionárias provou que Douglas utilizava a procuração da avó para assinar documentos societários em nome dela, abrir contas bancárias de passagem, ocultar o verdadeiro beneficiário da fortuna desviada e criar camadas de blindagem para dificultar a responsabilização criminal e o rastreamento das autoridades.
Desvio de R$ 60 milhões da família de Zema
Como revelado pelo Metrópoles, Douglas é acusado de liderar esquema que desviou R$ 60 milhões da Zema Financeira, instituição que pertence ao conglomerado de empresas da família de Romeu Zema. A investigação da Polícia Civil de MG revela que a maior parte do dinheiro desviado do Grupo Zema foi parar na conta do Banco Phoenix, que tem Douglas Silva de Oliveira Azara como único sócio.
Entenda a fraude financeira
- O golpe teria sido viabilizado pelo uso indevido de uma credencial vinculada à Stefanini Consultoria, empresa de tecnologia da informação contratada para desenvolver o aplicativo da Zema Financeira.
- A credencial teria sido vazada ou obtida de forma ilegal por um prestador de serviço da Stefanini, de acordo com as investigações.
- Ao conseguir burlar o acesso ao sistema da Zema Financeira, um grupo criminoso orquestrado por Douglas realizou acessos diretos às chaves de pagamento da instituição. Em seguida, quitou boletos falsos e fez transferências milionárias para empresas de fachada e contas de “laranjas”.
- A Polícia Civil de MG cruzou dados de inteligência com informações telemáticas e constatou que a conexão IP utilizada para operar a invasão contra o sistema da Zema Financeira partiu do próprio endereço residencial de Douglas Azara, localizado em um condomínio fechado em Anápolis (GO).
- Orquestrado por Douglas, o grupo criminoso atuou em duas frentes: enquanto parte do bando atuava como “laranja”, recebendo, pulverizando e lavando os recursos desviados no ataque à Zema Financeira, outros integrantes davam apoio tecnológico e viabilizavam a execução do ataque, assegurando a infraestrutura do grupo e ocultando os rastros das atuações.
- No total, 19 empresas de fachada, com títulos como Serygma, TRX e Truviax, foram usadas pelo grupo investigado para operar o esquema e conseguir fazer o desvio dos R$ 75 milhões dos cofres da Zema Financeira.
Casos de família
De acordo com as investigações, Douglas usou não só a avó, mas também a namorada e o cunhado na fraude contra a Zema Financeira. A companheira de Douglas seria a advogada Jessika Lorrane Bastos de Castro, de 35 anos.
Moradora de Anápolis (GO), Jessika Lorrane tem um mandado de prisão em aberto em seu desfavor. Irmão de Jessika e cunhado de Douglas, Maycon Douglas Bastos de Castro também é citado nas investigações. Maycon está preso desde 23 de junho deste ano.
Marllon Henrique Castro Silva, apontado como diretor de TI do grupo criminoso, também foi preso em 23 de junho.
Viagem para Dubai com prisão decretada
Douglas Silva de Oliveira fugiu para Dubai, nos Emirados Árabes, em 15 de julho deste ano. Duas semanas antes, Douglas teve prisão preventiva decretada por liderar o esquema que desviou R$ 75 milhões da Zema Financeira.
O Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) expediu, em 1º de julho, mandado de prisão preventiva contra Douglas. Mesmo assim, o empresário chegou a dizer nas redes sociais que a ida para o país árabe seria viagem de férias. Depois, afirmou que se tratava de “um business”.
O que dizem as defesas
Douglas Silva de Oliveira Azara alega que não tem ligação com a fraude contra a Zema Financeira e que teria sido “usado”. “Não estou envolvido nisso. Utilizaram minha plataforma bancária para tal feito, mas já está sendo provado na Justiça que possuo zero envolvimento de fato”, diz.
A defesa de Jessika Lorrane Bastos de Castro disse que “não procede a alegação de que teriam ocorrido movimentações financeiras vultosas em suas contas bancárias”. “Até o presente momento, não foi apresentado qualquer documento, extrato bancário, comprovante ou outro elemento concreto que demonstre a existência dessas supostas movimentações”, pontua o advogado Marcelo Teixeira de Sousa.
Quanto ao cunhado de Douglas Azara, Maycon Bastos de Castro, o escritório Gratão & Cunha nega participação do investigado. A defesa alega que Douglas usou documentos pessoais de Maycon sem autorização. “Assim que tomou conhecimento da utilização irregular de seus documentos, Maycon procurou espontaneamente a Polícia Civil e registrou boletim de ocorrência contra Douglas”. Os advogados alegam que Maycon teria se afastado da própria irmã “justamente para evitar qualquer aproximação, convivência ou contato com Douglas Azara.”
O advogado Hauany Pimenta, que defende Marllon Henrique Castro e Silva no processo, afirma que o investigado não participou dos fatos. “Seu contato com pessoas vinculadas à empresa mencionada no procedimento limitou-se ao âmbito estritamente profissional, em razão de contratação para a prestação de serviços técnicos de tecnologia da informação”, afirma.
A Zema Consultoria diz que segue acompanhando a apuração do crime cibernético. “Ataques como este têm vitimado instituições financeiras no Brasil e no exterior, o que exige atuação cooperativa entre entidades públicas, privadas e o sistema de justiça. Confiantes no trabalho das autoridades, aguardaremos a conclusão das investigações”, encerra.
O Metrópoles também aguarda retorno da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) em Goiás sobre a advogada Jessika Lorrane Bastos de Castro, apontada pelas investigações como companheira de Douglas e envolvida no esquema por ele arquitetado.













