Após fechar salão na crise, morador do DF monta barbearia móvel em van

Em um ano, a quantidade trabalhadores autônomos no DF cresceu 20%. Alberico Pereira foi um dos profissionais afetados pela crise da pandemia

atualizado 09/07/2021 20:18

Barbeiro Alberico Pereira de SousaGustavo Moreno/Especial Metrópoles

Após 42 anos cortando cabelos em salões de beleza, o barbeiro Alberico Pereira de Sousa (foto em destaque), 58, precisou buscar uma alternativa para manter-se na profissão e conseguir driblar a crise econômica que surgiu com a pandemia do novo coronavírus. Neste ano, o morador de Ceilândia fechou as portas do estabelecimento que tinha na 208 da Asa Sul e resolveu montar uma barbearia móvel, em uma van, para também atender em domicílio.

“Eu gosto muito do que eu faço, é a minha vida. Cada cabelo que corto eu fico muito orgulhoso”, diz Alberico. “Mas eu fechei em abril, porque no segundo lockdown eu já não dei mais conta“, comenta.

Alberico é natural de Eliseu Martins, município no Piauí. Ele já atuava como barbeiro quando mudou-se para o Distrito Federal, em 1989, e começou a atender clientes em um salão de beleza no Guará. De lá, foi trabalhar em outros salões, na Asa Sul.

“Quando cheguei aqui, fui trabalhar como vigilante. Mas, de dia, atuava como barbeiro, na QE 30 do Guará. Comecei por lá e, em 1990, passei para a Asa Sul, onde estou até agora”, conta.

Com o passar dos anos, o barbeiro passou a ficar conhecido na região. Trabalhou com carteira assinada e, há 10 anos, abriu o próprio salão, na 208 Sul. Com a crise, porém, fechou a loja neste ano e logo precisou de uma alternativa para manter o sustento dele e da família.

“Quem mexe com gente tem que ter responsabilidade com o cliente. Às vezes, funcionários não tinham muita responsabilidade, deixavam o cliente esperando. Então pensei em ter um negócio só meu”, diz. “Essa minha ideia da barbearia na van eu tive em 2004. Só que, na época, eu não pude concretizar. Com a pandemia, resolvi abrir esse novo negócio e tenho clientes que estão comigo até hoje”, acrescenta.

“Vendi o carro que tinha e comprei a van. Eu mesmo quem montei tudo. Como eu já tinha as cadeiras, fui complementando aos poucos e ainda vou melhorando com o tempo, porque precisa ter dinheiro. Essa pandemia foi muito pesada para a área da beleza”, completa Alberico.

Para ele, além de ser uma ideia inovadora, também proporciona maior segurança aos clientes durante a pandemia. “Abri meu próprio salãozinho, minha barbearia móvel e só de estar no ventinho, ao ar livre, já é bom. Não tem aglomeração, cada um tem seu horário”, destaca.

De segunda a sábado, por volta de 7h, Alberico estaciona a van em uma vaga na área residencial da quadra e começa a atender os clientes ainda cedo. Fica até 18h30 e retorna para casa no mesmo veículo. “Mas, se valer a pena, eu vou até a casa do cliente. A partir de três pessoas [contratando o serviço], atendo em domicílio”, pontua.

Ele diz que os melhores dias de faturamento são sexta, sábado e segunda, mas que ainda está com o movimento abaixo do que tinha antes da pandemia. “Antes, eu cortava 25 a 30 cabelos por dia. Aqui é 10, 12, 15…”, comenta.

Hoje, Alberico é microempreendedor individual (MEI). Apesar das dificuldades do trabalho autônomo, ele acredita em dias melhores e sabe que pode contar com os clientes antigos.

O funcionário público João Paulo dos Reis Junior, 55 anos, conhece Alberico há 20 anos e diz que o sobrinho João Pedro Borges de Souza Reis, 12 anos, é cliente do barbeiro desde pequeno. “Todo mundo da família corta com ele. E aqui é tranquilo, porque é tudo aberto, bem ventilado”, afirma.

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Aumento de trabalhadores autônomos no DF

Em um ano, a quantidade trabalhadores autônomos no Distrito Federal cresceu 20,9%. É o que mostra a última Pesquisa de Emprego e Desemprego no Distrito Federal (PED-DF) da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan).

Conforme o estudo, entre maio de 2020 e maio de 2021, a quantidade de profissionais autônomos no DF passou de 201 mil para 243 mil. São, portanto, 42 mil a mais neste ano.

A pesquisa mostra que a taxa de desemprego total diminuiu de 21,3% para 19,4%, entre maio de 2020 e de 2021 na capital. No entanto, neste período, houve um aumento de 33,3% de trabalhadores sem carteira de trabalho assinada no setor privado. Em maio de 2020 eram cerca de 75 mil e, em maio deste ano, aproximadamente 100 mil.

Veja os números:

Dados exigem atenção

Conforme analisa a professora do Departamento de Administração da Universidade de Brasília (UnB) Débora Barem, que é especialista em mercado de trabalho, é possível notar um começo de retomada na área econômica neste momento. No entanto, ainda é preciso maior atenção com os dados da informalidade na capital federal.

“Antes da pandemia nós já estávamos numa crise em relação a empregos. A pandemia veio dar uma piorada num cenário que já não vinha muito bem, com muitos postos de trabalho sendo fechados”, pontua.

“Já vínhamos observado um processo que a gente chama de ‘uberização’, que é quando uma série de profissionais, por quais motivos forem, acabam ‘preferindo’, entre aspas, porque não necessariamente preferem, ser seus próprios chefes. É um processo de transformação de empregos formais para os sem carteira assinada, onde o indivíduo passa ele próprio a ser a empresa”, completa a especialista.

Assim, Débora destaca que, apesar de a taxa de desemprego estar em queda, é importante que a retomada dos empregos caminhe junto do aumento de postos formais. “As pessoas precisam sobreviver e acabam entrando primeiro na informalidade, buscam tipos de trabalho que possam ser feitos de forma mais simples, abrem um MEI…”, diz.

“Tem muita empresa mandando os indivíduos embora e dizendo ‘faz um PJ e eu te contrato’. Aí, a pessoa deixa de ter um emprego formal, passa a ter que construir uma pessoa jurídica para poder prestar aquele serviço. As pessoas estão tentando achar soluções, mas uma coisa que a gente precisa fazer analise é: a que preço? Temos sempre que pensar nos direitos a saúde, nos direitos desse profissional quando ele envelhecer, quando ficar doente”, avalia a professora.

“Estamos melhorando [em relação à crise provocada pela pandemia], mas esse número da informalidade precisa ser olhado com mais atenção. Lá na frente como ficarão indivíduos, como fica a aposentadoria?”. “Outro ponto é que precisamos tomar conta das nossas mulheres, porque os postos femininos, se você pegar o global, estamos perdendo muita renda e isso também exige cuidado”, enfatiza Débora.

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